Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Antônio Vieira, o padre treloso

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Faz tempo que tento emplacar “treloso” num título, e a oportunidade não poderia ter se apresentado de forma melhor. Não apenas porque o padre Antônio Vieira era de fato encrenqueiro, mas porque boa parte de suas trelas ocorreu no nordeste brasileiro, onde o termo em questão faz mais sentido do que em qualquer outra parte do país — e eu aproveito pra voltar pro Recife, embarcado na nostalgia. Se você acha os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo saidinhos demais, reveja seus conceitos em “Antônio Vieira, jesuíta do rei” (Ronaldo Vainfas, Perfis Brasileiros, Cia. das Letras, 2011, 352 p.).

Se a melhor forma (ou mais fácil)  de admirar Antônio Vieira é ler seus célebres sermões, é na compulsiva atuação política do padre que mora a saudável relativização do gênio. O religioso que, não se assuste, ainda hoje pode ser capaz de lhe convencer sobre a legitimidade da escravização de africanos, tinha uma queda por intrigas de poder, das quais invariavelmente saiu mal.

Ainda assim, Vieira praticamente governaria Portugal por dez anos, enquanto principal conselheiro do rei dom João IV. Durante os anos 1640, o padre ganharia o status informal de chanceler português e, seja pela falta de habilidade política de Vieira ou pela situação complicadíssima em que Portugal se encontrava, o resultado dessa diplomacia está longe de ser o maior de seus legados.

Que sirva de aperitivo se você for ler o livro e de informação se o assunto não lhe interessar mais: Antônio Vieira chegou a se posicionar contra a Igreja, contra o próprio Papa, ao encampar, em favor da recuperação econômica de Portugal, a causa dos judeus portugueses, impossibilitados de viver no país sob o risco permanente de serem condenados pela Inquisição. E essa não foi a única confusão em que ele se meteu.

O padre tomou o partido dos cristãos-novos (os judeus, que não podiam ser judeus em Portugal) de olho no dinheiro desses comerciantes, que poderiam ajudar a coroa portuguesa a sustentar suas disputas com a Espanha e com a Holanda — os holandeses haviam tomado Pernambuco dos portugueses anos antes. Vieira chegou a defender num célebre texto chamado “Papel Forte” que Portugal não tinha condições de enfrentar a Holanda pelo Nordeste brasileiro, e que seria melhor entregar de vez o território ou comprá-lo dos holandeses — tudo para poder concentrar forças na defesa de seu próprio território, ameaçado pelos espanhois.

Esse tipo de comportamento não contribuiu para o prestígio do jesuíta na colônia, principalmente depois que os rebeldes brasileiros conseguiram expulsar os holandeses.

No fim da vida, Vieira ainda atacaria de profeta, ou melhor, historiador do futuro, o que soa ainda mais pretensioso. Com base em textos proféticos, o padre anunciaria o advento de um Quinto Império, governado por Portugal, na seqüência dos impérios dos Egípcios, dos Assírios, dos Persas e dos Romanos. O detalhe é que esse império português seria liderado  pelo ressuscitado dom João IV. A brincadeira só não valeu uma punição maior para o jesuíta porque a Inquisição portuguesa não era uma instituição apenas religiosa e Vieira tinha lá sua importância política.

O livro

E o que dizer, enfim, do livro se Ronaldo Vainfas? Que, por ter sido escrito por um historiador, pode soar enfadonho em algumas passagens, dada a riqueza de detalhes dispensáveis ao leigo. E que talvez seu maior pecado — indigno de punição pela Inquisição, diga-se — seja não ter dado mais atenção aos sermões de Vieira, algo perfeitamente justificado pela opção por tratar da militância política do padre e também pela extensão compacta do livro.

Para complementar a leitura, portanto, vale ler os sermões, e tem edição nova na praça, editada também pela Cia. das Letras, pelo selo Penguin. “Essencial Padre Antônio Vieira” reúne sermões, cartas e textos proféticos que dão conta da riqueza da obra do jesuíta. Se você não tem disposição ou dinheiro para gastar com mais um livro, fica a dica: como a obra de Vieira data do século 17, está praticamente tudo disponível na internet, e os textos podem ser encontrados no www.dominiopublico.gov.br e no www.brasiliana.usp.br/vieira_sermoes.

Na próxima vez que passar pela estante de religião da livraria, portanto, vê se dá uma chance ao Antônio Vieira, que nasceu em Portugal, mas se criou por aqui. E fica a minha propaganda também para os religiosos. Todo mundo já leu Ágape, vai. Quer sentir Jesus Cristo na veia? Lê os sermões do padre Vieira.

Antônio Vieira, jesuíta do rei
Ronaldo Vainfas, Perfis Brasileiros, Cia. das Letras, 2011, 352 p.

Essencial Padre Antônio Vieira
Organização Alfredo Bosi, Cia. das Letras, 2011,  760 p.

Escrito por Rodolfo Borges

Janeiro 27, 2012 em 11:40 pm

Eike, o jogador

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Como falar sobre um bilionário de modo que não soe apenas como inveja? Ou melhor: é possível falar sobre um homem rico sem parecer ressentido pelo fato de que ele tem mais dinheiro que você? Minha resposta é sim, e aí vai uma fórmula: antes de tudo, é preciso dizê-lo. Isto aqui não é fruto de inveja ou ressentimento. Depois, é imperativo prová-lo, e é essa a intenção disto aqui.

Eike Batista é o oitavo homem mais rico do mundo e o fato de eu estar escrevendo sobre ele, e não ele sobre mim, dá uma ideia do abismo que nos separa. Homens como ele são essenciais para que o mundo continue funcionando. Empreendedores e cheios de dinheiro no bolso, esses caras mantêm a máquina girando, geram empregos que nos permitem sobreviver e promovem o avanço científico e essas outras coisas muito importantes.

Dito isso, eu estava pronto para acrescentar que tenho pena do megaempresário, mas a modéstia e o senso de ridículo me aconselharam a substituir o termo por compaixão. Eike me lembra o Aleksei Ivánovitch do Dostoiévski. Um jogador. E dos bons, diga-se. A única diferença entre o empresário e o apostador compulsivo de Dostoiévski é que o brasileiro tem dinheiro. Sempre teve. E isso é condição mínima para se manter no jogo.

Está na recém-lançada biografia do homem X: seu primeiro grande desafio foi a asma, aos 12 anos, que ele curou, instruído pela mãe, numa piscina aquecida, mas dramaticamente descoberta. Não, eu não acho que ninguém deva se envergonhar por acumular dinheiro, mas, talvez, por ter compulsão por isso, como qualquer pervertido tem, lá no fundo, vergonha de seus impulsos.

Por que alguém acumula muito mais reservas do que precisa? Porque pensa no futuro e quer garantir segurança ou simplesmente porque essas são as regras do jogo? A distância mínima entre as duas opções deve ser calculada em milhões. E, quando a conta passa daí, não é mais você quem manda, mas o dinheiro.

É, o dinheiro manda em você quando é pouco, mas também quando é muito. Ou lhe parece confortável ser apenas o oitavo homem mais rico do mundo? Você estaria satisfeito?

Quando comecei a sacar essa história de dinheiro, veio a epifania: ganhe o bastante para que ele não atrapalhe e o suficiente para que ele não domine. O que eu quero dizer é que o dinheiro não vale para mim o mesmo que vale para Eike Batista. Ou seja, o pouco que eu tenho é muito, e, por mais que ele tenha muito, será sempre pouco.

A consolação da filosofia, certo, Boécio? Pode ser, mas vai dizer que não faz sentido? Eu tava lendo um Goethe outro dia e ele dizia que a classe média é condição para o gênio se manifestar. Vou ficar por aqui mesmo.

Escrito por Rodolfo Borges

Janeiro 21, 2012 em 10:16 am

A cabeça de um homem

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Ou il est fou, ou il est innocent!
Comissário Maigret

Desonra ao mérito 2011

O ano de 2012 começou com tudo, mas não dá pra dizer que 2011 acabou. Você já deve ter percebido que há anos que demoram mais a acabar do que outros, a depender do que ocorreu durante seus 365 dias. A longevidade varia de acordo com eventos de ordem pessoal – um casamento, uma mudança – ou coletiva. No caso de 2011, o que parece ter ficado de mais forte é o tsunami que varreu parte do Japão e reacendeu o perigo atômico. Mas, afora a força da natureza, o que ficou para mim, do balanço coletivo, foram os massacres cometidos por civis.

Provavelmente o número total de mortos nesses ataques surpresa não foi maior do que a soma dos óbitos de outros anos, mas um deles ocorreu no Brasil, o que não é normal, e, no pior dos atentados, apenas um homem levou quase 80 vidas. Dois mil e onze teve novo ataque no campus de Virginia Tech, no Estados Unidos, e, em abril, um holandês de 24 anos matou seis num shopping center na cidade de Alphen aan den Rijn. Não foram os únicos, mas, em meio a todos, destaco três para conceder a Desonra ao Mérito Demasiado Humano 2011.

Humano, no caso, está longe de ser essa coleção de regras e convenções que nos permite viver em grupo. Aliás, é o exato contrário: a incapacidade de resistir aos próprios impulsos combinada à capacidade de legitimá-los sob argumentos invariavelmente lunáticos. E, em 2011, ninguém foi mais humano, nesse sentido, do que Anders Behring Breivik, o famigerado carniceiro de Oslo.

Reunindo uma série de preconceitos de cunho xenófobo e conservador, Breivik atacou em dois lugares diferentes, usou dois tipos de arma e, para coroar a crueldade, deu preferência à morte de jovens – de quebra, ainda pôs em dificuldade a combalida direita mundial, sem falar na Lacoste. Não tem competição para ele em 2011. É nosso primeiro lugar.

Quem mais se aproximou do norueguês foi Wellington Menezes de Oliveira, o vice. O jovem que disparou contra crianças numa escola de Realengo, no Rio, usou como justificativa para o ataque a crueldade e a covardia de que foi vítima, o que torna redundante qualquer comentário sobre o absurdo do raciocínio. Para piorar (ou melhorar sua posição no ranking dos piores), Wellington se matou, o que impediu a saciedade de nossa sede por justiça e a consequente impressão de que está tudo sob controle.

Por último, mas não menos humano, Nordine Amrani, o belga de origem marroquina que usou granadas para matar três, entre eles um bebê, e ferir uma centena, e que aparece aqui como contraponto àqueles que se valeram dos homicídios cometidos por Brevik para criticar o pensamento conservador. Graças ou não a sua origem africana, Amrani não teve vida fácil na Bélgica, onde se envolveu com crimes desde novo, e onde matou e morreu por se sentir perseguido.

Três caras distintos – dois deles, opostos. O que têm a ver um com o outro além de figurar na primeira edição do Prêmio Demasiado Humano? Caso para o comissário Maigret, que lidou com um tipo desses em “A cabeça de um homem”. Radek, um cara capaz de matar para se entreter. Um estrangeiro como Amrani, maltratado como Wellington e inteligente como Breivik. Quatro homens embriagados por um sentimento de superioridade limitado apenas pelas injustiças do acaso.

Perfume ou o erudito universitário

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Faz algum tempo que “Ai, se eu te pego” extrapolou os limites do razoável. O clipe já foi visto mais de cem milhões de vezes e a música ganhou versão até para surdos. O mais impressionante é que o hit não foi lançado por nenhum mega artista pop americano. Não bastasse, a música já existia há três anos, mas só fez sucesso depois que um cantor chamado Michel Teló gravou um vídeo e jogou na internet. Diante da repercussão mundial, pergunto: seria esse cara um gênio?

É prematuro responder à pergunta antes dos próximos dois ou três sucessos, mas é preciso reconhecer alguma competência na popularização mundial de uma música. Você dirá que “gênio” é exagero, e eu, acuado, serei forçado a sacar O Perfume, do Patrick Süskind. Conhece a história de Jean-Baptiste Grenouille?

Nascido em meio a uma feira e expelido pelo corpo da mãe sobre restos de peixe, Grenouille veio ao mundo fadado a morrer cedo. Mas não morre e, graças ao olfato apuradíssimo, consegue, mesmo sem instrução formal, criar o melhor perfume do mundo, capaz de induzir multidões ao amor. A música do Teló não é tão potente, mas fez seu estrago.

Pode ser delírio, vai ver fui afetado pelo hit, mas esse frenesi todo em torno de uma música tosca não te leva a considerar que é possível ser genial mesmo nas esferas mais rasas, como o olfato ou o sertanejo universitário? Não é que ele seja um Mozart ou um Beethoven – não se trata de fundar o erudito universitário –, mas captar o que o povo gosta e conseguir expressá-lo em forma de música ou literatura ou cinema tem lá os seus méritos, por mais que fira sua sensibilidade esteticamente privilegiada.

“Ai, se eu te pego” faz sucesso exatamente por ser simplório – e porque tem dancinha, claro. E umas meninas bonitas no clipe. A música fala sobre a paquera da maneira mais rasteira, ou melhor, simplesmente reproduz a paquera. E, por ser tão simples, todo mundo no mundo inteiro entende. Não engrandece a alma, mas distrai – o que o velho Settembrini diz, lá nA Montanha Mágica, que é o efeito de qualquer música mesmo.

Talvez o incômodo de alguns diante do sucesso de “Ai, se eu te pego” resida na percepção de que a maior parte da população mundial não precisa de mais do que algo do tipo para se satisfazer – hora de baixar as expectativas em relação à humanidade, galera. A pergunta que vai ficar sem resposta é: onde Teló e os compositores da música poderiam chegar se tivessem alguma educação estética? Se te consola, eles não estão nem aí pra isso.

Escrito por Rodolfo Borges

Janeiro 8, 2012 em 11:50 pm

Pais e filhos

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Tivesse lido Turguêniev, Jader Barbalho seria mais cuidadoso ao levar os filhos a sua posse no Senado. Tudo bem que ninguém além de Romero Jucá se dignou a aparecer nas fotos que registraram o retorno de Jader ao Senado, mas o showzinho do filho Daniel diante de câmeras sedentas por uma boa imagem deve ter se encarregado de demonstrar ao senador os riscos de envolver a família nesse tipo de evento.

O moleque fez de tudo. Fora as caretas e chifres devidamente fotografados, o menino chamou o pai, que assumia vaga no Senado, de vereador. Não é o caso de chamar Daniel de niilista, Bazárov do Pará, essas coisas, mas ficou bem claro, na quarta-feira, quem toma conta de quem. Não é que eu queira entrar muito nesses assuntos pessoais, Jader, mas você levou o menino para a cova dos leões, certo?

E o tiro acabou saindo pela culatra. Não entremos nessa de que seus pais não te entendem, mas você não entende seus pais. O menino ainda é novo, mas, apesar de expor o senador, mostrou sintonia com o progenitor. Espontâneo, Daniel simplesmente resumiu em imagem o deboche do pai ao, antes de tudo, se candidatar ao Senado depois de abandonar a Casa para fugir da cassação.

O erro de Jader foi não calcular o potencial estrago dessa distância etária que separa um pai de um filho – ao menos até que o rebento cresça. A essência será sempre a mesma, por mais que tentemos negá-la, mas, caro senador, o menino só vai aprender a arte da política (ou dissimulação, como quiser) com o tempo. Enquanto isso, pais, é melhor manter a relação dentro de casa, para não assustar ninguém com a suas versões cruas.

Lá no Turguêniev, Nikolai Petróvich tem “pensamentos tristes” ao compreender com clareza pela primeira vez “a distância que o separava do filho” Arkádi, então influenciado pelo amigo Bazárov, e lamenta ao pressentir que, “a cada dia, essa distância havia de aumentar mais e mais”. Calma, minha gente, a história do livro comprova que os filhos não evoluem exatamente dessa forma. Para o bem e para o mal.

Escrito por Rodolfo Borges

Dezembro 30, 2011 em 10:45 pm

A história de um cachorro

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Sugestão do Como cães e gatos (http://cceg.tumblr.com/)

Eu não ia assistir ao vídeo. Cachorro é o meu fraco. Mas a coisa causou tanto alvoroço que a curiosidade passou por cima da prudência. Eu vi a cachorrinha tremendo, acuada. A cena é braba. E provocou tanto incômodo que a vida da agressora virou um inferno depois da divulgação das imagens. Como já se falou o bastante sobre esse mulher — e a exposição se encarregou de puni-la –, tentemos entender, enfim, o motivo de tanta comoção.

Quase que simultaneamente à onda de indignação provocada pelas imagens do espancamento da Yorkshire, surgiu um outro movimento, de relativização dos maus tratos. “É só um cachorro”, “crianças passam por coisa pior”, “os indignados não fazem nada quando veem mendigos com fome na rua”. Tem muita confusão nesses contrapontos, a começar pelo fato de que o registro em vídeo larga na frente de tudo isso, pela possibilidade de ser replicado.

Fosse uma criança sendo espancada até a morte, ou um velho indefeso ou um homem acuado por quatro ou cinco, imagino que a repercussão da cena seria igual ou pior, porque estamos falando de uma covardia, no fim das contas. É a constatação de que o bichinho não tinha como se defender que nos incomodou. Percebe que o que mais dói é saber que aquele pequeno cão não fazia ideia do que estava acontecendo?

Não existe nada mais genuíno que um cachorro. É uma idiotia permanente, pronta para servir. Não tem malícia, não tem maldade. É só a expectativa de receber e retribuir atenção. O cachorro é um inocente, por definição. Inocente demais para apanhar até a morte, pois não sabe o que faz. Está disponível ao condicionamento, vai fazer o que você ensinar que é correto. E se você não ensinar que é errado urinar no aparelho de ar condicionado, ele vai urinar lá.

Esse lance me bateu tão mal que instintivamente busquei refúgio num Tolstói. Os cavalos estão para o gigante russo assim como os cachorros estão para mim. Foi bom. “Khólstomer, a história de um cavalo” deu uma acalmada, mas também me fez perceber que o tema é pequeno demais para Tolstói. Para resolver a coisa toda, era preciso descer até Dostoievski.

O mestre de Iasnaia Poliana até que manda bem ao contrapor a utilidade do cavalo (mesmo depois de morto) à insignificância de seu antigo dono (antes e depois de morto). Mas quem expõe a dimensão da crueldade que o espancamento de um animal pode atingir é Dostoievski. E a coisa não é bonita.

Está no início do “Crime e Castigo”, quando Raskolnikov sonha assistir ao espancamento de uma égua feita apenas de pele e osso.

Ao deixar um bar, seis amigos embriagados se irritam com a fraqueza do animal, que não consegue mover a carruagem a que está atrelado. A égua leva chicotadas o bastante para ter o ímpeto de arrancar, mas não consegue sair do lugar. Está velha, maltratada e passa a receber pancadas no lombo, na cabeça, na barriga. Enfurecido, seu dono conclama os amigos a espancá-la até a morte.

Eles descem da carroça para acabar com o animal. De nada valem os apelos de quem os observa. A decisão está tomada e, diante da insistência da égua em respirar, o líder dos agressores pega uma barra de metal ou algo do tipo para finalizar o serviço. Bate mais de uma vez. A égua está presa, não consegue escapar e leva pancadas de todos os lados até cair ensanguentada. Raskolnikov acorda e se consola lembrando que foi apenas um sonho.

Escrito por Rodolfo Borges

Dezembro 24, 2011 em 11:33 am

O emblema azul-grená da coragem

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Talvez seja exagero falar em covardia, mas o Santos evidentemente tremeu diante do Barcelona. Até Neymar, que canta de galo por aqui, não arriscou sequer um drible ao longo de toda a final do Mundial de Clubes. A crueldade é que o Santos é o melhor de nós, brasileiros, mesmo. E quem pegar o Barcelona nos próximos anos vai passar por isso.

Sabe quando, na divisão dos times da pelada, os melhores jogadores ficam do mesmo lado? É a melhor definição que encontrei pra esse Barcelona. E, quando eu digo “melhores jogadores”, me refiro àqueles caras que gostam de futebol mesmo, os jogadores que compreendem a superioridade de um bom passe sobre um belo e desnecessário drible. Xavi, Iniesta, Messi, e não Cristiano Ronaldo.

Se você joga bola, sabe do que estou falando. Não tem isso de ficar arrumando o cabelo, pedaladinha. Quando o cara sabe jogar, não precisa ficar inventando moda — e entende que acertar uma boa jogada em grupo é mais importante do que brilhar sozinho. O Barcelona conseguiu juntar um grupo que pensa todo assim. E, quando você está do outro lado, não há muito o que fazer além de tentar apreciar a coisa toda funcionando.

O jogo foi 4×0, poderia ter sido 7×0 e, se o Santos tivesse “jogado como Santos” , como o pessoal dos comentários queria, seria algo em torno de 10×2, com margem de erro de dois gols para mais ou para menos. Está nO emblema vermelho da coragem, do Stephen Crane. A covardia não é dos comportamentos mais lisonjeiros, mas pode salvar a sua vida, ou, no caso do Santos, preservar o clube de uma goleada ainda mais acachapante. No livro, o jovem Henry foge da batalha para preservar a vida. No campo, Muricy Ramalho preservou a instituição Santos o quanto pôde.

Ficarão as críticas a Muricy, que optou por entrar na defensiva. Mas o que ele podia fazer? O futebol brasileiro, reconheçamos, vai tão mais ou menos que um jogador diferente é capaz de decidir não apenas um jogo, mas um campeonato (Conca de 2010, Adriano e Pet de 2009). O Santos tem dois craques, mas o Barcelona tem uns 10. Então ou a gente troca os caras que vão tirar o par ou ímpar antes da próxima partida ou o jeito vai ser apreciar o show de novo.

Escrito por Rodolfo Borges

Dezembro 18, 2011 em 6:28 pm

Residencial Aluísio Azevedo

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Acabou a brincadeira. Chega de opinião e provocação barata. O negócio agora é grana, e da braba. A ideia é boa. E você pode participar disso. Uma sociedade, que tal? Talvez o nobre sócio ainda não saiba, mas está sendo erguido em Brasília o último setor do abençoado Plano Piloto. Lucio Costa, Oscar Niemeyer, aquela coisa, sabe? Pois bem, o Setor Noroeste é tão quente, mas tão quente que, mesmo antes da chegada de qualquer aparelho público ou infraestrutura, já se vendia quitinetes de R$ 500 mil por lá. Meio milhão de reais por 30 metros quadrados.

Eu sei, quem diabos vai morar numa quitinete de R$ 500 mil? E o aluguel? Também me perguntei essas coisas e, para não ficar sem resposta, fui atrás dos corretores da capital federal. Eles dizem que dá, que tem gente para pagar. Até porque o que vale oficialmente a partir de agora em Brasília é a localização.

Pois bem, como tem gente interessada em morar no centro da cidade mesmo que seja num quartinho, aí vai a proposta: que tal um cortiço? Mas um cortiço de luxo. Sustentável. A gente segue a escola Sérgio Naya, João Romão, tudo baratinho, e põe o preço lá em cima. Já tem gente em Brasília fazendo isso. Aí é só escolher um nome pomposo, tipo Residencial Aluísio Azevedo, que a coisa está garantida.

Não é caso de apresentar o complexo habitacional como um cortiço, pra não assustar. Digamos que é um novo conceito em morar: um resgate da vizinhança que se conhece e se ajuda. E sem a necessidade daqueles encontros desconfortáveis no elevador, porque só usaremos escadas, a verdadeira maneira de se exercitar e levar uma vida saudável.

Melhor: sustentabilidade é o mote para a constante expansão do empreendimento. Nada de academia; os exercícios serão feitos da forma mais natural possível. Os moradores pagarão uma mensalidade para, erguendo sacos de cimento e empilhando tijolos, manter o corpo em forma e diminuir o consumo de energia.

“E onde vamos construir esse monumento ao lucro?”, você me pergunta. Bem, de fato a região já foi toda tomada por construtoras e indígenas, mas se existe uma tradição no Distrito Federal é a invasão de terras. É chegar, ocupar e construir. Depois a gente se entende com o Estado e regulariza. Plano é perfeito, hein? Só falta a sua grana. Topa?

Escrito por Rodolfo Borges

Dezembro 12, 2011 em 11:53 pm

Um retrato do poeta quando velho

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We poets in our youth begin in gladness
But thereof come in the end despondency and madness

William Wordsworth

Vai encarar, molecada?

Vamos falar a verdade, poesia é coisa de moleque. De Rimbaud pra baixo. Para escrever um poema depois de velho, o cara precisa sofrer de algum tipo de retardamento, nem que seja emocional. Não leva a mal, mas isso de remoer a infância perdida e sofrer pelos carneirinhos do campo não cai bem em marmanjo. Eu vinha pensando nisso, provocado pelo início triunfal e a queda melancólica do William Wordsworth, quando topei com esse livro do Ferreira Gullar que levou o Prêmio Jabuti. Aí você esquece tudo o que eu escrevi até agora.

“Em alguma parte alguma” é barra pesada. Desses livros que te estraçalham brutalmente com todo o carinho. Você pega a obra na estante como quem não quer nada e o cidadão vem com um tal de O que se foi: “O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que se foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?”

Respira um pouco aí antes de a gente continuar.

Tem outros desses por lá, metrificados com requintes de crueldade, só para lembrar que não são apenas os poetas que sofrem do tal do retardamento emocional depois de velhos. São muito poucos, aliás, os que crescem. A diferença é que os poetas se expõem, mas a inconstância sentimental vale pra todo mundo, principalmente para quem sabe esconder melhor. E essa fragilidade, eu me arriscaria a dizer, vem aumentando progressivamente de intensidade.

Enquanto as crianças trocam boneca por salto alto e bola por telefone celular cada vez mais cedo, quanto mais velho o homem é mais novo quer parecer. No meio dessa artificialidade toda, não sobra tempo para perceber o que está acontecendo, mas fica tudo quebrado por dentro. Está aí, na buzina do seu carro, nos impacientes chiliques que você despeja sobre seus subordinados, na insegurança acerca do que pensam sobre a sua vida.

É para expor essa nossa fraqueza, no fim das contas, que o poeta continua a escrever depois de velho. Para mostrar que o osso, a parte mais dura (e a que mais dura) do nosso corpo, é a que menos somos, como diz o Gullar. É quando o jovem poeta, do alto de sua virilidade inconsequente, envelhece, deixando de ser uma força implacável da natureza voltada à destruição desordenada para passar a desmontar cirúrgica e serenamente, quando o poema deixa de ser sujo para se tornar límpido e cristalino, que ele se habilita a revelar a fragilidade humana em todo seu vigor.

Esses Whitmans, Wordsworths, Eliots e Drummonds velhinhos parecem inofensivos, mas não se engane, eles já chegam na voadora. É vale-tudo, MMA, chama como quiser. No fundo, é um pessoal mais durão que você, mesmo depois – e talvez principalmente – de passar dos 80, quando não têm mais nada a perder. Cuidado com essa turma, porque eles podem te fazer olhar pra dentro, e mais fundo do que você imaginava possível.

Samba da reparação

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Chega de mimos, mocinha

George Buck pediu desculpas. Sua empresa derramou o equivalente a pelo menos 2,4 mil barris de petróleo em mares brasileiros. Erro de cálculos, disse o executivo, que justificou a demora em esclarecer o ocorrido e a aparente tentativa de camuflar dados dizendo desconhecer os motivos do vazamento. Como assim, rapazinho?

Ian McEwan já descreveu o comportamento do presidente da Chevron Brasil, no corpo de uma garotinha chamada Briony Tallis. Quer dizer, o comportamento de uma criança, uma pré-adolescente que, inocente em sua ignorância, tem dificuldade para enxergar a importância de seus atos. A petrolífera americana não é exatamente uma mocinha britânica de classe alta, mas foi tão mimada quanto pelas autoridades brasileiras.

Se o vazamento de óleo na Bacia de Campos tem um lado positivo é a exposição de uma lei ambiental frouxa – e, olha que sorte!, antes do início da exploração do infinito pré-sal. Não poluamos a crônica com comentários partidários, mas o fato é que a agência reguladora que cuida do assunto só agiu com a firmeza esperada 16 dias depois. E o que dizer sobre a insustentável leveza das multas previstas?

Enquanto somamos todas as punições possíveis para inteirar míseros R$ 250 milhões, os equatorianos jogaram uma multa de US$ 8 bilhões nas costas dos americanos em fevereiro. E isso nem é o pior: dos R$ 10 bilhões em multas ambientais aplicadas pelo Ibama entre 2008 e 2010, menos de R$ 150 milhões foram pagos – é menos de 1,5% do total. Convenhamos, nossa legislação ambiental é uma mãe.

Em Reparação, o livro citado de McEwan, Briony acusa um homem injustamente aos 13 anos e passa a vida tentando expiar algo que não pode reparar. Diante do atual quadro, é o que resta à Chevron, que tem a consciência, ou melhor, a perda de US$ 14 bilhões em valor de mercado, como único juiz.

Escrito por Rodolfo Borges

Novembro 25, 2011 em 11:29 pm

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