Literatura de Verdade

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A revolução dos bichos

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animal farm

George Orwell anteviu, em 1948, um mundo onde todos seriam monitorados permanentemente. O Big Brother de seu 1984 é tão emblemático que virou nome de um dos programas de televisão mais famosos do mundo (quer glória maior nos dias de hoje?) e acabou se tornando referência quando o assunto é sistema de câmeras. Baseado apenas nessa previsão, eu não diria que nosso amigo britânico é lá um profeta. Mas em tempos de gripe suína, gripe aviária e mal da vaca louca, algo me diz que a Revolução dos Bichos (Animal Farm) de Orwell também tem seu quê de previsão.

No livro, inconformados com o tratamento que recebem, os animais tomam uma fazenda para estabelecer sua própria ordem. A diferença da revolução animal a que estamos submetidos agora (se é possível dizer isso sem parecer um lunático) é que os bichos não têm a intenção de nos machucar.  Eles nem ao menos têm consciência do estrago que fazem. E esse alheamento animal nos dificulta muito as coisas. Melhor seria se infectar os homens estivesse nos planos do porco Bola de Neve e de seus asseclas.

A gripe suína não tem culpados, ou pelo menos culpados que possam ser apontados e punidos. Pode ser que nosso modo de vida contribua para o desenvolvimento de mutações virais, mas, nesse caso, todos somos responsáveis e, portanto, nenhum de nós o é. Daí o dilema: como combater um mal sem responsáveis quando nosso costume é simplesmente encontrar e punir o culpado?

O governo mexicano tentou pôr em discussão qual seria o país de origem da doença, mas, depois que ela se espalhou, a questão perdeu o sentido. Antes o vírus tivesse sido espalhado por uma gangue de porcos enfurecidos ou por terroristas inconsequentes. Uniríamo-nos contra o inimigo e, com algumas bombas e milhares de homens bem intencionados, cortaríamos o mal pela raiz — alguns porquinhos chegaram a perder a vida no Egito por causa de um raciocínio semelhante.

Mas a nossa dificuldade em enfrentar doenças não se resume à ausência de um inimigo, porque a inexistência de alguém a combater é apenas um sintoma, uma indicação do real motivo dos nossos problemas para vencer epidemias, pandemias e afins. Numa situação como a que mundo vive hoje, está cada um por si. A verdade é que quando não há quem combater, combatemos a todo mundo.

Em Brasília, teve gente passando nas farmácias para comprar todas as máscaras contra gripe do estoque. Nos aeroportos, o dilema era se apresentar com sintomas da gripe e ser obrigado a cumprir quarentena ou se esconder da fiscalização e gozar qualquer que fosse a doença em casa. Convenhamos que ficar recluso em poder de autoridades competentes (ou nem tanto) não sugere diversão, mas se o bem-estar da humanidade está em jogo, que se há de fazer?

Não que esse negócio de humanidade valha alguma coisa, que dirá um sacrifício. O drama é perceber que o mal dos outros pode ser o nosso próprio mal. Quer dizer, de que adianta ter todas as máscaras contra gripe se o mundo inteiro pegou a doença? Vale a pena evitar uma quarentena forçada e infectar toda a família dentro de casa? No final das contas, somos reféns dos outros em situações de epidemia. Cuidar de si mesmo é cuidar dos outros. O egoísmo vira caridade. Bota revolução nisso, bicho!

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Written by Rodolfo Borges

Maio 27, 2009 às 1:37 am

Uma resposta

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  1. Então quer dizer que, no fim de tudo, esses bichos estavam realmente mal intencionados, né? Ou seria bem intencionados? De qualquer forma, foi proposital. Acho que os egípcios estavam certos então.

    Isabel

    Maio 27, 2009 at 10:45 pm


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