Literatura de Verdade

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A morte e a morte de Lula Berro D’água

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É, presidente, o mandato está acabando. E, em homenagem aos oito anos de governo Lula, recupero mais um texto que marca uma polêmica marvada que povoou o Planalto nos últimos anos. Vem Jorge Amado Em busca do texto perdido especial Presidência, direto de agosto de 2007:

Deixa o homem bebericar

A morte e a morte de Lula Berro D’água

Ensaiou-se nos últimos dias mais uma crise moral contra o presidente da nossa República. Lula aproveitou uma visita à Jamaica para fazer propaganda da cachaça brasileira. Disse que, quando o mundo conhecer a branquinha, o uísque vai perder mercado. Nada demais. O presidente está fazendo o dele, vendendo a gente lá fora. O problema é que, enquanto o mandatário máximo viajava, o ministro da Saúde promovia por aqui sua campanha nacional de alerta sobre os perigos da bebida alcoólica. Aí o pessoal caiu em cima do presidente.

As críticas públicas sobre o pretenso fraco de Lula pela bebida ganharam muita força depois da reportagem de Larry Rotter, em 2004. O gringo ousou expor o que muita gente sempre preferiu deixar pra lá e nós, talvez por achar que pegaria mal permanecer quietos, reverberamos a crítica. O que me leva a constatar que houve ali uma primeira morte do presidente, senão física, pelo menos moral, como diria Jorge Amado.

O baiano contou a história de Quincas Berro Dágua, homem respeitado por tudo e todos até se render aos prazeres da boemia e morrer simbolicamente para a própria família. Conto a história de Lula, líder sindical revolucionário que perdeu a admiração de muitos após virar presidente e de alguns depois da reportagem de Rotter. Desde aquela matéria do New York Times, me pergunto por que matamos o presidente moralmente utilizando a cachaça como arma. Os americanos são bichos pragmáticos. Na América, o presidente perde o mandato por ter mentido. Mas nós, brasileiros, tão cheios de malemolência, nos preocupando com uma cachaça a mais ou a menos… Pra que isso, minha gente? Maiakovski dizia que é melhor morrer de vodka que de tédio e nós devemos toda a bossa nova a duas ou três garrafas de uísque — por dia.

Há tanta coisa mais importante do que reclamar. Quem era fã do revolucionário pode cobrar o distanciamento do ideal vermelho. Quem simpatiza com o PT está em posição privilegiada para exigir imediata reaproximação pública com os companheiros que foram ficando pelo caminho. E aqueles que nunca gostaram de Lula podem reclamar de todo o resto: mensalão, quebra de sigilo bancário de caseiro, crise aérea, falta de comando, Lulinha, Vavá, Renan Calheiros, etc. Mas bebida não, pessoal, que a coisa fica artificial demais. Deixa a condenação da cachaça pros livros do Jorge Amado.

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Written by Rodolfo Borges

Dezembro 22, 2010 às 8:44 am

5 Respostas

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  1. Vou sentir tanta falta do Lula. Dilma não bebe nem vinho!

    tati

    Dezembro 22, 2010 at 1:37 pm

  2. Maluco, o cara terminou o mandato com 200% de aprovação. Tem mais vidas do que gato.

    leopfq

    Janeiro 3, 2011 at 8:52 am

  3. Água que passarim não bebe, nosso presidente desafia. E olha que eu contestei o artigo de Larry Rotter em 2004. Lembra?

    Diego Iraheta

    Janeiro 3, 2011 at 10:49 pm


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