Literatura de Verdade

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Billy Budd nas Forças Armadas

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Tendo em vista que a polêmica sobre homofobia voltou a assombrar os militares do país, resgato texto escrito por ocasião de outro caso controverso do gênero nas Forças Armadas.

O ex-sargento Fernando Alcântara de Figueiredo, aquele que assumiu recentemente um relacionamento com um companheiro de Exército, entrou com um processo contra o Comando Militar do Sudeste. Figueiredo alega que ele e seu companheiro foram vítimas de homofobia ao serem presos pelas Forças Armadas após aparecerem juntos em um programa de televisão. A instituição militar alega, contudo, que ambos infringiram regras cujo desrespeito valeria pena de prisão.

Cabe à Justiça atribuir as culpas, mas não me parece razoável restringir o veredicto a apenas duas possibilidades. Sugiro pelo menos uma terceira hipótese que, baseada na história de um marinheiro chamado Billy Budd, excluiria as outras duas. Avaliem.

O belo Baby Budd exercia com tanta destreza as tarefas que lhe eram imputadas no navio real Indomitable que foi difícil para ele entender os motivos por que o mestre-de-armas do navio, o senhor John Claggart, implicava com o jovem marinheiro. Mas Claggart, vulgo Jimmy Legs, antipatizava com Budd, e se inicialmente dissimulou a inimizade por meio de constantes elogios a sua beleza, desferiu seu golpe fatal ao caluniá-lo para o capitão do navio, Edward Vere.

A insinuação de que Billy arquitetava um motim entre os marinheiros condenaria o futuro do jovem, mas, antes que eu me perca na discrição de detalhes irrelevantes – ainda que curiosos –, avaliemos os sentimentos de Claggart por Billy, que é o que vem ao caso. Como dito, Baby Budd era perfeito em seus serviços e, por mais que isso espante repreensões, funciona de forma oposta no âmbito da inveja.

Pode ser que Claggart invejasse a beleza ou a competência de Billy, assim como é plausível que um possível sucesso do casal de militares brasileiros estivesse gerando insatisfação entre seus colegas. Mas pode ser, também (e aqui os dois casos se unem de forma mais explícita), que a acusação falaciosa de Jimmy Legs tenha sido fruto da repressão de um sentimento menos mesquinho que a inveja. Falemos claramente: há quem diga que o mestre-de-armas cultivava desejos amorosos pelo jovem Billy.

Longe de mim fazer insinuações levianas, mas não são raros os que consideram que a estrutura militar, ao segregar homens e mulheres, favorece o afloramento de desejos homossexuais – pelo menos agora o relacionamento do casal Fernando Figueiredo e Laci de Araújo reforça a tese. É possível, portanto, que John Claggart tenha implicado com Budd por amor. Ou melhor, pela negação desse amor.

Considerando essa possibilidade, terá um outro oficial do Exército Brasileiro acusado indevidamente Figueiredo ou Araújo por ciúmes de um dos dois? Haveria um terceiro elemento nessa relação? Mudaria tudo. Caso haja um Claggart nessa história e ele apareça até o final das investigações, as Forças Armadas se livram de um processo por discriminação. O duro vai ser reconhecer mais um caso de homossexualidade no Exército. Bem, olhando por esse lado, uma condenação futura por homofobia não lhes deve mais parecer tão incômoda…

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Written by Rodolfo Borges

Fevereiro 4, 2010 às 8:02 pm

Publicado em Crônica

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Uma resposta

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  1. Sempre polemizando… Vou mandar a crônica para uns amigos do Exército. =P

    Isabel

    Fevereiro 23, 2010 at 10:22 am


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