Literatura de Verdade

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O som e a fúria

with 8 comments

Manda aquela do Legião, Bill!

Lou Reed passou pelo Brasil para reeditar um show de que pouca gente gostou quando apresentado pela primeira vez, há 30 anos. Eu não saberia reconhecer uma música do cara, mas consta — como descobriu o pessoal que deixou o recinto no meio do espetáculo — que é composta mais por distorções que por construções. Quem ficou por lá até o fim do show foi parar debaixo de escombros, que é onde mora a arte nos nossos dias.

Suponho que haja arautos do apocalipse cultural para todas as épocas. É sempre possível dizer que rumamos ao fundo do poço tendo como modelo os saudosos tempos de antanho. Mas vocês não têm a impressão de que a coisa degringolou desde que o pessoal escorregou na piração do Duchamp e passou a urinar de cabeça pra baixo?

Espera um pouco, eu queria dizer outra coisa. Ou melhor, é isso, mas não apenas isso. Olha, desculpa a confusão, mas é que a televisão me deixou burro, muito burro demais, a ponto de recorrer a letras dos anos 1980 pra me fazer entender. Perdi o fio de meada nos ruídos do Lou Reed e, se não bastasse, vem o Paul McCartney, na mesma semana, para jogar na nossa cara que não se faz mais música como yesterday, que é o que a gente quer ouvir mesmo.

Isso tudo confusoassimdessejeito não passa de uma tentativa desastrada de admitir a própria derrota. Desculpa, Franz, Fiódor, Marcel, Albert, a turma toda. Sabe aquele clássico sobre a condição humana que eu prometi pra próxima década? Não vai rolar. Foi mal, Thomas, Bill, Joaquim, mas acabei de me tocar que nasci na época da televisão. Zerei jogos de videogame demais e peguei a internet na crista da onda. Tão legal, mas o preço é alto demais. É papo de perdedor, eu sei, mas desde que inventaram esse modo de fazer passar o tempo sem precisar manter qualquer contato consigo mesmo a humanidade parou para não pensar.

“Sempre foi possível se divertir sem pensar”, dirão. Ora, não me venha dizer que olhar pelo buraco de uma fechadura é o mesmo que visitar um site pornô. Encaremos os fatos: você que nasceu da década de 1970 pra cá é meu parente, membro honorário da última geração dos Compsons. É decadência mesmo, primos, no melhor estilo Faulkner. Tudo Benjy, Quentin, Jason e Caddy, sem entender nada, suicidas intelectuais perdidos a olhar a chama que queima na tevê com som stereo e fúria mal dissimulada.

Eu tenho tentado, tio Luís, tio Dante, tio Honoré, mas olha onde fomos parar. É idade das trevas mesmo. O leite derrama e o pessoal grita, chora, a coisa toda é um lamento só. Nossos maiores são tão humildes. Vamos falar a verdade: Proust não escreveria Em busca do tempo perdido se tivesse conhecido o Mario Kart. Sabia que Flaubert leu mais de 1.500 livros pra escrever Bouvard e Pécuchet? Mil e quinhentos. Vocês imaginam um cara desses parando a leitura para ir jogar Pro Evolution Soccer? Só nós mesmo.

São distrações demais e o prazer do alheamento é tão bom. A música vai no fone de ouvido cantando que é tudo harmonia e a gente desliga. E tem gente que ainda tenta, mas é triste, porque eles não saem nem de dentro de si mesmos, é só aquilo ali tentando se resolver no enredo combinado do RPG. Só que eles sabem fingir. E quando eles fingem esse pouco parece tanto. Tanto que chego a pensar que vale a pena tentar. A coisa tá tão preta que a mísera leitura dum livro de 600 páginas se tornou um ato de heroísmo. E é tão bom virar herói. Mocinho de novela… Pensando bem, esquece tudo que eu escrevi aí. Talvez valha tentar o tal do grande romance. Dependendo da crítica, tiro a sorte grande e disputo um reality show. Ou é pedir demais?

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Written by Rodolfo Borges

Dezembro 10, 2010 às 12:23 am

8 Respostas

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  1. Nostálgico e pessimista este escritor. Que Fiódor, que nada! Estás mais para Theodor Adorno, o arauto da indústria cultural! Olha, os intelectuais sempre foram minoria. É sempre mais simples e cômodo – ou às vezes é a única opção – se pausterizar na massificante onda (do imperador, do MarioKart, internet, site pornô). Só questiono se há cem, duzentos anos, outros escritores como você não se queixavam de seus contemporâneos acéfalos e pouco integrados às letras…

    Diego Iraheta

    Dezembro 10, 2010 at 6:50 am

    • Tenho certeza (mesmo sem saber, porque a internet me permite) que sempre houve os tais arautos do fim do mundo artístico; só que no caso eu também sou contemporâneo acéfalo. A tevê é a tevê e vice-versa. Ninguém se salva.

      Rodolfo Borges

      Dezembro 10, 2010 at 8:59 am

  2. Neguin pegou pesado.

    Rodrigo Borges

    Dezembro 10, 2010 at 9:14 am

  3. é tapa na cara da cybesociedade. ou é tapa na pantera?

    mira

    Dezembro 10, 2010 at 10:14 am

  4. This is a great post. I love soccer game. Actually im a retired player from australia..5 stars for you..

    Richard Ramsden

    Dezembro 10, 2010 at 1:14 pm

  5. Entretenimento: além de dar uma coceirinha boa ao se pronunciar, troca o escafandro pelo snorkel. Mergulho na superfície permite muito mais agilidade, mas, no máááááximo, te deixar contemplar, não brincar de protagonista.

    leopfq

    Dezembro 20, 2010 at 7:50 am


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