Literatura de Verdade

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Nelson estava certo — ou nem tão errado assim

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album de familia

Anos depois de terem sido escritas e encenadas, as peças mais cabeludas de Nelson Rodrigues ainda não perderam força. Claro que o impacto causado pela relação de um homem casado com uma prostituta — ou por uma relação homossexual — não é mais o mesmo, mas questões como o incesto, também abordadas pelo jornalista, estão provavelmente entre temas que nós nunca vamos conseguir resolver direito.

Pois deem uma olhada na história que a repórter Ivana Ferrari, da revista Época, foi arrumar lá em Minas Gerais. O paralelo com a obra de Nelson Rodrigues é de fato inevitável. E se tem gente chamando o cara de monstro no site da revista em pleno século XXI, imagina o que não era ver esse tipo de coisa encenada no teatro em 1900 e lá vai cacetada. É por isso que o dramaturgo vivia discutindo com a platéia. Sensacional:

Família, herança e histórias de incesto

Sueli Brandão quer ser reconhecida como neta-filha-amante do bilionário Antônio Luciano Pereira, uma lenda em Minas Gerais por causa da voracidade sexual
Ivana Ferrari, de Belo Horizonte

Há dois meses, a dona de casa Sueli dos Reis Brandão, de 54 anos, entrou com uma ação de investigação de paternidade na Justiça de Minas Gerais. Ela afirma ser herdeira de parte de um patrimônio estimado em US$ 3 bilhões. A história da qual Sueli quer fazer parte está descrita em um processo de 118 volumes e 50 mil páginas, mas poderia ter sido escrita em linhas menos técnicas e mais cruas por Nélson Rodrigues. Ela diz ser integrante de uma família que lembra aquela criada por Nélson em Álbum de família, peça proibida pela censura em 1946, porque tratava de incesto. Sueli afirma à Justiça ser, ao mesmo tempo, filha e neta do empresário mineiro Antônio Luciano Pereira Filho, morto em 1990. Ela diz ser fruto de uma suposta relação incestuosa entre Antônio Luciano e uma de suas filhas, Ana Lúcia Pereira Gouthier. Afirma também ter sido amante do próprio pai, um personagem que nem Nélson Rodrigues teve a ousadia de criar.

(…)

Além de milionário e mulherengo, Antônio Luciano ganhou fama pelos hábitos sexuais exóticos. Assim como Jonas, o pai da história de Álbum de família, Antônio Luciano era um “colecionador de virgens”. Segundo o jornalista Durval Guimarães, que prepara um livro sobre ele, Antônio Luciano afirmava ter mantido relações sexuais com mais de 2 mil virgens. A maioria delas, de acordo com Guimarães, eram moças pobres, entregues a ele por seus pais em troca de dinheiro. Na sede da imobiliária Fayal, de onde administrava seu patrimônio, Antônio Luciano também negociava virgindades.

Sueli dos Reis Brandão afirma ser a 31ª filha de Antônio Luciano. Ela diz ser filha dele com outra filha, Ana Lúcia Pereira Gouthier. O incesto não é novidade no currículo de Antônio Luciano. Um dos 27 filhos reconhecidos por ele, Antônio Mendes Rodrigues, também é filho-neto: é fruto da relação de Antônio Luciano com Clausy Soares Rodrigues, uma de suas filhas. Antônio seria, ao mesmo tempo, filho e irmão de Clausy. Quando perguntado sobre incesto, nos anos 1980, Antônio Luciano usou uma comparação com passarinhos – outra de suas paixões – para se explicar. “Passarinho não tem pai, só tem mãe”, disse. “Passarinho tem filhos com suas filhas porque a figura do pai não existe.”

O caso de Sueli é estranho, porém, até para o heterodoxo padrão sexual de Antônio Luciano. Segundo ela, em seu caso, a vida teria ido ainda um pouco mais longe do que Nélson Rodrigues imaginou em Álbum de família. Na peça, Glória, a filha de Jonas, não consuma o amor pelo pai. Mas Sueli diz que, além de ser filha de uma relação incestuosa, ela mesma teria sido amante de Antônio Luciano, seu pai-avô. Sueli diz que a relação dos dois era “especial”.

O texto integral no site da Época.

Escrito por Rodolfo Borges

Setembro 6, 2009 em 2:01 pm

Literaturhotel

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artelivros1Um hotel para onde o hóspede com a intenção de ler. A ideia deve parecer absurda para a maioria da população mundial, porque a leitura não costuma ser tida como algo que se possa fazer por prazer, mas tem um pessoal na Alemanha apostando que manter um local prazeroso para a leitura pode render frutos. O Literaturhotel Franzosenhohl de Iserlohn ainda não esteve lotado durante seu primeiro ano, e eu nem esperaria por isso. Se tiver mesmo a ver com literatura, infelizmente será para poucos.

Escrito por Rodolfo Borges

Setembro 2, 2009 em 11:53 pm

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Bouvard e Pécuchet, Mainardi e Lula

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bouvard e pecuchet

Tem edição recente do Bouvard e Pécuchet da Estação Liberdade no mercado, inclusive com o Dicionário das idéias feitas mencionado pelo Mainardi no texto abaixo. Quem não conhece que conheça.

O gosto azedo da mesmice

Ali Kamel é o Flaubert do lulismo. Flaubert? Gustave Flaubert? Ele mesmo. No Dicionário das Ideias Feitas, publicado postumamente como um adendo ao seu último romance, Bouvard e Pécuchet, Flaubert reuniu, em ordem alfabética, os lugares-comuns mais idiotas difundidos na Terceira República francesa. Ali Kamel, no Dicionário Lula, cumpriu uma tarefa semelhante. Com o rigor e com a imparcialidade de um dicionarista, ele sistematizou o pensamento de Lula, destrinchando os lugares-comuns por meio dos quais ele se comunica.

O bronco retratado e ridicularizado por Flaubert no Dicionário das Ideias Feitas orgulha-se de papagaiar platitudes sobre praticamente todos os assuntos, da pobreza à dor de dente, da imprensa à gramática. Lula é igual. Sobre a pobreza: “Somente quem passou fome sabe o que é a fome”. Sobre a dor de dente: “Somente quem já teve dor de dente sabe o que é uma dor de dente”. Sobre a imprensa: “Só tem notícia negativa”. Sobre a gramática: “Daqui a pouco vou falar en passant. Para quem tomou posse falando ‘menas laranja’, está chique demais”.

Na última semana, fazendo propaganda do ProUni, Lula repetiu a blague sobre o fato de falar “menas laranja”. A blague sobre o fato de falar en passant também já foi repetida outras vezes nestes sete anos. Quantas vezes? Uma? Duas? Nada disso. De acordo com Ali Kamel, em seu prefácio, foram catorze vezes no período pesquisado para compor o Dicionário Lula. O repertório presidencial é minguado. E Lula repisa enfadonhamente os mesmos episódios, os mesmos comentários, as mesmas tiradas, conferindo um gosto azedo a esse fim de mandato – o gosto azedo de um governo que já caducou.

Há um aspecto desolador na obra de Ali Kamel: em 669 pá-ginas de discursos e pronunciamentos, Lula mostra-se incapaz de articular uma única ideia minimamente elaborada sobre o Brasil e os brasileiros. Ao analisar o país, ele sempre recorre às imagens mais ordinárias com as quais somos caracterizados. “Deus fez duas coisas com o Brasil: deu uma natureza de beleza incomparável e um povo maravilhoso, ordeiro e generoso.” Ou: “A beleza do Brasil está na nossa mistura, que produziu este povo de múltipla cor, alegre”. As banalidades proferidas por Lula refletem os métodos primários e grosseiros empregados por ele para conduzir o governo. Pior ainda: elas refletem a mesquinhez de seu projeto político.

A asnice representada pelas ideias feitas é a “verdadeira imoralidade”, disse Flaubert. E acrescentou: “O diabo é só isso”. Se Flaubert está certo – e ele está –, o Brasil é o inferno. O verdadeiro inferno.

Por Diogo Mainardi

Escrito por Rodolfo Borges

Setembro 2, 2009 em 12:05 am

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A revolução dos bichos

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animal farm

George Orwell anteviu, em 1948, um mundo onde todos seriam monitorados permanentemente. O Big Brother de seu 1984 é tão emblemático que virou nome de um dos programas de televisão mais famosos do mundo (quer glória maior nos dias de hoje?) e acabou se tornando referência quando o assunto é sistema de câmeras. Baseado apenas nessa previsão, eu não diria que nosso amigo britânico é lá um profeta. Mas em tempos de gripe suína, gripe aviária e mal da vaca louca, algo me diz que a Revolução dos Bichos (Animal Farm) de Orwell também tem seu quê de previsão.

No livro, inconformados com o tratamento que recebem, os animais tomam uma fazenda para estabelecer sua própria ordem. A diferença da revolução animal a que estamos submetidos agora (se é possível dizer isso sem parecer um lunático) é que os bichos não têm a intenção de nos machucar.  Eles nem ao menos têm consciência do estrago que fazem. E esse alheamento animal nos dificulta muito as coisas. Melhor seria se infectar os homens estivesse nos planos do porco Bola de Neve e de seus asseclas.

A gripe suína não tem culpados, ou pelo menos culpados que possam ser apontados e punidos. Pode ser que nosso modo de vida contribua para o desenvolvimento de mutações virais, mas, nesse caso, todos somos responsáveis e, portanto, nenhum de nós o é. Daí o dilema: como combater um mal sem responsáveis quando nosso costume é simplesmente encontrar e punir o culpado?

O governo mexicano tentou pôr em discussão qual seria o país de origem da doença, mas, depois que ela se espalhou, a questão perdeu o sentido. Antes o vírus tivesse sido espalhado por uma gangue de porcos enfurecidos ou por terroristas inconsequentes. Uniríamo-nos contra o inimigo e, com algumas bombas e milhares de homens bem intencionados, cortaríamos o mal pela raiz — alguns porquinhos chegaram a perder a vida no Egito por causa de um raciocínio semelhante.

Mas a nossa dificuldade em enfrentar doenças não se resume à ausência de um inimigo, porque a inexistência de alguém a combater é apenas um sintoma, uma indicação do real motivo dos nossos problemas para vencer epidemias, pandemias e afins. Numa situação como a que mundo vive hoje, está cada um por si. A verdade é que quando não há quem combater, combatemos a todo mundo.

Em Brasília, teve gente passando nas farmácias para comprar todas as máscaras contra gripe do estoque. Nos aeroportos, o dilema era se apresentar com sintomas da gripe e ser obrigado a cumprir quarentena ou se esconder da fiscalização e gozar qualquer que fosse a doença em casa. Convenhamos que ficar recluso em poder de autoridades competentes (ou nem tanto) não sugere diversão, mas se o bem-estar da humanidade está em jogo, que se há de fazer?

Não que esse negócio de humanidade valha alguma coisa, que dirá um sacrifício. O drama é perceber que o mal dos outros pode ser o nosso próprio mal. Quer dizer, de que adianta ter todas as máscaras contra gripe se o mundo inteiro pegou a doença? Vale a pena evitar uma quarentena forçada e infectar toda a família dentro de casa? No final das contas, somos reféns dos outros em situações de epidemia. Cuidar de si mesmo é cuidar dos outros. O egoísmo vira caridade. Bota revolução nisso, bicho!

Escrito por Rodolfo Borges

Maio 27, 2009 em 1:37 am