Literatura de Verdade

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Na colônia penal

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O governo britânico anunciou que vai indenizar 16 de seus cidadãos que foram torturado na prisão americana de Guantánamo. O ex-presidente George W. Bush admitiu outro dia em suas memórias que autorizou “técnicas duras de interrogatório” na prisão. E eu escrevi sobre essas coisas há dois anos. Segue, portanto, abaixo, em mais um capítulo da série Em busca do texto perdido, mais uma contribuição da perturbada cabecinha de Kafka a este blog:

É mais ou menos assim

Guantánamo completa seis anos neste mês. Localizada em algum lugar da base naval que os Estados Unidos mantêm em Cuba, a cadeia foi criada em 2002 para encarcerar suspeitos de terrorismo. À época, em meio à comoção provocada pelos atentados ao WTC, criar um centro que reunisse os maiores inimigos do país parecia não apenas a melhor atitude a ser tomada pelo governo americano, mas a mais sensata. Só que o tempo apagou o discreto charme da prisão e seu fechamento figura discretamente entre os assuntos em pauta na corrida deste ano à Casa Branca.

O presídio americano não mantém terroristas em suas celas, mas suspeitos de terrorismo. Mais de 800 pessoas passaram por lá; algumas saíram, mas nenhuma chegou a ser julgada, e as únicas dez denúncias formais apresentadas pelas comissões militares de julgamento foram consideradas ilegais pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Quer dizer, nada foi provado contra quem passou por aquelas celas.

Não quero dizer que todo mundo tem direito a um julgamento, nem pretendo afirmar o contrário. A questão é que os Estados Unidos são conhecidos como a terra da liberdade e, em sua Constituição, está escrito que todo mundo tem direito a um julgamento antes de ser condenado; menos em Guantánamo. É incoerente, mas faz parte da lei antiterror – o que torna as coisas meio absurdas. O senador Renan Calheiros diria que o quadro é kafkiano. Concordo. Aliás, se ainda me assustasse, eu diria que a semelhança de Guantánamo com a colônia penal do Kafka é assustadora.

Na historinha do tcheco pirado, um oficial descreve a um estrangeiro as minúcias de um aparelho de tortura cuja função é prolongar ao máximo o sofrimento dos condenados à morte. Durante o processo de agonia, a regra que o fora-da-lei burlou é escrita em seu corpo pelas agulhas que compõem a máquina. O procedimento termina quando o condenado já não tem mais sangue a perder.

Existem relatos de tortura em Guantánamo e algumas pessoas morreram na prisão, suicidadas, na versão oficial; mas o que aproxima mesmo Kafka da cadeia americana é a ignorância dos presos quanto a sua culpa. Os condenados também não têm direito de saber por que serão punido e, conseqüentemente, não podem se defender. Como em Guantánamo, a culpa é sempre indubitável.

Só, que, também como Guantánamo, a colônia penal declina. O aparelho de tortura sobrevive apenas graças à obsessão de um oficial remanescente da gestão do comandante que criou e instituiu as regras. Faltam peças de reposição e o público não acompanha mais as execuções com tanto interesse. Isso e a relutância do estrangeiro a quem a máquina é apresentada em aceitar o procedimento levam o resistente oficial a condenar-se àquela que seria a última execução do aparelho.

Terá alguma autoridade americana a hombridade de se encarcerar na admirável Guantánamo quando o presídio estiver para fechar as portas?

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 16, 2010 às 10:01 pm

Publicado em Crônica

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3 Respostas

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  1. Legal que estávamos discutindo Guantânamo na segunda-feira, na aula de Media Theory and Research. Também, claramente, criticando as autoridades norte-americanas. E o compasso cúmplice da mídia ianque (principalmente a CNN) e do povo americano (boa parte dele, ao menos). Bom texto kafkiano! Diria até que é meio Foucaultiano! Abraços.

    Diego Iraheta

    Novembro 16, 2010 at 10:27 pm

  2. Seus comments não aparecem?! O número de comentários? Você não quer mudar pro Tumblr, não? Aí eu posso reblogar ou “gostar” do seu post. Daí aparece no meu. Veja como ficou o que fiz com o último post do Léo.
    Abraço.

    Diego Iraheta

    Novembro 17, 2010 at 9:31 pm

  3. Ah, acho que o blog vai ficar por aqui mesmo. Preguiça de mudar. Ele também é meio preguiçoso, mas conta o número de comentários depois do primeiro. De qualquer forma vou ver se no fim de semana encontro um modelo à altura. Valeu!

    Rodolfo Borges

    Novembro 18, 2010 at 10:15 am


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