Literatura de Verdade

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A revolução das mulheres

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O Brasil celebra a eleição da primeira mulher à Presidência do país, ainda que haja controvérsias quanto a isso. O fato é que o último motivo em que alguém se baseou para votar em Dilma Rousseff foi o seu gênero – a maioria, inclusive, não considerou nem sua existência individual para elegê-la –, assim como os americanos não votaram em Obama por ele ser negro em 2008 (estou devendo, desde então, aliás, um texto mostrando como Monteiro Lobato não previu a eleição de Obama em seu O Presidente Negro; agora que voltei a escrever, devo fazê-lo em breve). Uma análise mais acurada nos levará à incômoda constatação de que a vitória de Dilma foi conseqüência da atuação política de um homem, o que, em termos feministas, indicaria não um avanço, mas um retrocesso na questão político-sexual. De qualquer forma, recupero um texto de 2007 (revisto e melhorado) sobre o assunto, escrito por ocasião da eleição de Cristina Kirchner à Presidência da Argentina. Três anos depois, acho que o governo da mais nova viúva do pedaço me redime e protege de possíveis condenações em praça pública. Segue:

Recorro ao auxílio luxuoso de Angeli

A eleição de Cristina Kirchner à Presidência da Argentina confirmou uma tendência política que parece irreversível no ocidente. O número de mulheres em altos cargos de governos aumentou consideravelmente no início deste século, e deve continuar crescendo. Angela Merkel se tornou chanceler da Alemanha em 2005 e a chilena Michelle Bachelet foi eleita presidente de seu país no ano seguinte. Além disso, o homem forte do governo Lula é uma mulher e Hillary Clinton é a candidata preferida à Casa Branca nas eleições do próximo ano.

O raciocínio sempre me pareceu perfeito. A alma feminina é mais honesta do que a simplória e facilmente influenciável mente masculina, sem falar que as mulheres são muito mais agradáveis de se ver e ouvir. É por isso – e por uma sucessão de insucessos masculinos – que compartilhamos a impressão de que elas podem governar melhor do que eles. Para mim, essa constatação era uma daquelas verdades incontestáveis sobre as quais não é nem preciso pensar, como a lei da gravidade e o filé à parmegiana. Só que eu parei com isso de não pensar há algum tempo; e essa, entre outras coisas, vêm curiosamente ganhando em relatividade.

Como humilde iniciante na arte da reflexão, tendo a me escorar em livros para não cair durante questionamentos capitais como esse; e, para pensar sobre a problemática da mulher no poder, não encontrei melhor solucionática do que a obra do tio Aristófanes. O cara escreveu, quase 400 anos antes de Cristo nascer, uma comédia chamada A revolução das mulheres, em que já falava sobre Cristina Kirchner e Dilma Rousseff, sem lhes mencionar os nomes, naturalmente. Na peça, as mulheres de Atenas, lideradas por uma inquieta Valentina, concluem que seria melhor para a cidade que elas a governassem. Pensam: se conseguimos cuidar de nossas casas, faremos maravilhas no governo.

As atenienses se vestem com roupas masculinas e improvisam barbas para atender a uma sessão da Assembléia. Lá, Valentina, disfarçada de homem, discursa em favor do feminino e, apoiada por suas colegas barbadas, emplaca a revolução. O poder de Atenas está entregue às mulheres, que começam a governar cheias de boas intenções. A terra e o dinheiro serão de todos e as líderes sustentarão os homens com base em um fundo comum. A inicial resistência masculina desmorona perante o argumento de que, assim como os bens materiais, as mulheres também serão comuns a todos que desejarem possuí-las – já é tarde quando os homens descobrem que, para deitar com as belas e novas, será preciso, antes, satisfazer as velhas e feias, a fim de garantir a justiça da nova lei.

Tudo vai bem até o final do grande banquete oferecido pelas damas aos cavalheiros. À sombra do primeiro jovem que retorna do jantar, uma velha se requebra toda em frente à própria casa, doida para tirar o atraso. Só que o rapaz está louco mesmo é para namorar uma mocinha com quem já vinha se encontrando. A velha, presenciando o flagrante desrespeito à lei, perde a compostura e reclama a Valentina, que acompanha tudo. A confusão se instala, aumenta quando mais duas velhinhas entram no páreo e termina quando Valentina resolve o seguinte:

“A moça tem vinte anos, as senhoras devem ter uma média de sessenta. Vinte mais sessenta igual a oitenta, oitenta dividido por dois igual a quarenta (a mamãe aqui tem mais ou menos quarenta…)”, e, segurando o rapaz gentilmente pelo braço, conclui:Venha comigo! Resolvi o seu caso, agora você vai resolver o meu! Afinal de contas eu não ia fazer essa revolução para aprontar a cama para outras deitarem!”

Moral da história? Precisei ler um texto escrito quando ainda nem existia minissaia para entender o que as feministas vêm nos dizendo desde a década de 1950. As mulheres e os homens são iguais. Abaixo o preconceito!

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 1, 2010 às 9:48 am

5 Respostas

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  1. Beleza de texto!
    As mulheres já conquistaram muito mais que a igualdade.
    Isso não pára nunca…?

    Clarice

    Novembro 1, 2010 at 1:12 pm

  2. Você e um direitista por excelência! Gostaria de ler um artigo seu sobre violência domestica e o quanto a invisibilidade do problema contribuiu com a perenidade de mulheres e crianças completamente deterioradas emocionalmente pelas agressões do macho provedor. Apesar de nossas divergências, admiro-Te. Importante: Nao sou dilmista. Abraços.

    Diego

    Novembro 4, 2010 at 4:00 pm

  3. Livrar-me-ei da pecha de direitista em breve (ou pelo menos será uma tentativa), antes que ela se consolide em cabeças esquerdistas, quando artigos de natureza plural e libertária forem publicados (alguns inclusive já foram escritos há anos, meses, séculos). Não me comprometam! Não fico em cima do muro; eu sou o muro!

    Dá o livro e a notícia que o lance da violência doméstica vira crônica. Vidas Secas, Graciliano? Só uma dúvida: o macho adulto branco sempre no comando, no caso, é provedor de internet?

    Rodolfo Borges

    Novembro 4, 2010 at 4:22 pm

    • Sim, ele pertence às grandes corporações capitalistas que, segundo os autores de novas mídias, controlam tudo sem dar espaço pruma cidadania e democracia reais na atualidade. Gostei da metáfora do muro. Hás de cair, Berlim!

      Diego

      Novembro 4, 2010 at 9:45 pm

  4. Excelente, vou postar no meu blog, com a devido nome e link.

    Bellboy

    Novembro 15, 2010 at 5:35 pm


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