Literatura de Verdade

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O cobrador

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O bicho tá pegando no Rio de Janeiro. O governo diz que os carros queimados são uma resposta ao sucesso da política de segurança do estado, mas os ataques também revelam os limites da ação policial quando não acompanhada por expressivas intervenções sociais. Algo parecido com a bagunça do Rio ocorreu em São Paulo há quatro anos e eu escrevi isso aí (agora revisto e melhorado). Acho que tá valendo. É mais um Em busca do texto perdido:

A continha, por favor

O cobrador

As coisas esquentaram em São Paulo desde que o Primeiro Comando da Capital (PCC), espécie de partido político dos presidiários, resolveu fazer campanha antes da hora. O grupo é presidido por um cara que responde pelo nome de Marcola, mas pode chamar de cobrador. Sabe aquele personagem do Rubem Fonseca que, depois de concluir que o mundo lhe deve uma infinidade de coisas, sai cobrando? Ganhou nome.

Comida, relógio, dentes, cobertor, sapato, casa. É em nome disso que, em vez de pagar por um tratamento dentário, ele atira no joelho do dentista que lhe arrancou um dente podre. É em nome da namorada que não tem, do colégio, do aparelho de som, do respeito, do sorvete e da bola de futebol, de tudo enfim que o mundo lhe deve que ele maltrata quem ainda não pagou a conta.

Marcola tem feito lá suas cobranças. Nem tão numerosas, convenhamos, mas vá lá, ele pede; exige o que chama de um “sistema carcerário com condições humanas”. Diz que não quer nada além do cumprimento da lei. Um fora-da-lei que luta por ela. Bonito isso. Sua principal exigência é que ele e seus amigos sejam punidos devidamente pelos crimes que cometeram.

Evidente que um dos motivos da ofensiva é o aumento da rigidez carcerária, que atrapalha os negócios. Mas se o serviço carcerário funcionasse direito, como processo de reabilitação, esse pessoal não teria por que controlar o tráfico do lado de dentro. Mais do que isso, se esses caras tivessem mais opções, podiam, quem sabe, nem ter parado na cadeia. Começo a achar que é exagero comparar Marcola ao cobrador.

Chegando ao meio da história, depois de mais algumas maldades, Fonseca leva seu cobrador à entrada de uma festa da alta. Lá, o egoísta seqüestra e mata um casal — ignora a gravidez da mulher e arranca a cabeça do homem a golpes de facão. Crimes depois, o herói se envolve com uma bela moça de classe alta, com quem relaxa e aprende táticas mais ousadas.

A muito custo, despede-se do punhal, do rifle, dos revólveres e do facão para abraçar as bombas. Evolui. Mas continua atrás do xarope, do cinema, do filé mignon e do pão com mortadela que lhe devem. Marcola parece um cobrador mais modesto. A conta poderia ser mais cara.

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Written by Rodolfo Borges

Novembro 26, 2010 às 8:51 am

Uma resposta

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  1. É, e nosso País tá cheio de cobradores latentes, tendo em vista a gritante discrepância socioeconômica e cultural que vivemos.

    Diego Iraheta

    Novembro 30, 2010 at 9:35 pm


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