Literatura de Verdade

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Os sofrimentos do jovem Werther ou As frescuras de um emo

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Pois bem, este lance aqui vai ser retomado e, enquanto vou me preparando para escrever novidades, republico textos antigos que se perderam pela rede. Comecemos com uma ode quase que póstuma aos emos, que vão, aos poucos, sendo substituídos, de acordo com as últimas edições das revistas de comportamento, por jovens sensíveis, mas alegres. Isso aí foi escrito lá pela metade de 2008.

Goethe enquanto emo

A Rússia anunciou que pretende proibir emos em seu território. Ao que tudo indica, o governo russo acredita que usar franja e se vestir de preto desperta pensamentos suicidas. Para o Kremlin, se seus jovens usassem roupas mais coloridas, teriam mais vontade de viver. Eu não simpatizo com os trajes e adereços dessa turma, mas o problema claramente não está no modo como os emos se vestem; e dificilmente terá sua solução numa lei.

Até onde eu sei, a palavra emo é a abreviação da expressão “emotional hardcore”, um estilo musical que prima pela sensibilidade, como o nome sugere. Um emo, portanto, antes de ser membro de um grupo que se veste de preto, é uma pessoa extremamente emotiva; é alguém que espera demais do mundo e invariavelmente se frustra por receber menos do que combinou com os seus sentimentos. Ou seja, o emo é um romântico.

Romântico daqueles do Romantismo mesmo, capaz de morrer pela mulher amada; romântico como o jovem Werther, o personagem de Goethe que comete suicídio por não suportar o sofrimento de viver apaixonado por uma moça comprometida. Um cara que vivia se lamentando por correspondência para o amigo Wilhelm e mudando de cidade para esquecer amores.

Veja, o que particulariza o romântico é seu respeito exagerado pelos próprios sentimentos. Um jovem como esse leva a vida muito a sério, e, por isso, é capaz de desejar a morte caso as coisas não estejam tão bem quanto ele imagina que deveriam estar. Aí eu me pergunto: o que distingue um emo do jovem suicida de Goethe?

Alguns quilômetros de erudição, talvez. Mas, como o próprio Werther diria, de que valem os livros nos momentos de paixão? O trecho traduzido diz assim: “Um homem é sempre um homem; e o pouco a mais de discernimento que um homem tenha em relação a outro pouca diferença faz quando a paixão explode e ultrapassa os limites humanos”.

Talvez os trajes esdrúxulos dos emos, esse povo tão sofrido, nos tenham distraído e impedido de perceber que, na verdade, esses jovens são tão românticos quanto os poetas cujas obras não cansamos de admirar. Goethe foi emo. Lorde Byron foi emo, assim como Schiller e, para que ir tão longe?, Álvares de Azevedo e Castro Alves.

É tudo igual, com a ressalva de que, num poema, o desejo suicida soa muito mais bonito do que numa letra de rock (e o que não soaria?). Seria covardia comparar a competência de um Heine à habilidade musical de qualquer membro do NX Zero, mas isso não vem ao caso.

A questão é que os russos, numa atitude tipicamente realista (no sentido literário, naturalisticamente), compraram uma briga vã contra os sentimentos de seus jovens. Eles pretendem curar o romantismo, algo que nem as mais brilhantes investidas do capitalismo parecem ter conseguido.

Que me desculpem os emos, mas não acho que eles mereçam tanta atenção. Frescura, aliás, é essa história de dar trela demais à molecada. A adolescência é uma muito fase sensível, mas passa. Alguns emos ficarão pelo caminho, é inevitável, mas a maioria chegará à vida adulta e aprenderá a esconder seus sentimentos e perversões dentro do armário.

Quando chegarem lá, esses sobreviventes terão tempo bastante para se arrepender de ter se vestido mal e dado bandeira durante a juventude. Pra que puni-los agora?

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Written by Rodolfo Borges

Julho 29, 2010 às 9:10 pm

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