Literatura de Verdade

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O evangelho segundo Barack Obama

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O presidente Barack Obama está em maus lençóis. Nada a ver com o Clinton, ou melhor, há algo a ver sim. Assim como o colega democrata, Obama perdeu as eleições legislativas que se seguiram a sua eleição à Presidência, e de uma forma bem mais dramática que Bill. Obama não conseguiu tirar os Estados Unidos da crise e sua prometida reforma da saúde é apontada como um dos motivos. Por conta disso tudo, o presidente terá de se submeter às opiniões dos republicanos, que ganharam mais espaço no Senado e na Câmara. Vocês hão de convir que a missão de Obama não era nada fácil, mas o tamanho de sua expressiva queda é consequência das expectativas de grandes mudanças que sua campanha à Casa Branca gerou. Muita gente alertou para o previsível desencanto que testemunhamos, até eu. Nessa crônica, de 2008, que segue (revista e melhorada) em mais um capítulo de Em busca do texto perdido:


Não tenho ídolos. Não consigo admirar ninguém a ponto de render-lhe mais homenagens do que merece. Dê a explicação que quiser a isso, mas é difícil para alguém como eu entender como um sujeito pode fundar um fã clube ou que motivos levam uma tiete a pedir autógrafos. Essas coisas não fazem sentido pra mim. Mas quem sou eu e o que representa a minha dificuldade em idolatrar perante uma maioria esmagadora de seres humanos capazes não apenas de adorar uma celebridade, mas de viver por ela?

Rejeito o comportamento, mas me recuso a condená-lo. No fim das contas, a idolatria é a forma mais honesta de escapar de uma existiência monótona. Só que quando esse caprichoso e inocente passatempo adquire o potencial de afetar a vida dos outros, a brincadeira começa a perder a graça. É o que costuma acontecer em eleições de Estado. Nós sabemos que a idéia de um pleito é escolher a pessoa mais capacitada para desempenhar o cargo a que ela se candidatou, mas não conseguimos evitar o voto naquele indivíduo que mais nos agrada – por ter um diploma de Sociologia, por vir de família pobre ou ser uma gata.

Como ninguém está preparado para cargo algum nem nós estamos capacitados para avaliar a melhor opção, optamos por uma variável mais simples. Eu, por exemplo, penso assim: já que são todos um bando de escroques, melhor votar no menos esperto. Mas, de forma geral, o eleitor se rende ao charme de um ou outro candidato, compra suas promessas e ideologias de curto alcance e leva o pleito a sério. Está traçado o caminho para a idolatria política, que tem o seu maior ícone na figura do atual candidato democrata à Casa Branca, o simpático Barack Obama.

Obama acaba de levar mais de 70 mil pessoas a um estádio de futebol americano. Algo semelhante ocorreu na Alemanha, e os alemães nem podem votar nele. A comoção é mundial. Tudo porque o candidato democrata virou um símbolo de mudança, algo parecido com o que ocorreu com o presidente Lula na época da sua primeira eleição. Eloquente, Obama ganhou um ar sobre-humano, virou o salvador da pátria, capaz de pôr fim a todas as mazelas do passado. A candidatura à Casa Branca transformou-o numa espécie messias, um Jesus americano.

Mas, por incrível que pareça, Obama é um mero mortal, com todo o respeito. Apesar de não ser um cara lá muito religioso, admiro Jesus. Fico com o Paulo Leminski nessa de que o messias não precisava de milagres para assinar o nome na história da humanidade. Antes de se tornar um salvador para os cristãos, Jesus foi um poeta e um revolucionário. Afora a parte mística (nessa acredita quem puder) sobra muita coisa.

É por isso que eu simpatizo com o Jesus humano do Saramago. É claro que o livro do Nobel português perturbou por tratar Jesus como um homem que duvida, que titubeia e deseja. Há toda uma doutrina religiosa baseada exatamente na negação de tudo isso. Mas se eu faço um paralelo entre o livro de Saramago e a campanha de Obama é exatamente para desmitificar o democrata, o que lhe cairia muito bem.

Se o oba-oba em cima de Obama vai lhe garantir votos, essa Obamania deve lhe tirar outros tantos. Os republicanos perceberam e se aproveitam disso, ridicularizando a atenção dispensada ao democrata pela imprensa. No momento em que se metamorfoseou em celebridade, Obama perdeu força política. Ao virar moda, o candidato diminuiu o respeito do eleitor que leva o pleito mais a sério. Sem falar no risco da crucificação.

Depositam-se tantas esperanças no democrata – e ele faz tantas promessas de mudança – que, se for de fato eleito, Obama dificilmente conseguirá corresponder às expectativas. Isso não chega a ser num dilema agora; o mais importante para qualquer candidato é se eleger, mesmo que não consiga agradar seu eleitorado depois de nomeado. Mas, conhecendo o destino trágico de alguns presidentes e candidatos à Presidência dos Estados Unidos, se eu fosse Obama, pegaria um pouco mais leve na campanha. Ou alguém aí ainda acredita em ressurreição?

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 4, 2010 às 10:38 pm

2 Respostas

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  1. Gosto dessa tua cruzada “em busca do texto perdido”. E quem diria que fui eu que te emprestei a coleção proustiana?! Eu não diria. Acho que só prometi e não emprestei, aliás. Huahauhaua. Quer dizer que, além de escritor, o senhor é profeta?! Será que Obama será crucificado mesmo? Mas Bush não pode ser o Judas, pois a posição dele foi republicana (perdoa-me, Platão!) desde o início! Boa análise, mesmo dois anos depois. Agora, dá uma chegadinha no Follow, onde também tem assunto sério. Gostaria de tua opinião a respeito. =p

    Diego

    Novembro 5, 2010 at 8:46 pm

  2. Nobre estudante, agradeço pelos efusivos elogios, mas já havia passado pelo tua nobre morada cibernética e tecido loas a tua perspicaz análise sobre os chineses britânicos.

    Rodolfo Borges

    Novembro 5, 2010 at 8:56 pm


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