Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Pierrô da Caverna

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O tema surgiu numa conversa com amigos num bar outro dia. Eu não sabia que a Amazon tinha retirado do seu rol de livros virtuais o Guia do Pedófilo, em que um cara chamado Philip Greaves apresenta um código de conduta para os “amantes das crianças”. A empresa chegou a defender o direito do autor de manifestar suas opiniões, mas a ameaça de boicote foi mais forte. Ok, a pedofilia me parece a última grande trincheira moral de uma época em que tudo é permitido, mas não consigo compreender o medo que as pessoas têm da palavra escrita — que o diga o Ignácio de Loyola Brandão, que inutilizou os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século para os estudantes paulistas. Se o livro de Greaves faz apologia ou algo do tipo à pedofilia, ele será preso. No mais, compra e lê a obra quem quiser. E lê quem quiser também esse textinho aí, que tem a ver com pedofilia e eu escrevi em 2007, numa época em que o mais importante era contar a história; é baseado em um conto do Rubem Fonseca e está nO Cobrador. Vai mais um capítulo de Em busca do texto perdido:


Pierrô da caverna

Confirmado: um personagem do escritor mineiro Rubem Fonseca está entre os 152 adultos presos pela Polícia Rodoviária Federal, só neste ano, sob acusação de pedofilia. O personagem, também escritor, atende pelo codinome de Pierrô da Caverna e a polícia mantém sua identidade em segredo para evitar alarde. Pierrô levava em seu carro material pornográfico de conteúdo proibido e planejava passar férias em Minas Gerais com uma menina de 12 anos.

Como cultivava o peculiar hábito de registrar tudo o que pensava em um gravador, a polícia não teve trabalho para identificar seus crimes. De acordo com inúmeras fitas cassete, ele se apaixonara há alguns meses pela garota com quem ia passar as férias em Ouro Preto e, depois de iniciar uma relação amorosa com ela, passou a procurar outras jovens de idade semelhante.

Questionado pela reportagem sobre os motivos que o levaram a seguir uma conduta condenável, Pierrô limitou-se a dizer que: “a arte está cheia de meninas virando a cabeça de homens maduros, a de Malle, a de Nabokov, a de Kierkegaard, a de Dostoievski. Dostoievski seduziu uma menina de menos de doze anos e contou para Turgueniev, que não lhe deu importância. Sua culpa está projetada no Svidrigailov, de Crime e castigo, e em Stravogin, de Os possessos, ambos pedófilos violadores. Cena do Diário de um sedutor: a menina desce da carruagem e deixa aparecer um pedaço da perna e eu, Kierkegaard, me apaixono avassaladoramente”.

Mas nem o próprio personagem poderia falar mais do que suas gravações. Pelas fitas, a polícia descobriu que o homem, já passado dos 50, enamorou-se pela garota ao encontrá-la no hall de entrada de seu apartamento. Segundo ele, a menina também se interessou, e não demorou muito para que os dois se envolvessem. A confissão foi registrada. “Eu sabia que ia ser naquele dia, senti-me dominado por espectrais alucinações, como os santos, e minha boca estava seca, meu Deus, ela tinha apenas doze anos, seu hálito ardente entrou pelas minhas narinas e extasiado vi o seu corpo se revelar…”, conta um trecho das fitas.

Pierrô, que aguarda julgamento preso, ainda teria que solucionar uma gravidez indesejada da garota antes de começar a se envolver com outras meninas. Algumas eram colegas de Sandra (nome fictício) e outras ele conheceu por meio de contatos na internet. Nas gravações o escritor comenta que não imaginava um dia fazer parte de uma rede de pedofilia mundial ligada pelo ciberespaço. Afinal, o que sentia por Sandra era amor de verdade. Mas o personagem acabou tomando gosto pela coisa. Ele e outros 151 pedófilos de verdade.

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 21, 2010 às 11:40 am

6 Respostas

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  1. O assunto é muito delicado e, de fato, embrulha o estômago. De fato, uma enorme trincheira moral, mas é a penúltima. Porque a última (e universal, segundo Lévi-Strauss) é o incesto. Mas aí já não me resta estômago nenhum para refletir.

    Leo

    Novembro 21, 2010 at 1:42 pm

    • É verdade, tem o incesto. Mas quando falo da pedofilia nesse caso tenho em mente a possibilidade de um grupo organizado de pedófilos se reunir para reivindicar o direito de amar as criancinhas. Não consigo ver isso acontecendo com um grupo de praticantes do incesto. Mas se bobear tem grupo pra isso também (ou pelo menos uma comunidade no orkut).

      Rodolfo Borges

      Novembro 21, 2010 at 9:59 pm

  2. Então, eu paro nessa aí. Por mais que concorde que o tal Greaves tenha o direito de publicar o que quiser (e arcar com o que escrever), não consigo defender esse direito, neste caso.

    Isabel

    Novembro 21, 2010 at 9:45 pm

  3. Eu fico em duvida. Se deviamos falar mais em pedofilia, incesto, pansexualismo. Se deviamos falar menos. O comportamente humano – e sexual – eh muito esquisito as vezes.

    Diego Iraheta

    Novembro 24, 2010 at 2:44 pm

  4. gostei do tom que você usou no texto, ficou legal
    a mistura da ficção e a realidade

    vinicius

    Novembro 19, 2016 at 10:58 am


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