Literatura de Verdade

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Os Certões

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“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. (…) Mas que entre os deslumbramentos do futuro caia, implacável e revolta; sem altitude, porque deprime o assunto; brutalmente violenta, porque é um grito de protesto; sombria, porque reflete uma nódoa — esta página sem brilhos…”
Euclides da Cunha, Os Sertões

Nas batalhas virtuais, a gente mata e morre por dentro (foto: Flávio de Barros)

A eleição de Dilma Rousseff à presidência da República fez emergir do fundo da alma dos brasileiros um sentimento anacrônico de disputa. É numa época de engatinhante protagonismo tupiniquim no mundo que ressurge a pendenga histórica entre os povos do sul e do norte, os últimos representados mais especificamente pelo nordestino, responsável, dizem as más línguas, pela eleição da nova presidente do país. Se não foram os nordestinos do Norte, foram os nordestinos do Sul, se impôs a constatação, e começaram a se formar os batalhões que salvariam a República de ser sugada a canudinho pelo moradores de uma até então esquecida região do Brasil.

O movimento cresceu dos dois lados. Afrontados, os nordestinos reagiram com empenho e o campo de batalha se estabeleceu. Eu mesmo, enquanto pernambucano, senti-me tentado a dar asas a meus jeffersonianos instintos mais primitivos e, como jagunço educado nas melhores instituições do país, desejei esmagar intelectualmente um paulistano qualquer que estivesse a passar pela rua — ou twitter, que hoje é mais rua que qualquer calçada. O discurso estava pronto; é como se, talhado em madeira durante 27 anos, esperasse apenas a oportunidade de se reproduzir em pano, papel ou bytes. Eu diria ao amigo do sul de foice e maracatu empunhados que não há maior solidão que a companhia de um paulista e que Recife é a melhor e pior cidade do país e que a Semana de Arte Moderna não ultrapassou em profundidade a rima de um bom cordel e evocaria o exército de Manueis Bandeiras, Joões Cabrais, Nelsons Rodrigues, Arianos Suassunas e o escambau que deixaram suas terras para fazer deste pais algo que o valha.

Mas não. Não me deixei cair em tentação. Guardei os impropérios na algibeira e segui matutando sobre a absurda divisão que me impunham; logo a mim, que frequentei o Sul e o Norte com igual assiduidade, que conheço paulistas, cariocas, mineiros, baianos, gaúchos e não encontro motivo além do sotaque para enxergá-los com olhar estrangeiro. Diante da reconstituição virtual da batalha ancestral de Canudos, lembrei que o homem do sul “não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do Equador. Não tem, no meio das horas tranqüilas de felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva”.

Essa ignorância impede o paulista de enxergar que ainda há preocupações mais básicas a um nordestino do que o alto nível de corrupção de um governo. É como se ele tivesse de dar mais alguns passos para chegar ao nível de exigência do eleitor ideal. O nordestino, amigos, ainda está sujeito a seguir um líder arrebatado por uma ideia fixa, mas de algum modo lúcido em todos os atos; alguém que impressiona pela firmeza nunca abalada e segue para um objetivo fixo com finalidade irresistível. Alguém, enfim, que durante os últimos anos conseguiu atingir o absurdo de lhes ser útil. Esse raciocínio me bastaria, mas, embalado pelos sertões, fui além para constatar sem teatralidade heróica que houve um movimento de cima para baixo nessa divisão do país; que não nos achamos diferentes, sulistas e nordestinos, mas, inocentes, fomos impelidos a nos dividir.

Há interesses, sempre os há, e eles se manifestam da forma mais cruel nos mais fracos, nos cangaceiros e soldados que somos. Foi Euclides da Cunha que me alertou. “Era um caso vulgaríssimo de psicologia coletiva: colhida de surpresa, a maioria do país inerte e absolutamente neutral constituiu-se veículo propício à transmissão de todos os elementos condenáveis que cada cidadão, isoladamente, deplorava”. Como à época de Canudos, as maiorias conscientes, mas tímidas, revestiram-se nestas eleições da mesma feição moral dos medíocres atrevidos que lhes tomaram a frente. E cito Euclides uma última vez, sob a pena de enfadá-los, mas certo de que cumpro o que aqui me propus: “surgiram, então, na tribuna, na imprensa e nas ruas — sobretudo nas ruas — individualidades que nas situações normais tombariam à pressão do próprio ridículo”. Que tal se, juntos, nordestinos, paulistas e afins ridicularizássemos todos eles?

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Written by Rodolfo Borges

Dezembro 5, 2010 às 10:21 am

6 Respostas

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  1. Excelente texto! O tempo te fez bem. Como escritor, és quase uma panela envelhecida. Comparar a divisão SP/NE à Guerra de Canudos não é coisa de rato magro, como diria o supracitado Jefferson. É este tipo de jornalista-escritor de que nosso País precisa! Atenção, editores, que porcaria de bastidores de política local/nacional, com faíscas e fiapos de tucanos e petistas, que nada! Eu quero é História e Política de verdade! E Literatura. Com Rodolfo!

    Diego Iraheta

    Dezembro 5, 2010 at 9:00 pm

    • Puxa, com uma carta de apresentação dessas me credito a ocupar pelo menos uma vaga no Senado (ou no STF).

      Rodolfo Borges

      Dezembro 6, 2010 at 10:27 am

  2. “individualidades que nas situações normais tombariam à pressão do próprio ridículo” – é exatamente isso. Não é um movimento, não é uma onda xenofóbica. É uma reunião, propiciada pela rede, de quem não sabe o que diz. O texto está muito, muito bom mesmo. Digno de um bravo nordestino. =)

    Isabel

    Dezembro 6, 2010 at 10:11 pm

  3. Dos Certões aos Sertões nós continuamos na metade da hipocrisia humana sendo “joguetes’ deste planalto pra lá de podre.

    Valeria Francabandiera

    Dezembro 7, 2010 at 4:42 pm

  4. seu melhor texto, sem dúvida! pelo visto, foi inspirado por Euclides…

    claudio dantas

    Dezembro 9, 2010 at 8:53 pm


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