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O mito de Sísifo
Não existe tema mais desprezado pela imprensa que o suicídio. Mesmo o desaparecimento de uma criança britânica em um quarto de hotel português (volta, pequena Madeleine, volta!) vale mais páginas de jornal do que o ato derradeiro e irreversível de negação da vida. Prova disso é que o filósofo francês André Gorz e sua mulher se suicidaram dentro de casa nesta semana e nenhum periódico foi capaz de ir além da biografia do pensador ao noticiar o fato.
Não peço por detalhes, não quero saber como ou quando exatamente o casal se matou, mas, veja, um argelino chamado Albert Camus escreveu num dia de inspiração que o suicídio é o único problema filosófico realmente sério. Se concordarmos com o filósofo, atestaremos que o único assunto relevante para o conhecimento, o julgamento que define se a vida vale a pena ser vivida é simplesmente ignorado pelo jornal.
E não é por falta de assunto. No último dia Mundial de Prevenção do Suicídio (10/09), a Organização Mundial da Saúde publicou um relatório em que afirma que três mil pessoas atentam contra a própria vida diariamente em todo o mundo. É como se a cada três segundos alguém desistisse de viver. E, de acordo com o documento, a média de suicídios aumentou em 60% nos últimos 50 anos. Não podemos culpar os jornais por isso, não é?
O que eu quero dizer é que a ojeriza ao suicídio é o sintoma mais claro de que o jornal se recusa a pensar. Nossa obsessão pela informação esvazia a notícia de sentido. Sabemos o que aconteceu e isso nos basta. Mas não devia, e é por isso que faço minhas as palavras de Charles Swann: “o que censuro nos jornais é fazer-nos prestar atenção, todos os dias, a coisas insignificantes, ao passo que nós lemos três ou quatro vezes durante nossas vidas livros onde se encontram coisas essenciais. Desde que rasgamos febrilmente a banda do jornal a cada manhã, deviam-se mudar as coisas e pôr no jornal, eu não sei, os… Pensamentos de Pascal!”
Aí está a razão de ser desta coluna. É por isso que, aqui, as notícias recebem comentários baseados em livros, “onde se encontram coisas essenciais”. Precisamos dessas coisas periodicamente. E só por aqui o presidente do Senado se metamorfoseia em escaravelho e o parlamento vira manicômio. Só aqui os bebês abandonados nas calçadas crescem Querôs e o médico que entra em greve se transforma em Mr. Hyde. Só aqui o suicídio leva ao mito de Sísifo, o malandro que, por ter enganado os deuses, é condenado a empurrar eternamente uma pedra ao topo duma montanha, de onde a rocha vai cair inevitavelmente.
O castigo de Sísifo simboliza a vida. Assim como ele sabe que a pedra vai cair quando o topo for atingido, nós sabemos que a morte nos alcançará no final. Podemos passar a vida inteira sem pensar nisso, a não se que um belo dia surja o “por quê” e tudo comece a entrar numa lassidão tingida de assombro. Ao nos confrontarmos com essa questão, assumimos involuntariamente o risco de optar pelo suicídio. Foi o que aconteceu com Gorz e sua mulher, e o que acontece com três mil pessoas por dia neste planeta.
Camus pretende investigar se o suicídio seria o desmembramento lógico do surgimento desse “por quê”, e conclui que não. Segundo ele, ao percebermos o absurdo que significa viver, não decretamos uma morte imediata. Pelo contrário. É esse absurdo, essa força, que concede ao homem a posse de sua própria vida – pois o livra das doutrinas que lhe explicam tudo – que vai garantir sua persistência. O homem absurdo é dono dos seus dias, pois conhece seu destino, é consciente. Por mais que os jornais não queiram.
Setembro de 2007
Rodolfo
Sou jornalista, lá da UnB, com passagens por Correio Braziliense e Istoé Dinheiro. Atualmente trabalho no Brasil 247.

Muito bom, Rodolfo, muito bom.
Gustavo Gitti
Março 6, 2011 em 11:14 am
Olá, Rodolfo! É com enorme satisfação que estou descobrindo hoje o seu blog. Você é jovem, eu já passei dos 60, mas gosto de saber que não estou isolada nas minhas preocupações com o debate, a reflexão e a boa literatura no Brasil. Essa é uma das maravilhas que a janela da Internet me proporciona. Parabéns!
Maristela Simonin
Abril 28, 2012 em 8:29 am
Obrigado, Maristela. Bom ler mensagens assim.
Rodolfo Borges
Abril 28, 2012 em 11:39 am