Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Conversa sobre a CPMF com o fiscal de rendas

with 5 comments

Aposentada em 2007, a CPMF ameaça voltar do exílio pelas mãos dos governadores estaduais. Escrevi o poema abaixo na época em que começou a se discutir a permanência/extinção da contribuição, há três anos. Ele é baseado numa tradução que o Augusto de Campos fez de um poema do Maiakovski chamado Conversa sobre poesia com o fiscal de rendas. Se você não conhece o poema original ou não tem acesso a ele, fique à vontade para atribuir as melhores partes ao Maiakovski (a última estrofe é dele). Esta é mais uma da série Em busca do texto perdido:

Conseguirá Vladimir repassar esse borrachudo?

Cidadão fiscal de rendas!
Desculpe a liberdade.
Obrigado, não se incomode, estou à vontade.
A matéria que me traz é algo banal:
O lugar do cronista na sociedade atual.

Lá se vai o tempo em que a crônica era respeitada.
É o tempo mesmo que se foi, comenta-se, com medo da internet,
Mas o assunto é mais grave, caro fiscal, isso não é nada.
Mesmo desprestigiado, ao lado de donos de terras e flats
O escritor permanece citado por débitos fiscais,
Que essas coisas, quando mudam, é pra pior.
Você me exige 30% do pouco que ganho por mês
E, por amor à CPMF, aumenta a cobrança mais uma vez.

Meu trabalho a todo outro trabalho é igual.
Veja só quantas perdas de vulto,
Que despesas requerem meus produtos
E quantos gastos com material:
Você conhece por certo a estratégia da citação,
Que tira do escritor o comprometimento com a razão
E o joga nas costas de um autor mais valioso.
Pois além dos livros, que podem deixar o texto algo pomposo,
É preciso engenho para saber o que e quem mencionar,
E, para taxar essa capacidade, não basta estar disposto.

Assim acontece com a emoção,
Isso que se sente e pede ao papel uma versão.
Cidadão fiscal de rendas, eu lhe juro,
As palavras custam ao escritor um juro duro
E a dívida que eu tenho para com elas
É muito maior que seu imposto espúrio,
Como é meu débito com minhas verdades,
Com os cronistas que já foram e que virão.
Sou devedor eterno do mundo que conto
E que contarei daqui a séculos
Quando, do papel mudo, o tempo ressuscitar.

Tenho contas, portanto, mais valorosas e importantes a pagar,
Mas vocês insistem em cobrar 0,38%
Por cada uma das minhas movimentações financeiras
E tentam me convencer de que isso será bom para o país,
De que meu dinheiro não vai passar as férias num paraíso fiscal,
“Não, pelo contrário”, vocês dizem, “lhe fará muito feliz
Nas mãos dos outros. E nisso não há nada de mau”.
Vocês desprezam o meu trabalho, que lhes sustenta.
Mas eu pago as contas pra não ir preso
E mereço ser tratado com o devido respeito
Que a importância do meu ofício ostenta.

Porém, se vocês pensam que se trata apenas
De copiar palavras a esmo,
Eis aqui, camaradas, minha pena,
Podem escrever vocês mesmos!

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 8, 2010 às 12:07 am

5 Respostas

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  1. Rebola, Maiakovski ordináário!

    Rodrigo Borges

    Novembro 8, 2010 at 7:25 am

  2. Com alguma sapiência, posso dizer que a saúde pública é subfinanciada no País. Portanto, sim, é necessário um volume de recursos maior para financiar o SUS. Daí justificar-se-ia o resgate de CPMF ou o nascimento da CSS. Porém, deparamo-nos com um problema que, a olhos vistos, é muito pior: a gestão da saúde é tão ruim, em muitos municípios e estados (e principalmente no DF), que nós – como cidadãos – ficamos céticos sobre como o dinheiro existente hoje é devidamente aplicado. E, sem dúvida, questionamos se mais um imposto pra nos comer o salário realmente resolveria a situação! Cidadão fiscal de rendas, e se eu emigrar?!

    Diego Iraheta

    Novembro 9, 2010 at 8:49 pm

    • Há quem continue acreditando que o melhor caminho para o brasileiro é o aeroporto. Mas a crise por aí está tão grande que talvez nem faça tanta diferença assim.

      Rodolfo Borges

      Novembro 10, 2010 at 9:41 am

  3. Prezado Rodolfo, sao quase 2h, creio. Sabe onde eh que perco a nocao do tempo? Certamente, em um de seus recantos prediletos: a biblioteca! Vou dormir por aqui hoje. Ta tao frio la fora que fico com meus belos textos e livros de companhia madrugada afora. Nao me inveje, oh, escritor de pena, papel e tesoura. Apenas atualize seu blog pra, as 4h, eu voltar e ler algo tao valoroso quanto essas obras todas que me cercam. Milhares. Bem-aventurados somos os seres humanos cercados por livros. Falei rodolfo!

    Diego Iraheta

    Novembro 10, 2010 at 10:53 pm

  4. Diego, estou com um texto engatilhado e ele deveria ter sido publicado ontem à noite (quarta-feira por aqui), mas, como tem se tornado praxe na capital federal, caiu a energia de minha humilde morada, o que impossibilitou a atualização deste. Se a luz não nos faltar hoje, ilumino as coisas pro aí — ou nem tanto, que o próximo texto não se trata exatamente de explicar.

    Rodolfo Borges

    Novembro 11, 2010 at 9:44 am


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