Literatura de Verdade

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O Castelo

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Preocupada em evitar outro tumultuado fim de ano nos aeroportos, a Anac proibiu o overbooking em dezembro. A decisão nos parece sensata de tão óbvia, mas a Iata mandou avisar que não resolve nada, porque o problema é de planejamento, e ainda prejudica as companhias aéreas. Devemos nos preparar para mais um Natal Muito Louco nos aeroportos? Por via das dúvidas, vai uma lembrança em tom de aviso; era dezembro de 2007 e eu levava a Isabel ao aeroporto: é O Castelo (revisto e melhorado), mais um capítulo de Em busca do texto perdido:

Bateu asas e voou

O Castelo

Chegamos às 18h30 de uma sexta-feira. O vôo dela estava marcado para as 19h30, mas era impossível enxergar o balcão da companhia aérea. Uma multidão se amontoava à frente. O letreiro anunciava que o balcão da TAM era ali mesmo. Minha garota precisava viajar para Porto Alegre, e eu já me sentia como uma espécie de agrimensor K. O balcão da TAM era o meu Castelo. A diferença entre mim e a personagem do Kafka é que eu sabia que seria impossível alcançá-lo.

Entramos na primeira fila que distinguimos. Como não havia responsável direto pelas informações e não era possível se aproximar do balcão sem ouvir protestos, o jeito foi perguntar a quem estava por perto. Descobrimos que aquele local era reservado para quem já tinha perdido o voo. Ou seja, “para quem tinha um problema”. Nosso avião só decolaria dali a mais ou menos quarenta minutos. Ainda não tínhamos um problema e devíamos pegar outra fila.

Como a fila para quem não tinha problema era, ela mesma, um problema, sugeri que desistíssemos antes mesmo de iniciar a jornada. Eu li O Castelo. Durante todo o livro, K. tem a incômoda sensação de que não deveria estar na vila para onde fora chamado. Mesmo tendo recebido um convite do Castelo, era como se ninguém o tivesse convidado. Tínhamos comprado a passagem, mas me senti assim. Não me queriam ali. Só que a moça precisava viajar e aderimos a uma dessas filas cujo início não pode ser visto do fim.

Não tínhamos andado nem a sua metade quando o vôo para Porto Alegre foi remarcado para as 22h40. Já que estávamos ali, esperamos. O avião esperado deixou o Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek minutos depois do horário marcado, quando acabávamos de dobrar a fila. Tínhamos um problema e, enfim, merecíamos seguir o caminho em direção ao balcão por aquela outra fila, bem menor. Digamos que a mudança de lugar ocorreu por volta das 23h30.

Nos aproximamos muito pouco do balcão durante as três horas seguintes. O check-in tornava-se lentamente uma possibilidade enquanto a companhia aérea distribuía água e bolachas aos mais impacientes. Como do gerente para cima tinham todos ido embora, foram os atendentes que levaram as bolachas dos passageiros. Passava das 2h do sábado (o vôo fora remarcado para as 5h) quando um dos funcionários da TAM anunciou que todas aquelas filas seriam transformadas em apenas uma. Era o prenúncio de uma revolta popular. Foi quando deixamos o local, para voltar na manhã seguinte. Entre outros Josef Ks.

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Written by Rodolfo Borges

Dezembro 1, 2010 às 12:18 pm

Publicado em Crônica

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6 Respostas

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  1. Esse problema lembra os programas de fim de ano na tv: são especiais, mas todo ano se repetem.

    Leo

    Dezembro 1, 2010 at 1:13 pm

  2. Demais! Pena que não li na época! Teu texto foi extrahipersupervisual! Parabéns, com um delay de três horas. Minha parte favorita: a das bolachas. Espero que, quando o meu casal predileto decidir embarcar para a Inglaterra (a fim de me encontrar), o Castelo já tenha desmoronado.

    Diego Iraheta

    Dezembro 2, 2010 at 12:43 pm

  3. Delay de três anos, perdão. Aqui também eu vivo confundindo years and hours. Does Freud explain? =P

    Diego Iraheta

    Dezembro 2, 2010 at 12:44 pm

    • O resgate dos textos é para o pessoal que não teve acesso a eles quando escritos originalmente (todo o mundo, enfim). Será que conseguiremos aparecer na Inglaterra antes de teu retorno?

      Rodolfo Borges

      Dezembro 2, 2010 at 1:45 pm

  4. Está aí uma situação que eu não gostaria de lembrar se não fosse por meio de um bom texto de Rodolfo. =*

    Isabel

    Dezembro 4, 2010 at 12:11 pm


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