Literatura de Verdade

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O percevejo ambidestro

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Bate com as duas

Conta-nos Maiakovski, na peça O Percevejo, a história de Prissípkin, herói da Revolução Russa que, depois de passar 50 anos congelado, acorda para encontrar uma sociedade bem diferente daquela que deixou em 1928. Esta é a sequência de sua história:

Quis o destino que o companheiro Prissípkin, herói da Revolução Russa, despertasse de seu segundo congelamento no Brasil, mais precisamente durante o segundo turno da corrida eleitoral à presidência da República do ano de 2010. Embarcado em um carregamento de fertilizantes vindo da Rússia, Prissípkin chegou aos trópicos não para se surpreender com as mudanças, como em seu primeiro descongelamento, em 1978, mas para se sentir em casa. O Brasil de 2010, o revolucionário pôde constatar, guardava mais semelhanças com a Rússia dos anos 1917 do que esta com a desumana União Soviética de 1978, que o encarcerou junto com seu percevejo de estimação em uma jaula sanitária.

Apesar de o Brasil não passar por uma revolução comparável à russa, há quem acredite que ela esteja em curso e, como diria a companheira Xuxa, “só basta (sic) acreditar”. Foi em nome dessa revolução imaginária que reputados oportunistas, com medo de perder a boquinha, ou melhor, de ver interrompida a revolução social, resgataram conceitos simples, mas de muito fácil compreensão, e, erguendo um muro de papel, voltaram a dividir o mundo entre a esquerda e a direita.

Pausa para reflexão: há quem diga que os eminentes intelectuais aprenderam as coisas dessa forma e, por mais que elas mudem, sempre recorrerão ao modelo mais simples de perceber as relações políticas; mas reconhecer o alto grau de oportunismo dessa simplificação não deixa de ser uma forma singela de respeitar seus títulos de mestrado e doutorado. Voltamos:

Livre dos fertilizantes, o camarada Prissípkin, demonstrando apurado senso de oportunidade, apresentou-se à linha de frente como representante histórico da causa e, em respeito a seu passado revolucionário, recebeu a nobre incumbência de acusar a todo e qualquer opositor de direitista. Nestes tempos, em que todos são de esquerda e é impossível assumir-se de direita sem soar caricato, o herói perceberia que apontar o direitismo alheio equivale a acusar de bruxaria as moças que saíam à rua sozinhas no século 13. “ A estratégia é clássica, mas só costumo sacá-la quando sinto cheiro de verdade ou lucidez”, instruiria o sábio Prissípkin às novas gerações.

Essa bem sucedida revolta do russo contra a lógica seria definida pelos representantes da causa como uma revolução dentro de uma revolução dentro de uma revolução dentro de uma… e o alçaria à posição de super-herói revolucionário ao fim do processo eleitoral. Os louros de uma atuação tão brilhante bastariam para uma pessoa comum, mas Prissípkin, enquanto comunista laureado, sabia que tudo tem seu preço e que, para além da felicidade de ver seus iguais mais iguais depois da revolução, a justa remuneração pelo trabalho do proletariado é monetária – e esse direito deve ser assegurado nem que para tanto seja preciso chantagear, digo, convencer colegas menos conscientes quanto ao valor do capital.

Vitorioso, e portanto rico, o herói ostentou e, em resposta ao assombro de milhares de viciados em ideologia, repetia sem perder a ternura: “Eu sou um homem de perspectivas históricas! No momento o que eu mais quero é uma cristaleira!” E quem não quer, companheiro?

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Written by Rodolfo Borges

Outubro 28, 2010 às 11:37 pm

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