Literatura de Verdade

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A Queda

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Emergência, mayday! Código Alfa, sei lá. Muricy nos revelou. Estamos expostos e sangrando em praça pública. Nós, os íntegros, os honestos, nós, os dignos, caímos do cavalo nessa de ele aceitar treinar a seleção brasileira. Eu sei que ele fez bem a cena, disse a Teixeira que seu sim estava atrelado à anuência do Fluminense e, sem a concordância do clube, permaneceu nas Laranjeiras, mas para bom entendedor meia vontade basta. Muricy rompeu o próprio protocolo, titubeou, ou vocês vão dizer que não perceberam? O técnico que não interrompe trabalhos no meio – e, por causa disso, negou mais de um convite do São Paulo, para onde sempre sonhara retornar – considerou romper o planejado no Fluminense em troca da sedutora seleção brasileira.

Eu sei, foi muito sutil e passou desapercebido para a maioria de nós, mas o fato é que estamos sangrando e corremos o risco de descobrirem que praticamos o bem, o certo, o correto, como queira, pura e simplesmente para nos proteger do julgamento alheio. O assunto é sério, senhores, porque, até agora, isso aí estava restrito a livros de Albert Camus e H. L. Mencken, àquela história de que a consciência é a voz interior que nos alerta de que alguém pode estar olhando. Pois agora a verdade se espalhou pelo mundo do futebol, meus caros, e isso quer dizer muita gente.

Muricy é íntegro, ora se não é, mas nosso maior expoente futebolístico de princípios escorregou, caiu na casca de banana metafísica de Camus quando, tentado por Mefistófeles, deixou transparecer que queria uma coisa má, suja, incorreta: um rompimento de contrato. O contrato não chegou a ser rompido, porque o treinador terceirizou a decisão, mas o estrago está feito. Na hora do vamos ver, o desejo venceu o caráter. Muricy sucumbiu e revelou que mesmo as pessoas mais admiráveis não tomam as decisões corretas baseadas na pureza do coração ou em desígnios divinos. A artificialidade de sua negativa expôs nosso segredo: que, sobretudo, o problema é evitar o julgamento.

O técnico quis, quis largar tudo e se jogar nos braços da musa pentacampeã, mas estava amarrado por um histórico exemplar de hombridade profissional. Histórico que, reforçado por mais esse capítulo, garantir-lhe-á frutos futuros, contratos mais generosos, com a borda recheada de catupiry e da certeza de que o combinado será cumprido, ainda que não seja a vontade do treinador. Mas um dos nossos grandes caiu, essa é a verdade, e, por isso, vai a minha solidariedade ao guerreiro da moral, sabendo que fez o possível para não nos expor, para manter viva as crenças de que a integridade é algo natural, que nasce, cresce, se reproduz e morre conosco, e de que o bem é algo que se aprende, que se passa de pai para filho nas melhores famílias e é introjetado pelos melhores de nós.

Desculpem o alarme soado assim de forma tão estridente, mas é que o caso é grave, reconheçam. E, contudo, convenhamos, vai passar. Vai passar, como passou tantas outras vezes em situações menos evidentes e reveladoras, pois muitos de nós fomos às tribunas exaltar o caráter de nosso admirável colega Muricy Ramalho, que vai seguir a vida de dignidade pela qual temos tanto gosto de seguir. Segue, professor, e leva contigo o lema de nosso seleto grupo de canalhas, nós, os Jean-Baptiste Clamence: “Meu caro amigo, não demos pretexto para nos julgarem, por pouco que seja! Caso contrario, nos deixam em pedaços.”

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Written by Rodolfo Borges

Outubro 22, 2010 às 7:11 pm

Publicado em Crônica

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