Literatura de Verdade

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Em nome da troça

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Mestre Alberto Eco, irmão distante (!) de Umberto Eco

Onde o jovem Madsoquista aprende a rir da política brasileira com as piadas de salão do segundo livro da Poética de Aristóteles

Em meu favor tenho a dizer apenas que era jovem. Como dizia o profeta, o homem nasce sem maldade em parte nenhuma do corpo, e minha inocência durou por mais tempo que a média. Lá pelos 20 anos eu ainda frequentava passeatas, mas as eleições de 2010 me resgatariam. Como previsse meu retardo, minha mãe optara por chamar-me Madsoquista e, percebendo que eu não ia lá muito longe sozinho, entregou-me a um preceptor, o filósofo, taxista e humorista de stand-up comedy Alberto Eco, cujo trabalho seria determinante para me salvar da crendice política.

O fato é que eu levava os políticos a sério. Mas sério mesmo, a ponto de perder amigo, largar mulher e trocar de time. E só um belo dum cascudo do mestre Eco me faria acordar para o absurdo que era aquela lei que proibia piadas sobre políticos no período eleitoral. “Isso é reserva de mercado, idiota”, alertava-me o terno sábio. Era essa de fato a versão que corria no submundo político-humorístico do país, mas, como eu resistisse em troçar dos candidatos ao governo, preso ainda ao respeito pelas instituições e seus representantes, o mestre resolveu que eu o acompanharia na investigação que iria expor os reais motivos daquela proibição.

Poupo-lhes dos detalhes, que não passam de desinteressantes perseguições automotivas e insossos bacanais com belas e solícitas secretárias de gabinete, para relatar o dia em que descobrimos que o caso era mais complexo e envolvia inclusive o misterioso segundo livro da Poética de Aristóteles, que ninguém sabe, ninguém viu. Nos intervalos de nossas investigações, mestre Eco costumava frequentar a Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB), com a intenção de estudar para o concurso de humorista do Ministério Público Federal (4,5 vagas – com cota para anão – remuneração R$ 10.453,12). Foi numa dessas visitas ao bucólico campus da UnB que o astuto mestre Eco topou, numa prateleira, com o trecho perdido da Poética, que, catalogado como material humorístico, fora parar ao lado das obras de pilares do anedotário brasileiro, como Ary Toledo, Costinha e Emir Sader. Surpreso, meu mestre descobriria que o segundo livro de Aristóteles não passava de uma compilação de piadas de salão cujo ponto alto, até onde pudemos ler, era:

– O que Sócrates disse a Platão durante o Banquete?
– Amor, a conversa tá boa, mas que hora que sai a merenda?

Descobertos pela polícia ideológica da universidade durante a leitura, mal pudemos desvendar os mistérios da obra. Pior: durante a fuga, em que fomos perseguidos por um mestrando em Antropologia e um monitor de introdução à Sociologia, o livro se perdeu numa instalação do Instituto de Artes. A perda para a humanidade foi grande, mas, a essa altura, meu astuto mestre já tinha elementos para desvendar o mistério. “O fato de esse livro estar na Biblioteca da UnB significa que quem o botou aqui tinha a intenção deliberada de que ele permanecesse intocado para a eternidade”, decifrou Eco enquanto atendia a uma corrida para o aeroporto, para, em seguida, matar a charada num raciocínio tão sofisticado que, ainda hoje, me causa náuseas. O conteúdo explosivo da obra não se restringia a ridicularizar o poder; era uma ameaça a um grupo organizado que se preparava para tomar o país de assalto: os analfabetos, que tinham como principal marca o curioso hábito de não guardar registros documentais – o que dificultava tanto sua identificação quanto o rastreamento de seus membros.

Tudo se encaixava. Candidato a ocupar um posto na Câmara Federal, Tiririca, um gênio que reunira expressivo patrimônio às custas do pior e mais brilhante de seus defeitos (a ignorância), fazia parte do grupo que maquinou durante séculos para esconder o livro de Aristóteles, cujo conteúdo lhe era inatingível, devido a um problema de natureza educacional. Unida à lei que proibia a desmoralização pública dos políticos e ao segredo das piadas do filósofo grego, a participação no pleito garantia a Tiririca não apenas a exclusividade da plateia, mas um limite razoável à quantidade de piadas em circulação; piadas das quais, graças a seu estilo humorístico peculiar, ele nunca precisou. A descoberta veio a tempo e, alertados, os juízes do TSE deliberaram em um breve julgamento de três dias e três noites pela suspensão da lei que vetava o humor eleitoral.

Reconhecido como perigoso pelas autoridades, mas declarado herói por via das dúvidas, mestre Eco ganhou como cala-boca do governo brasileiro um cargo comissionado de humorista no Ministério Público, uma vaga no conselho administrativo da Petrobras e uma passagem para Cuba, onde realizaria o sonho de acompanhar na íntegra o épico show de stand-up de seu ídolo Fidel Castro – versão estendida, com comentários do diretor Oliver Stone. Eu, por minha vez, livre das amarras da crença na política, tomei o caminho mais lógico e lancei minha plataforma de candidatura para 2014. Enquanto espero pela vitória inevitável, avalio partidos para conchavos e treino o contato com o povo em shows de stand-up comedy inspirados no material de meu preceptor. Sabe aquela do vampiro que tinha medo de papel? Tem também a da seringueira que queria tirar leite de pedra e a do defunto que namorava o cadáver de Lênin para ministro da Fazenda. E a do rei que elegeu o dragão para sucessor, você já ouviu?  Fecha as cortinas aí, que lá vem tomate!

ps: Meu agradecimento público à Isabel pela ajuda com as artes do blog! =*

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 2, 2010 às 12:41 am

Publicado em Crônica

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4 Respostas

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  1. Esses comentários acima do texto são meio estranhos… Mas os textos estão muito bons. Divulgue esse negócio, que daqui a pouco vais publicar em algum lugar. Ou, no mínimo, o pessoal da Carta Capital vai tentar cassar sua carteira de jornalista.

    Rodrigo Borges

    Novembro 2, 2010 at 8:09 am

  2. É, a posição dos comentários é esquisita mesmo, mas eu gostei tanto desse modelo… Agora me empolguei mesmo, tô com um monte de coisa para escrever. valeu!

    Rodolfo Borges

    Novembro 2, 2010 at 10:16 am

  3. Concordo com meu irmão gêmeo, aliás, com o seu! Que ótimo produtor de conteúdo (literário, neojornalístico, híbrido, intelectual) você está se saindo. De verdade, estou curtindo as associações – especialmente quando saco autores e conteúdos, caso do poético Aristóteles. Quando não conheço a obra, é bom que aprendo. Gostei da química do Sócrates com Platão. Mas sempre achei que Aristóteles estava entre ambos… Huahauhau. E o Tiririca é teu heroi, né?! Você tem razão: a ignorância é um dos mais brilhantes defeitos! Te blinda de enxergar o complexo, o profundo e o óbvio. Quisera eu ser um ignorante. Abraços intercontinentais!

    Diego

    Novembro 4, 2010 at 9:42 pm

  4. Esse está muito, muito bom. Só achei que faltou aquela do papagaio de óculos que não arredava do palácio. =P

    Isabel

    Novembro 4, 2010 at 10:52 pm


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