Literatura de Verdade

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Carta ao pai

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O comum é associar o termo gênio ao mundo das artes.  É corrente considerar brilhante o cara que pinta um belo quadro, compõe uma boa musica ou escreve poesia de verdade, alguém capaz de levar os outros bem fundo pra dentro de si mesmos. Um indivíduo que cutuca com vara longa as almas alheias – esse é o tal do gênio, que não passa de alguém com sensibilidade o bastante para explicar coisas que nem mesmo ele entende. Só que essa história de gênio vai um pouco mais longe do pintado ou esculpido.  Quer dizer, se gênio é quem fala sobre a vida, o que dizer de quem é responsável por moldá-la e conduzi-la?

É, porque por trás desse bando de manifestações artísticas, todas muito chamativas, o detalhe que se tornou viver, essa respiração que raramente se nota, some. Mesmo que toda a arte seja produzida para tentar construir um sentido para a vida, damos mais atenção a esses periféricos do que à vida em si. Distraídos pelas invenções da arte, que cumprem lá o seu papel de anestesiar de vez em quando, desprezamos o gênio maior que placidamente passa por cima de Goethe, Michelangelo, Beethoven e companhia para tratar da vida sem firulas poéticas, simetrias ou harmonias artificiais: o pai.

A possibilidade de desenvolver uma vida, de se aprimorar em outra pessoa, está em todo homem e é onde mora o potencial determinante de um gênio. Nem todos têm a oportunidade de aplicá-la, mas, ainda que sua amplitude seja muito menor do que a de uma obra artística, é aí que está a verdadeira chance de criar uma obra-prima.  O pai pode não fazer uma ideia tão clara ou lúcida disso tudo, mas sente e desempenha de alguma forma o papel que dele se espera.

Diferente da arte, contudo, a competência de avaliar a efetividade dessa empreitada é reservada a cada filho, o que limita os louros de um pai a sua prole. Faça a sua avaliação, portanto, que aí vai a minha:

São três os seus filhos. Uma mais desligada, um mais impulsivo e outro praticamente estático. Mas todos maiores do que a vida que levam ou possam vir a levar. Todos capazes de desenvolver uma vida plena, gozar de uma existência equilibrada, sem querer demais ou de menos. Farão suas escolhas, tomarão conta de suas próprias vidas, vão errar e acertar, porque livres, mas dentro de um espectro mais amplo, graças ao pai.

Seríamos, então, obras-primas, eu e meus irmãos? Na sequência do raciocínio, provavelmente. Mas sem motivo para orgulho próprio, pois obras-primas enquanto suporte, como o mármore que aceita a vontade do escultor ou a tela que compreende, respeita e se submete ao traço do artista.

Não acredito que meu pai seja perfeito. Cometeu erros no meio desse caminho. Mas está também nessa possibilidade de encará-lo como alguém capaz de errar, como um ser humano, um igual, enfim, a confirmação de que houve na minha criação a atuação de um gênio competente. Alguém que talvez não tenha compreendido tudo o que me ensinou ou me permitiu aprender. Um cara que, vez ou outra, descobre e vem me contar algo que, agora percebo, sabia sem saber e me levou intuitivamente a entender.

Esta empulhação toda é apenas uma forma de tentar dizer obrigado. Um agradecimento puro e simples provavelmente seria o bastante, mas apresentado assim, seco, certamente não se aproximaria de seu verdadeiro tamanho.

A lamentar talvez apenas o fato de nunca poder ser Kafka. Mas isso lá é lamento?

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Written by Rodolfo Borges

Agosto 8, 2010 às 2:47 pm

Publicado em Crônica

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