Literatura de Verdade

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O veredicto de Pargendler

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Se ele não veio para explicar, quem sou eu?

Não vejo outra forma que iniciar este texto senão assumindo e externando de antemão o meu imenso constrangimento. É sob o risco de cometer uma injustiça que caio na saborosa tentação de comentar a enigmática decisão do ministro Ari Pargendler de demitir o estagiário Marco Paulo dos Santos numa fila de banco — e a injustiça é um troço que me pesa muito, algo que modestamente atribuo apenas ao eficiente condicionamento social porque passei nos últimos 27 anos. Marco Paulo acusa o presidente do STJ de tê-lo demitido sem motivo que o valesse e, como Pargendler reservou-se ao direito de permanecer calado, sabemos apenas que o estagiário esperava pelo momento em que o senhor à sua frente deixaria o caixa eletrônico para pagar uma conta quando o tal senhor se metamorforseou no ministro Pargendler para, em seguida, dizer que o rapaz já era.

Na ânsia de restabelecer a ordem das coisas — visto que a Justiça foi abalada em suas mais altas instâncias — buscamos explicações que justifiquem a atitude: 1. Marco Paulo foi vitima de discriminação por ser negro; 2. Pargendler estava com medo de ser assaltado; 3. o ministro acordou com o pé esquerdo; 4. ou simplesmente o estagiário inventou a história para aparecer. Mas e se não houver explicação? E se o ministro calou sobre sua versão dos fatos exatamente por não encontrar um motivo que justifique sua atitude? Bem, então estamos perdidos, porque sem explicação, minha gente, não há saída: é Kafka na veia dos irmão. E o pior é que tem até um conto dele que fala sobre o ministro e o estagiário.

No Veredicto, o papel de Marco Paulo é feito por Georg Bendemann e Pargendler é interpretado pelo pai de Bendemman (na versão brasileira, o papel fica com o Tony Ramos). Em linhas breves, Georg termina de escrever a um amigo que vive no exterior, a quem avisa que está noivo, e vai visitar o pai no quarto ao lado — os dois vivem juntos desde que a mãe de Georg morreu. Tudo vai bem até o progenitor questionar a existência do tal amigo de Georg e, tomado por uma fúria inexplicável, partir para cima do filho, num rompante que termina com o pai condenando Georg ao afogamento. E não é que o jovem pula mesmo no rio que passa ao lado de casa?

Moral da história? Bem, não tem moral. O pai estava senil? Estava nervoso com o filho porque ele iria se casar? Sei lá. Explique como puder. É como aquele personagem do André Gide que empurra do trem, para a morte, um passageiro desconhecido; que nem o tiro de Meursault no árabe. Gratuito, fora do espectro moral, sem sensibilidade ética. Sem razão, enfim, como a condenação de Bendemann, como a demissão de Marco Paulo. Como esta crônica, no fim das contas. Aí eu te pergunto: que tal viver sem essas respostas? Se, apesar do esforço, você não conseguir, fique à vontade para descobrir pelo menos por que eu escrevi isto aqui — porque eu não quero nem saber.

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 11, 2010 às 11:48 pm

2 Respostas

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  1. Me é mais fácil viver com as injustiças, contra as quais posso reclamar, do que com a amplidão da falta de respostas.

    Leo

    Novembro 12, 2010 at 7:07 am

  2. … E tenho raiva de quem sabe! Mais uma vez, repito: um brinde aos ignorantes! Tiririca, tu és Marco Paulo. Tu és ministro do STJ! Ou tu és simplesmente deputado!

    Diego Iraheta

    Novembro 12, 2010 at 11:11 pm


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