Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Crime e castigo; ou melhor: Laerte é Napoleão

with 4 comments

Arrasou! Napoleônica.

Laerte se veste de mulher. Pois é. Então… É difícil esquecer a imagem travestida do maior cartunista do país. Laerte saiu dos jornais para usar esmalte. Estranhei. Mas estranhei ainda mais a naturalidade com que o mundo parece ter encarado a transgressão. Quer dizer, o filho do Toninho Cerezo está aí tentando um lance parecido há um tempão e até agora só conseguiu uma página na Vogue.

Longe de mim incentivar qualquer tipo de discriminação, mas estamos falando de um travesti, certo? Um cara que, marginalizado, costuma recorrer à prostituição como último recurso de sobrevivência. Pois Laerte não apenas foi poupado do escárnio público como estabeleceu uma nova ordem para o crossdressing no país. O travestismo brasileiro passa a se dividir entre antes e depois dele. Por quê? Porque veio acompanhado de um discurso eloquente que elevou o travestismo acima da qualidade de perversão? Pode ser, mas prefiro ficar com a hipótese de Raskólnikov: porque o cara é um gênio; e os gênios podem.

O mais dostoievskiano dos personagens nos ensina que os homens extraordinários têm direito a tudo, por serem capazes de fazer a humanidade evoluir. Nesse raciocínio, até as matanças mais cruéis de Napoleão se justificam, porque o general, convenhamos, fez um tremendo dum barulho e interferiu na história. Raskólnikov tentou justificar a si mesmo o assassinato de uma velha usurária com esse argumento, mas o crime só serviu para lhe provar o contrário — ele não valia nada. Pois Laerte fez agora sua tentativa e passou no teste.

Mesmo os cruéis usuários da internet se curvaram à depilação do cartunista. Quem não chegou ao extremo de traduzir sua opção pelo salto alto como coragem limitou-se a manifestar espanto. É difícil condená-lo. Ele é tão grande e já fez tanto que transforma o crossdressing num detalhe, não vira refém. Laerte obviamente ainda vai passar por constrangimentos na rua, porque nem todo mundo o conhece, mas, se havia em mim alguma dúvida, agora eu tenho certeza: dificilmente esse aí vai parar na Sibéria.

Anúncios

Written by Rodolfo Borges

Novembro 28, 2010 às 10:08 am

4 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. belo texto! continue escrevendo bem assim, que logo você poderá se vestir de mulher também.

    thiagones

    Novembro 28, 2010 at 10:41 am

    • Se mais um ou dois caras como o Laerte passarem a se vestir de mulher, seremos todos forçados a encarar isso como parte do processo evolutivo do homem. Pelo menos ganho uns centímetros no salto. Valeu!

      Rodolfo Borges

      Novembro 28, 2010 at 12:58 pm

  2. Ah, gente. Mas eu gostei das unhas vermelhas dele. =P

    Isabel

    Novembro 28, 2010 at 8:44 pm

  3. Huahuahaua. Quer dizer que o salto alto teria benefícios procê, Rodolfo? =P Falava sobre as travestis ontem, na minha apresentação de mídia e moralidade em uma das disciplinas do mestrado. De fato, os três destinos mais comuns delas no Brasil, como ouvi em uma palestra sobre saúde mental neste ano, são: prostituição, vício em drogas e suicídio. Talvez atitudes como a de Laerte, evocando a figura, tornando-a mais visível, ajudem a “aliviar” estigmas. Ou será que tal exposição reforça? Travesti também é gente, já diriam os Mamonas! Ou eu diria?!

    Diego Iraheta

    Novembro 30, 2010 at 9:17 pm


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: