Literatura de Verdade

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Sob o sol de Satã

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A notícia de que a obra de Georges Bernanos será reeditada no Brasil pela Editora É me pareceu motivo o bastante para recuperar essa crônica aí — mas em época de papas, camisinhas e pedofilia um texto como esse não perde lugar. Foi escrito por ocasião do caso do padre Julio Lancellotti. Ao relê-lo, confirmei a impressão que tive em 2008, de que o livro me pegou de jeito — a ponto de deixar o que vai escrito tão confuso quanto eu estava depois da leitura; o técnico Ney Franco chamaria de uma “piração total”. Vamos Em busca do texto perdido (sempre revisto e melhorado), ainda sob o sol de satã:

Warning: heavy stuff

Sob o sol de Satã

Entre Satanás e Ele, Deus nos joga como sua última trincheira. É através de nós que desde séculos e séculos o mesmo ódio procura atingi-lo; é na pobre carne humana que o assassínio é consumado.
(Padre Donissan, Sob o sol de Satã)

O Ministério Público de São Paulo concluiu que o padre Julio Lancellotti, suspeito de se relacionar indevidamente com um jovem, é inocente. Segundo o MP, o religioso foi vítima de extorsão em vez de se aproveitar de um menor de idade, como o acusavam. Não conheço Lancellotti ou as pessoas com que se envolveu, mas alimentei a impressão de que ele era uma vítima. Não porque não tenha cometido crimes, mas por fazer parte de um grupo extremamente vulnerável.

Acho correto punir eclesiásticos por pedofilia ou coisa que o valha, mas também acho que o esses casos merecem análises mais detidas. Quer dizer, grande parte do que a religião cristã considera errado e classifica como mau faz parte da natureza humana — e quando digo natureza humana entendam desejo. Qualquer impulso que escape a sua devida repressão é um pecado em potencial; ou seja, o homem é ruim por natureza.

Não pretendo discutir a doutrina e reconheço, inclusive, sua importância nas dinâmicas sociais. O que quero dizer é que padres, bispos e fervorosos fiéis convivem diariamente com aquilo que acreditam ser o mal, não apenas por se relacionar com outras pessoas, mas porque eles também são homens. E isso, como vocês podem imaginar, não deve ser muito agradável.

O drama, contudo, é considerar que talvez essa personificação do mal em qualquer homem supervalorize o estrago potencial do desejo e, ao fazê-lo, aumente o fascínio pelo pecado, aumentando também a possibilidade de ele ser cometido. Falamos de homens, afinal, e para um ser humano a existência de uma lei é motivo suficiente para burlá-la. É razoável que, perante reduções tão simplistas, adeptos e profissionais da fé se sintam escandalizados, ultrajados (outros, quem sabe, diabolicamente pensem sobre a própria condição), mas repito que meu objetivo não é questionar dogmas. Eu só queria contar a história do padre Donissan.

Uma figura difícil de descrever, principalmente em poucas linhas, mas tomo a liberdade de defini-lo como um homem de fé em constante dúvida e, por isso, triste — apesar de ter entrado para a história como um santo. A confusão do eclesiástico motiva o autoflagelo periódico e o impede de levar uma vida serena. A situação piora quando ele se encontra com o diabo e recebe de presente a faculdade de enxergar a alma alheia.

Percebem a maldade? Não há modo melhor de se expor ao mal do que entrar em contato direto e permanente com o íntimo de todo e qualquer ser humano. Guardadas as proporções, é o que aconteceu quando o padre Lancellotti percebeu que um grupo de pessoas que ele imaginava ajudar não só levou seu dinheiro como o acusou de forma injusta. Lancellotti percebeu naquelas pessoas, enfim, o mal que tanto lhe fora anunciado.

Lancellotti e Donissan vivem, como todos nós, sob o sol de satã, expostos àquilo que foram educados a interpretar como mal, mas sem direito a experimentá-lo. Aos meus olhos hereges, reprimir esses desejos mais básicos de forma incondicional é mais que uma violência contra o próprio corpo: é um tipo de perversão. Digo, portanto, que ainda que se prove que o padre tenha feito algo de errado, ele é vítima. Nem que seja de Deus. Ou do diabo.

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Written by Rodolfo Borges

Dezembro 3, 2010 às 7:55 pm

2 Respostas

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  1. Meu caro, infelizmente não estava apreciando seus últimos textos, mas agora me coloco em dia com a leitura.

    Acho que você me contou a história desse livro, simplesmente genial.

    Matutando sobre questões e conversas recentes, reconheço a ingrata expoisição existente ao se “entrar em contato direto e permanente com o íntimo de todo e qualquer ser humano”. Sinceramente, acredito que isso demanda uma maturidade para poucos. Pouquíssimos. E aos desprovidos dela… resta algum protetor solar para esse sol que queima.

    Aliás, me lembro de um poema ultra curto, concluído com uma confissão: “Eu busquei a beleza e o sol me queima”.

    Talvez seja o mesmo sol (ou a mesma vulnerabilidade humana) de Satã.

    leopfq

    Dezembro 20, 2010 at 7:35 am

  2. Georges Bernanos, autor de clássicos como “Sob o Sol de Satã” (“Sous le Soleil de Satan”), tem sido publicada no Brasil pela É Realizações Editora, e agora tem também sua passagem pelo país narrada ao público local. O estudo de Sébastien Lapaque “Sob o Sol do Exílio: Georges Bernanos no Brasil (1938-1945)” acaba de ser publicado, trazendo à luz a visita de Bernanos a várias cidade do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sua estadia no sítio Cruz das Almas, sua revolta contra a mediocridade dos intelectuais e a ascensão do totalitarismo, sua amizade com pensadores brasileiros e a visita que Stefan Zweig lhe fez à véspera de se suicidar.

    Matérias na Folha de S. Paulo a propósito do lançamento do livro: http://goo.gl/O8iFve e http://goo.gl/ymS4lL
    Para ler algumas páginas de “Sob o Sol do Exílio”: http://goo.gl/6hAEOM

    Confira também:
    Diálogos das Carmelitas: http://goo.gl/Yy3ir3
    Joana, Relapsa e Santa: http://goo.gl/CAzTTk
    Um Sonho Ruim: http://goo.gl/Kd091z
    Diário de um Pároco de Aldeia: http://goo.gl/ISErLc
    Sob o Sol de Satã: http://goo.gl/qo18Uu
    Nova História de Mouchette: http://goo.gl/BjXsgm

    ANDRÉ GOMES QUIRINO
    mkt1@erealizacoes.com.br
    (11) 5572-5363 r. 230

    André Gomes Quirino

    Fevereiro 9, 2015 at 4:32 pm


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