Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Reinações de Lobatinho — e uma nota de rodapé definitiva

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O boneco de pano

‘Caçadas de Pedrinho’ revisto e adequado aos padrões vigentes:

O Marquês de Rabicó deu o alerta: havia uma onça nos arredores do sítio. Liderada pelo bravo Pedrinho, a turma do Picapau Amarelo se armou de espetinhos e espingardas de cano de guarda-chuva e partiu para a caçada. O Visconde de Sabugosa, Narizinho, Rabicó e Emília faziam de tudo para mostrar que estavam calmos, mas o movimento de um arbusto próximo ao grupo deixou todos apreensivos e despertou o alerta:

– Gente, é a onça, fogo! – gritaram juntos.

Mas quando se aproximavam do mato de armas em punho, os caçadores tomaram um susto ainda maior com os gritos que de lá vieram:

– Pó parar, molecada! Todo mundo com a mão na cabeça, que a casa caiu! – gritou um homem barbado e de chapéu de Indiana Jones.

Trajados com fardas camufladas, fiscais do IBAMA pularam de dentro do arbusto e deram voz de prisão ao grupo, que vinha sendo monitorado devido a uma denúncia anônima. Na abordagem, as crianças aprenderiam da forma mais didática possível que atentar contra uma espécie ameaçada de extinção, como a onça pintada, configura crime ambiental, e seriam fichadas ali mesmo. Ainda ávido por dar provas de sua bravura, mas sem se dar conta da gravidade da situação, Pedrinho se apresentou como mentor do ataque.

Por sorte, naquele momento, passeava pela floresta um conselheiro tutelar que lembrou aos fiscais do IBAMA que o Estatuto da Criança e do Adolescente não permitiria que um menino daquela idade fosse encarcerado por caçar onças, mesmo que elas fossem consideradas sagradas. Por azar, o Visconde de Sabugosa, servindo de bode expiatório aos fiscais, seria identificado pelas autoridades como o corruptor dos menores ali presentes.

– E ainda por cima fantasiado desse jeito… deve ter material pornográfico em casa. Pedófilo duma figa! – decretou irado um dos investigadores, que foi contido pelos colegas ao tentar partir para cima do pobre sabugo algemado.

Os ânimos ainda estavam exaltados quando, durante a escolta do grupo para o Sítio do Picapau Amarelo, a  esperta e espontânea boneca Emília fez um comentário de que iria se arrepender pelos 80 anos seguintes:

– Mas quem foi que dedurou a gente? – ruminava. Ah!, deve ter sido aquela pretura da Nastácia – disse, expondo a implicância que tinha pela colega de sítio.

Os fiscais do IBAMA pararam naquele mesmo instante, como que congelados por um frio muito intenso. Apenas um deles conseguiu esboçar reação depois de alguns segundos de estátua; e para dizer:

– Presa em nome da Lei Afonso Arinos! – e ser apoiado efusivamente por todos os presentes.

A boneca descobriria naquele dia que já vinha há algum tempo infringindo a lei que proíbe a discriminação dos negros no Brasil, ainda que os únicos negros que ela conhecesse fossem Tia Nastácia e Tio Barnabé – e ela implicasse apenas com Nastácia. O clima azedou de vez. Antes que aquele fatídico dia desembocasse na interdição do Sítio do Picapau Amarelo pela Vigilância Sanitária, Tio Barnabé ainda seria indiciado por praticar a perseguição de portadores de necessidades especiais afro-descentes, vulgos sacis. O Marquês de Rabicó, também punido, foi condenado a seis meses de detenção num spa, para não mais servir de mau exemplo às crianças, e Dona Benta, multada por nunca ter assinado a carteira de trabalho de Nastácia.

“E a Cuca?”, perguntava-se a criançada. “A gente também vai pegar!”, garantiu a patrulha.

*Nota de rodapé definitiva do parodiador, que o tema é delicado:

Tivesse escrito sua obra infantil nos dias de hoje, provavelmente Monteiro Lobato seria coagido a fazer algo próximo a esta parodia das Caçadas de Pedrinho, alvo de ressalvas do Conselho Nacional de Educação por contar, pretensamente, com trechos racistas e antiambientalistas. A intenção foi boa, mas há no parecer um problema básico de compreensão do que é e para que pode servir a literatura. Interpretações como essa do CNE, aliás, explicam de forma eloquente por que se lê tão pouco no Brasil. A forma como nosso sistema educacional encara a literatura repele nossas crianças e jovens dos livros, relegando os adultos que eles virão a se tornar a um analfabetismo funcional que só encontra refúgio em enredos idiotizantes e vampirescos.

A literatura, senhores, existe exatamente para deseducar, ou, antes, para provocar no leitor a reflexão por meio do questionamento da realidade, por meio da imaginação. Ora, o melhor que um desses livros pode fazer por uma criança é liberá-la das amarras que lhe serão impostas inevitavelmente na escola, onde ela vai aprender por meio de material didático todas as regras que deve respeitar. A literatura, por sua vez, é (ou deveria ser) a válvula de escape, atribuição que temos relegado ao videogame e à televisão. Se formos acrescentar as regras e ideias da moda até às obras literárias por meio de alertas, elas perderão seu sentido enquanto arte. É essa a intenção? Exterminar os piratas e as caçadas ao tesouro porque dão maus exemplos? Já não basta a atualização patética do clássico Atirei o Pau no Gato?

“Quer dizer que devemos deixar nossas crianças indefesas expostas às maledicências de monstros racistas como Monteiro Lobato?”, questionará o preocupado pai. Eu responderia que sim, não sem antes ressalvar que tudo que achamos correto, como a igualdade entre os seres humanos e o respeito aos animais, deve ser ensinado, mas não por meio da demonização de livros ou autores. Isso é muito arriscado. Sabe por quê? Me dei ao trabalho de ler as Caçadas de Pedrinho e, mesmo conhecendo a fama de racista de Monteiro Lobato (que também paira sobre Machado de Assis) não identifiquei traços de racismo, a exemplo do ministro Haddad.

Uma das passagens mencionadas pelo CNE para justificar as ressalvas é dita por uma capivara: “Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagem”. Percebam que ela se refere aos homens, mas o pessoal do CNE preferiu ver aí uma ofensa aos negros – provavelmente porque a palavra macaco seja um dos impropérios racistas mais comuns. Em outro trecho, Nastácia é comparada a uma macaca pela agilidade com que subiu em pernas de pau; mais uma vez, vê racismo quem estiver disposto. Esse é o ponto central da minha ressalva a essas ressalvas educacionais. A boa literatura, meus caros, se presta a infinitas interpretações. Vejam o caso de “Um relatório para a Academia”, do Kafka. No conto, um macaco vestido como homem profere um discurso em que se congratula de, depois de capturado, ter passado por um treinamento, um processo de humanização que o permitiu chegar ao nível de fazer aquela competente apresentação. Há quem enxergue no texto uma crítica aos maus tratos causados pelo homem aos animais. Como Kafka era judeu, também é possível entender o conto como uma alusão à perseguição de seu povo. Bem, me digam o que um militante da causa negra diria sobre a obra.

Os técnicos da Secretaria de Políticas de Promoção e Igualdade Racial que recomendaram as ressalvas ao CNE estão incumbidos de zelar pela igualdade, mas cometem o mesmo erro dos movimentos nacionais pela afirmação dos negros. Mais do que identificar, denunciar e combater o racismo, buscam por ele e o encontram mesmo onde não há, num processo de retroalimentação. Estão condicionados a isso, como grande parte de nós, que crescemos assistindo a barbáries perpetradas contra e em nome de raças. O movimento negro desempenhou um papel sem igual na história da humanidade, de um brilhantismo ímpar, mas vem prestando desserviços no Brasil desde que extrapolou suas pretensões de igualdade de direitos civis para se transformar em um grupo organizado em busca de privilégios, como a inserção de sua causa em livros infantis ou a reserva de vagas em universidades que nunca tinham levado a cor em conta em suas seleções. Enquanto o movimento negro existir, aliás, as raças e, consequentemente o racismo, continuarão a existir – e talvez seja a hora de debater esse dilema também.

Antes que um leitor mais exaltado me acuse de racista por defender a extinção do anacrônico conceito de raças, faço questão de destacar que não nego a existência do racismo, nem questiono o passado de sofrimento de negros no país. O racismo existe e deve ser combatido, mas as estratégias utilizadas atualmente estão ultrapassadas. Elas não apenas impedem avanços concretos, como geram retrocessos. Minha sugestão para a educação das crianças? Explicar que não há raças – que até hoje só serviram para justificar ignomínias – e que as tonalidades de pele nos diferenciam, mas não a ponto de nos tornar desiguais.

Por fim, quando se estampa em um livro, mesmo que numa pequena nota de rodapé, que ali há conteúdo racista, esse conteúdo passará a existir, nem que o leitor tenha de criá-lo ao longo da leitura. Não identifiquei racismo em Caçadas de Pedrinho, mas, se alerta houver, terei de pensar no tema se o ler daqui a alguns anos. Inserir essa nota na obra seria pior do que extirpar o livro da rede pública e mais nefasto que qualquer tipo de censura. Apontar o racismo nela vai muito além de educar – significa transformá-la em racista. Daí para que o livro passe a ser utilizado apenas com o intuito de mostrar aos jovens como Monteiro Lobato foi racista é apenas um passo; e na direção do abismo.

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 6, 2010 às 12:27 am

6 Respostas

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  1. Concordo. Acho que explicar o contexto histórico da época em que a obra foi criada também funciona bem. mas esperar isso de professores despreparados, preguiçosos e esquerdistas em potencial é complicado…

    Rodrigo Borges

    Novembro 6, 2010 at 12:45 am

  2. Minha eterna ressalva para você é que não estamos falando de sofrimento do negro apenas no passado. Esse é só um dos pontos. A desigualdade ainda existe hoje, o que cria o hiato que você não compreende bem. E você tem que relembrar que as ações afirmativas são políticas “em teste”. Por que é tão difícil esperar até o décimo ano das cotas na UnB para aí, sim, avaliarmos os resultados? Aquela velha história de que se criariam dois Brasis, um branco e um negro, devido às cotas, está longe de ser realidade. Conheço alguns antropólogos e jornalistas negros, aprovados pelas cotas na UnB, e bem colocados no mercado. Nenhum patrão deixou de contratá-lo porque “malandramente” ele teria tirado a vaga de um branco pobre no vestibular. Concordo com você, no entanto, que as “minorias” às vezes vão muito além da causa que defendem e começam a reivindicar só privilégios. Caso de muita gente do PT, inclusive. E de várias outras legendas, claro. Não sei se conseguiria entabular uma discussão contigo sobre racismo e ações afirmativas pela web. Mas respeito seu ponto de vista, ainda que discorde completamente. Por outro lado, tampouco vejo racismo na obra de Monteiro Lobato – pelo que você descreve. Sobre Machado – de quem tenho um pouco mais de conhecimento de causa -, acho estranha essa acusação. Até porque ele era mulato (não que quem seja negro não possa ser racista). Por fim, acho que essa é uma discussão em aberto. Para provar que aceito a realidade dialética de ser seu amigo e seu oponente intelectual – no que se refere às ações afirmativas, fiz uma homenagem a seu blog no meu. Viva o debate! Abaixo a unanimidade!

    Diego

    Novembro 6, 2010 at 9:02 pm

    • Puxa, ainda bem que seus colegas não foram discriminados por serem cotistas. Só faltava essa. Não nego, como disse no texto, que há racismo, e também que há desigualdades sociais em nosso país (mas não como consequência direta da escravidão de negros). Minha crítica é à forma como as questões são conduzidas, beneficiando um grupo que faz parte de um universo de desfavorecidos.

      Sei que o sistema de cotas está em teste, mas acho que o resultado que dele se espera será alcançado inevitavelmente, pois será possível dizer que mais pessoas de pele mais escura se formaram (com mérito, naturalmente, mas não sem um favorecimento paternal que me lembra a conduta de um benevolente senhor de engenho, já que falamos de escravidão), apesar de a maioria dos cotistas (e dos brasileiros) ser classificável como parda.

      Mas a discussão do texto nem é essa, Diego. Essa história de cotas a gente vai ficar discutindo pro resto da vida mesmo. Abraço!

      Rodolfo Borges

      Novembro 6, 2010 at 11:29 pm

  3. Meu caro, genial seu texto! Excelente!
    Quanto à questão do racismo: inócua, a discussão é política.
    Mas acho que o prejuízo das restrições faz todo o sentido.
    Parabéns!!!

    Leo

    Novembro 9, 2010 at 9:24 am

  4. Meu caro, você e quem apoiou esse texto certamente não tiveram o trabvalho de reler o Monteiro LObato. Talvez só o tenham conhecido da versão televisiva, que, convenientemente, podou (cenrusou?) os trechos profundamente racistas, que são marca da época.

    Negro, para LObato, não tem lábio, tem beiço, Narizinho e as princesas têm medod e tomar café e ficar com a pele preta; Nastácia, quando conta suas histórias, é ridicularizada por todos, enquanto Dona benta é vista como exemplo de sapi~encia e, quando contestação há, é sempre com respeito; “a onça vai comer voc~e também, mesmo tento a pele preta”, diz Emília.

    Não há como um negro ler o Lobato e não se sentir depreciado, rebaixado, ridicularizado, humilhado, proqeu, afinal , até encotnrr alguma das milhares de menções racistas, ele pdoe até ter se identificado com Narizinho, pedrinho ou Emília.

    Mas, felizmente, não somos negros, não é mesmo, e nem racistas, muito menos ridiculamente políticamente corretos.

    Não recomendo pegar um livro como reinações de narizinho e o Histórias de Tia nastácia, escolher os trechos onde há referencias a negros e os leia em voz alta no pelourinho. Seria uma experiência inesquecível – talvez irrepetível.

    sergioleo

    Novembro 9, 2010 at 5:25 pm

    • Sérgio, imaginei que poderíamos debater a questão, afinal de contas você pareceu disposto ao debate em seu blog; por isso te mandei o texto. Não sei se você leu ele todo, inclusive a nota de rodapé, que fiz questão de que fosse bem extensa para deixar tudo bem explicado. Digo isso porque aparentemente você apenas reproduziu tudo o que já havia escrito em seu blog, sem se preocupar em argumentar a partir das ressalvas que fiz à questão — que considero maior, como espero ter deixado claro, do que meramente racial.

      Reli o Monteiro Lobato (como menciono no texto), mas já li também obras do Lobato como O Presidente Negro (que 90% das pessoas devem simplificar como racista, e eu não consigo resumir a isso) e parte da minha crônica (na nota de rodapé) foi reservada para mostrar como pessoas como você estão inclinadas a identificar o racismo com mais sensibilidade e pessoas como eu não têm um radar tão apurado para o tema.

      Não duvido que o pessoal do Pelourinho se sinta ofendido com as expressões utilizadas por Lobato (em alguns lugares, como você mesmo comenta, se dissermos que “a coisa está preta” a situação realmente fica ruim; ou seja, depende de quem ouve). Discordo apenas, como está escrito aí no meu texto, de que essa versão se imponha às outras por força de Estado. Não está em discussão que você considera a obra de Lobato racista e eu não. O que está em discussão, no fim das contas, é se a sua interpretação merece se tornar oficial.

      Rodolfo Borges

      Novembro 9, 2010 at 5:58 pm


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