Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

O homem que foi Quinta-feira, Sexta, Sábado, Domingo, Segunda

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Funcionário do mês

Só se fala noutro assunto. Descobrimos que a Pfizer remediou a vida de 11 criancinhas na Nigéria, que as tropas americanas pegaram pesado no Afeganistão e que o Vaticano escondeu as mãos de seus padres debaixo da batina do papa, mas a notícia mesmo é o fofoqueiro Julian Assange, o Nelson Rubens da diplomacia mundial, nosso homem da semana, do mês — do ano? Acometido por um caso crônico de incontinência documental, Assange vazou uma penca de informações sigilosas, entre elas a já clássica comparação entre a dupla Putin e Medvedev e os justiceiros Batman e Robin, que na minha modesta opinião poderia ter sido divulgada há mais tempo.

Por causa de tudo isso, ou melhor, por ter provocado gritos e sussurros a duas meninas na Suécia, o australiano foi preso e um batalhão de hackers saiu em seu favor. Também senti vontade de encampar a defesa do nosso Bakunin virtual, o rosto dos ardilosos segredos revelados pelo WikiLeaks, mas não consegui. O problema é que eu tenho essa dificuldade de confiar nas pessoas, principalmente em quem não conheço. Não é natural, eu sei, é bom levar os outros a sério, esperar o melhor do próximo, mas, puxa, isso é difícil… bem, vai a confissão: o carola G.K. Chesterton roubou a minha inocência há cinco anos. Não à moda ortodoxa dos padres, por favor, mas tão eficiente quanto.

Fui violado por um livro chamado O homem que foi Quinta-feira; pronto, falei. É difícil pra mim, compreendam. Mas olha o título que o cara botou no livro. Era uma tarde escura e tempestuosa e eu tava de bobeira na biblioteca. Aí apareceu aquela encadernação pequena, desgastada, uma capa cinza, meio sem graça, mas que usava esse título sedutor, provocante, e veio na minha direção se insinuando, toda saliente. Ficamos juntos por algumas semanas. Eu era tão novo que cheguei a escrever poemas pra ele. Ainda é complicado tocar no assunto, desculpem o constrangimento; eu só queria dizer que não é possível ler um livro como esse e continuar acreditando que as coisas são exatamente o que parecem.

Chamem de paranóia — depois de tudo que foi dito, não nego minhas perturbações — , mas vocês sabem de que lado Julian Assange está?  Ou pelo menos quais são suas razões para publicar as informações, para quem ele trabalha, qual é seu Beatle favorito, sei lá, algo que lhes permita tomar partido? E se, em vez de atacar os Estados Unidos, ele estiver mirando no atual governo, no simbólico Barack Obama? Os hackers continuariam defendendo Assange se descobrissem que ele é na verdade o grande cabo eleitoral de Sarah Palin?

E se a revelação das maldades da Pfizer forem patrocinadas pela Bayer? Aí a coisa toda perde a pureza. Descobrir que a derrubada do site do Mastercard foi patrocinada pela Bayer não tem preço. Quer dizer, tem sim, e alguém vai pagar. Bem, pode ser que não. Vai saber. Com o pouco revelado você já conseguiu tomar partido nessa história? No mais, desculpa qualquer coisa. O Chesterton tava engasgado aqui na cabeça.  Espero não ter te molestado. Muito.

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Written by Rodolfo Borges

Dezembro 14, 2010 às 8:21 am

4 Respostas

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  1. Divertido e provocador! Ler suas proesias certamente não me deixa esquecer o português fluente – minha língua de cabeceira. No mais, confesso que me pegou de surpresa ler em Rodolfo “pronto, falei”. Mas se isso tudo é pra sua literatura se adequar aos padrões pós-modernos de batinas, molestadores e inocência roubada, eu compreendo.

    Diego Iraheta

    Dezembro 15, 2010 at 6:30 am

  2. É pra ficar factível e natural. Pode ficar tranquilo. =)

    Rodolfo Borges

    Dezembro 15, 2010 at 7:06 am

  3. É natural tomar partido, é compulsório isso. A gente até tenta refletir, mas a parcialidade é sorrateira e eficiente.

    Obs.: você contou a história do livro, fantástica! Senti falta de um breve resumo.

    leopfq

    Dezembro 20, 2010 at 7:57 am

    • Pois é, nesse eu fiquei sem contar mesmo, pra provocar o visitante a buscar o livro, nem que fosse um resumo na internet. Fiquei com vontade de botar os poemas que eu de fato escrevi baseados no livro, mas ainda penso em como fazê-lo.

      Rodolfo Borges

      Dezembro 20, 2010 at 8:26 am


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