Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Um general na biblioteca

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Sentido!

Semanas depois de emergir dos subterrâneos acadêmicos, a polêmica em torno da obra infantil de Monteiro Lobato sobrevive artificialmente, graças ao auxílio de aparelhos — e provavelmente permanecerá assim, moribunda, para sempre. O tema reverbera em nome da causa negra; uma causa nobre e que, por ser nobre, impediu parte de nós de compreender o que significa uma ingerência estatal sobre uma obra literária, via nota de rodapé com firma reconhecida ou banimento. Há quem diga que conhece negros dilacerados pela obra de Lobato e quem deponha sobre casos em que os livros do escritor fomentaram o racismo; outros não entendem como os defensores do escritor não enxerguem em Emília um risco a ser combatido — e, portanto, inferem que aqueles que não identificam racismo naquelas páginas desconhecem a obra em questão. Geralmente são pessoas que se compadecem da história de sofrimento dos escravos no Brasil e, tomadas por uma espécie de complexo de senhor de engenho, sentem-se responsáveis por perpetuar uma tutela ancestral.

Mas a intenção deste texto é passar ao largo da questão racial, que já nos desviou muito do foco. Venho por meio deste, enfim, declarar e defender a minha bandeira. Se esta é uma época de ativismo político e de lutas em nome das minorias, anuncio como minha causa o livro. Essa presa fácil que se presta a todas interpretações e, portanto, está sujeita às acusações mais torpes costuma ser usada como bode expiatório em nome das mais diversas calças, quer dizer, causas. Pudera; é muito fácil e bem mais cômodo culpar um livro por nossas falhas e limitações — ou tem alguém por aí com peito o bastante para bancar a internet? Tomo para mim, portanto, a tutela dos livros, principalmente aqueles considerados os mais nocivos. Mark Twains, Nabokovs, Lobatos, chineses em geral, nada temei. Às favas com o verniz da correção e do bom-mocismo. Apontem-me os livros subversivos, aqueles que mais lhes incomodam; as obras consideradas racistas e pornográficas, essas se tornarão as minhas preferidas e receberão mais empenho em sua defesa. “Mas são crianças, precisamos protegê-las, principalmente em ambiente escolar”, lamentarão em desespero os temerosos pais. Ah, parem de tratar as crianças como débeis mentais.

Quero mais é que os pequenos se exponham a más influências também dentro dos livros (ou só pode fora deles?), que questionem os mais velhos, que os ponham contra a parede e que pensem em vez de virar zumbis crepusculares. Que tenham o direito de imaginar, de criar e perguntar aos adultos por que seus pais, assim como Emília, demonstram desprezo pela empregada da família ou por que soa esquisito quando a boneca dá tanta atenção à cor de Tia Nastácia. E que todos, adultos e jovens e pesquisadores universitários, tenham liberdade para interpretar os livros como conseguirem ou quiserem, sem precisar seguir manuais esterilizantes impostos por secretarias de educação; e que todos aqueles que pleitearem censurar os livros em nome dos bons costumes, dos negros, do partido, do regime, do meio ambiente, da igreja, do Estado ou das forças armadas, o que for, sejam condenados sumariamente ao ridículo e desmoralizados em praça pública. E, mais do que tudo isso, que ninguém seja obrigado a ler qualquer que seja o livro, pois não existe maior violência intelectual do que coagir alguém a folhear o que não quer.

Estamos indo pelo lado errado, senhores. Quando resumimos Dom Casmurro à pergunta sobre a traição de Capitu rebaixamos Machado de Assis ao nível de uma revista de fofoca. E esse é apenas um exemplo da forma como tratamos as letras dentro de sala de aula. Se isso é o máximo que nossos professores conseguem ou estão autorizados a fazer, há algo de errado. É preciso mostrar o benefício de ler um bom livro, incentivar a leitura em vez de rodear a literatura de ressalvas e alertas sanitários. Obrigar crianças e adolescentes a ler e pretender aferir o cumprimento da ordem por meio de provas chega a ser obsceno, mais do que um Sade ou um Bocage. Mas contra isso ninguém se manifesta. Pois bem, eu protesto agora. Em nome da causa dos livros marginais e marginalizados conclamo os amantes da literatura a erguer uma trincheira. Sigam-me os bons e os maus, que do lado de cá não haverá distinção. E sugiro a quem ainda não entendeu a mensagem a seguir o exemplo do general Fedina, do Calvino, e trancar-se dentro de uma biblioteca para ler. O general do conto só o fez a mando do Estado-maior de Panduria e com a missão de identificar e suprimir os livros que contivessem opiniões contra o regime militar. Leu tanto que saiu de lá questionando a censura.

Se não for pedir demais, leiam. Ou vão esperar alguém mandar?

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 14, 2010 às 12:36 pm

5 Respostas

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  1. Muito bom, muito bom mesmo.
    Boa sorte, meu caro.

    Leo

    Novembro 14, 2010 at 4:43 pm

  2. Quer dizer então que eu posso ler tudo o que eu quiser?

    Isabel

    Novembro 18, 2010 at 11:05 pm

    • Por incrível que pareça. Menos o que que eu estiver lendo!

      Rodolfo Borges

      Novembro 20, 2010 at 2:56 pm

      • Censura! Dentro da própria casa!

        Isabel

        Novembro 20, 2010 at 7:15 pm

      • Censura! dentro da minha própria casa! =O

        Isabel

        Novembro 20, 2010 at 7:16 pm


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