Archive for the ‘Por aí’ Category
Empate técnico
Um embate de gigantes: Dostoievski x Kafka e vice-versa. Rolou na minha perturbada cabecinha hoje. Foi por causa de uma reportagem da Folha de S.Paulo. O texto falava sobre um professor que matou a mulher sufocada em 23 de outubro de 2009, fazendo parecer que ela tinha se suicidado, e, mais de um ano depois, em 14 de dezembro de 2010, confessou o crime à polícia. Ponto para Dostoievski, Raskolnikov e a dilacerante culpa cristã. O problema é que, por ter bons antecedentes, entre outras coisas, o cara deixou a delegacia pela porta da frente poucos minutos depois da confissão. Kafka, Josef K. e os enigmáticos meandros da lei garantiram o empate técnico no último minuto.
Um conto de duas cidades e Luiz Fernando Veríssimo
Esse é para quem perdeu o Veríssimo durante a semana. Ele usou Um conto de duas cidades, do Dickens, pra falar sobre as reações de franceses e ingleses às reformas de seus governos. Fica a dica de leitura para quem não conhece a obra — eu mesmo comecei a ler o bicho em inglês, mas fraquejei nas primeiras 30 páginas e me martirizo periodicamente por ainda não ter voltado ali. Percebam que ele prefere traduzir o “tale” como “história” — prefiro conto.
Protestos
No livro “Uma história de duas cidades”, Charles Dickens escreve sobre a Revolução Francesa e seus efeitos e reflexos em Paris e em Londres. É o livro que começa com a frase “Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos”. Um Dickens redivivo poderia escrever sobre o contraste entre a reação na França e na Inglaterra às recentes medidas de austeridade tomadas pelos dois governos — Sarkozy tentando reformar o sistema de aposentadoria na França e o novo governo conservador na Inglaterra anunciando cortes e sacrifícios de fazer corar até a Mrs. Thatcher. Apesar de a proposta do Sarkozy ser mais amena — aumentar para 62 anos, em vez de 60, a idade para aposentadoria, que em outros países da União Europeia já é de 65 e 67 —, os franceses foram para a rua protestar, os ingleses inicialmente não. Sindicatos franceses fizeram, e continuam fazendo, greves. Os ingleses, até anteontem, nada. Agora, tudo mudou.
A diferença na aparente apatia inicial, diria Dickens, tem a ver com História e personalidade. Os ingleses não têm uma tradição de ir para as ruas. Os franceses gostam tanto de uma manifestação que têm um apelido carinhoso para elas: manif. Paris se organiza para contornar as manifs e as greves com a prática de anos. Fica-se sabendo no dia anterior que linhas de ônibus serão interrompidas, quantos trens de metrô deixarão de funcionar — e para quem não viu na TV há cartazes explicativos nas paradas. A questão da mudança de dois anos no tempo de trabalho requerido para a aposentadoria não parecia justificar tanto protesto, e muito menos a adesão dos estudantes, que se manifestaram como nunca antes desde 1968. Mas a reforma da aposentadoria pareceu mais um pretexto para a rebeldia contra Sarkozy e seu estilo personalista e arrogante. Qualquer pretexto serviria.
Enquanto isso, na Inglaterra, o que o novo primeiro-ministro Cameron propunha era uma revolução social, o desmantelamento de um sistema de vida para salvar a economia. A parca reação inicial dos ingleses às medidas duras se devia à pouca mobilidade dos sindicatos, que ainda se ressentem da sua derrota na revolução da Thatcher, e à tradição de estoicismo que a nação gosta de cultivar como uma virtude exclusiva. E ao fato de que, afinal, lá ninguém é francês.
Enquanto isto, nunca se viu tanto turista na Europa, e o outono — pelo menos em Paris — os recebeu com festa. Enfim: o pior dos tempos, o melhor dos tempos.
Por Luiz Fernando Veríssimo
Nelson estava certo — ou nem tão errado assim

Anos depois de terem sido escritas e encenadas, as peças mais cabeludas de Nelson Rodrigues ainda não perderam força. Claro que o impacto causado pela relação de um homem casado com uma prostituta — ou por uma relação homossexual — não é mais o mesmo, mas questões como o incesto, também abordadas pelo jornalista, estão provavelmente entre temas que nós nunca vamos conseguir resolver direito.
Pois deem uma olhada na história que a repórter Ivana Ferrari, da revista Época, foi arrumar lá em Minas Gerais. O paralelo com a obra de Nelson Rodrigues é de fato inevitável. E se tem gente chamando o cara de monstro no site da revista em pleno século XXI, imagina o que não era ver esse tipo de coisa encenada no teatro em 1900 e lá vai cacetada. É por isso que o dramaturgo vivia discutindo com a platéia. Sensacional:
Família, herança e histórias de incesto
Sueli Brandão quer ser reconhecida como neta-filha-amante do bilionário Antônio Luciano Pereira, uma lenda em Minas Gerais por causa da voracidade sexual
Ivana Ferrari, de Belo Horizonte
Há dois meses, a dona de casa Sueli dos Reis Brandão, de 54 anos, entrou com uma ação de investigação de paternidade na Justiça de Minas Gerais. Ela afirma ser herdeira de parte de um patrimônio estimado em US$ 3 bilhões. A história da qual Sueli quer fazer parte está descrita em um processo de 118 volumes e 50 mil páginas, mas poderia ter sido escrita em linhas menos técnicas e mais cruas por Nélson Rodrigues. Ela diz ser integrante de uma família que lembra aquela criada por Nélson em Álbum de família, peça proibida pela censura em 1946, porque tratava de incesto. Sueli afirma à Justiça ser, ao mesmo tempo, filha e neta do empresário mineiro Antônio Luciano Pereira Filho, morto em 1990. Ela diz ser fruto de uma suposta relação incestuosa entre Antônio Luciano e uma de suas filhas, Ana Lúcia Pereira Gouthier. Afirma também ter sido amante do próprio pai, um personagem que nem Nélson Rodrigues teve a ousadia de criar.
(…)
Além de milionário e mulherengo, Antônio Luciano ganhou fama pelos hábitos sexuais exóticos. Assim como Jonas, o pai da história de Álbum de família, Antônio Luciano era um “colecionador de virgens”. Segundo o jornalista Durval Guimarães, que prepara um livro sobre ele, Antônio Luciano afirmava ter mantido relações sexuais com mais de 2 mil virgens. A maioria delas, de acordo com Guimarães, eram moças pobres, entregues a ele por seus pais em troca de dinheiro. Na sede da imobiliária Fayal, de onde administrava seu patrimônio, Antônio Luciano também negociava virgindades.
Sueli dos Reis Brandão afirma ser a 31ª filha de Antônio Luciano. Ela diz ser filha dele com outra filha, Ana Lúcia Pereira Gouthier. O incesto não é novidade no currículo de Antônio Luciano. Um dos 27 filhos reconhecidos por ele, Antônio Mendes Rodrigues, também é filho-neto: é fruto da relação de Antônio Luciano com Clausy Soares Rodrigues, uma de suas filhas. Antônio seria, ao mesmo tempo, filho e irmão de Clausy. Quando perguntado sobre incesto, nos anos 1980, Antônio Luciano usou uma comparação com passarinhos – outra de suas paixões – para se explicar. “Passarinho não tem pai, só tem mãe”, disse. “Passarinho tem filhos com suas filhas porque a figura do pai não existe.”
O caso de Sueli é estranho, porém, até para o heterodoxo padrão sexual de Antônio Luciano. Segundo ela, em seu caso, a vida teria ido ainda um pouco mais longe do que Nélson Rodrigues imaginou em Álbum de família. Na peça, Glória, a filha de Jonas, não consuma o amor pelo pai. Mas Sueli diz que, além de ser filha de uma relação incestuosa, ela mesma teria sido amante de Antônio Luciano, seu pai-avô. Sueli diz que a relação dos dois era “especial”.
O texto integral no site da Época.
Literaturhotel
Um hotel para onde o hóspede com a intenção de ler. A ideia deve parecer absurda para a maioria da população mundial, porque a leitura não costuma ser tida como algo que se possa fazer por prazer, mas tem um pessoal na Alemanha apostando que manter um local prazeroso para a leitura pode render frutos. O Literaturhotel Franzosenhohl de Iserlohn ainda não esteve lotado durante seu primeiro ano, e eu nem esperaria por isso. Se tiver mesmo a ver com literatura, infelizmente será para poucos.
Bouvard e Pécuchet, Mainardi e Lula

Tem edição recente do Bouvard e Pécuchet da Estação Liberdade no mercado, inclusive com o Dicionário das idéias feitas mencionado pelo Mainardi no texto abaixo. Quem não conhece que conheça.
O gosto azedo da mesmice
Ali Kamel é o Flaubert do lulismo. Flaubert? Gustave Flaubert? Ele mesmo. No Dicionário das Ideias Feitas, publicado postumamente como um adendo ao seu último romance, Bouvard e Pécuchet, Flaubert reuniu, em ordem alfabética, os lugares-comuns mais idiotas difundidos na Terceira República francesa. Ali Kamel, no Dicionário Lula, cumpriu uma tarefa semelhante. Com o rigor e com a imparcialidade de um dicionarista, ele sistematizou o pensamento de Lula, destrinchando os lugares-comuns por meio dos quais ele se comunica.
O bronco retratado e ridicularizado por Flaubert no Dicionário das Ideias Feitas orgulha-se de papagaiar platitudes sobre praticamente todos os assuntos, da pobreza à dor de dente, da imprensa à gramática. Lula é igual. Sobre a pobreza: “Somente quem passou fome sabe o que é a fome”. Sobre a dor de dente: “Somente quem já teve dor de dente sabe o que é uma dor de dente”. Sobre a imprensa: “Só tem notícia negativa”. Sobre a gramática: “Daqui a pouco vou falar en passant. Para quem tomou posse falando ‘menas laranja’, está chique demais”.
Na última semana, fazendo propaganda do ProUni, Lula repetiu a blague sobre o fato de falar “menas laranja”. A blague sobre o fato de falar en passant também já foi repetida outras vezes nestes sete anos. Quantas vezes? Uma? Duas? Nada disso. De acordo com Ali Kamel, em seu prefácio, foram catorze vezes no período pesquisado para compor o Dicionário Lula. O repertório presidencial é minguado. E Lula repisa enfadonhamente os mesmos episódios, os mesmos comentários, as mesmas tiradas, conferindo um gosto azedo a esse fim de mandato – o gosto azedo de um governo que já caducou.
Há um aspecto desolador na obra de Ali Kamel: em 669 pá-ginas de discursos e pronunciamentos, Lula mostra-se incapaz de articular uma única ideia minimamente elaborada sobre o Brasil e os brasileiros. Ao analisar o país, ele sempre recorre às imagens mais ordinárias com as quais somos caracterizados. “Deus fez duas coisas com o Brasil: deu uma natureza de beleza incomparável e um povo maravilhoso, ordeiro e generoso.” Ou: “A beleza do Brasil está na nossa mistura, que produziu este povo de múltipla cor, alegre”. As banalidades proferidas por Lula refletem os métodos primários e grosseiros empregados por ele para conduzir o governo. Pior ainda: elas refletem a mesquinhez de seu projeto político.
A asnice representada pelas ideias feitas é a “verdadeira imoralidade”, disse Flaubert. E acrescentou: “O diabo é só isso”. Se Flaubert está certo – e ele está –, o Brasil é o inferno. O verdadeiro inferno.

