Literatura de Verdade

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Os ferreiros

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Uma semana, Lula, ou menos que isso. O governo termina bem, popular. Mas, quando vou atrás desses textos antigos, percebo curiosamente que, vejam só, o clima não foi sempre tão bom. Pelo contrário. É até esquisito, a gente não lembra. Mas está aí a vaia do Maracanã para mostrar que a passagem de Lula pelo comando do país foi controversa. A jogada brilhante do presidente foi reverter esse quadro. O convidado do Em busca do texto perdido especial Presidência é Rimbaud:

Em algum dia de julho de 2007

Os ferreiros

Não se sabe ao certo por que o presidente Lula foi vaiado no Maracanã. Pode ser porque chegou atrasado à abertura dos Jogos Panamericanos, porque o parlamento atravessa uma crise ética e moral ou simplesmente porque metade dos presentes no estádio Mário Filho naquele dia desaprovava o governo do presidente. Difícil cravar a explicação correta, mas esse enfrentamento da autoridade me lembra um poema do Rimbaud que pelo menos torna a história mais interessante.

O Ferreiro narra o esculacho de um homem do povo no rei Luís XVI — os versos aludem a uma cena que teria ocorrido durante a Revolução Francesa. Bem articulado, o ferreiro diz “palavras brutas e coisas chulas” a um rei “pálido como um vencido a caminho da forca”. Não se pode chamar a multidão que vaiou Lula de eloqüente, nem mesmo compará-la a um homem do povo (para participar era preciso pagar pelo menos R$ 150), mas uma boa vaia, de quem quer que seja, vale mais que mil palavrões.

Durante a bronca, o ferreiro pronuncia impropérios que podem nos explicar o que ocorreu na abertura dos jogos: “Depois, estejas certo, tu pagarás caro junto com teus homens de negro, que pegam nossas solicitações para brincar e, espertalhões, dizem em voz baixa: ‘que idiotas!’, a cozinhar as leis, a colar na parede os pequenos potes cheios de decretos cor-de-rosa e a droga toda, felizes a ditar as regras a seu gosto e tapar o nariz quando nós passamos por perto”.

Escutem o ferreiro. Lula pode não ser o único alvo das vaias. Talvez ele as tenha recebido em nome do Congresso Nacional, no lugar de Renan Calheiros, de Joaquim Roriz, de Gim Argelo, Sibá Machado, Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, Paulo Maluf e o resto do pessoal que elegemos. Não é o presidente que manda em todos eles? Costumamos reclamar aos gerentes.

Talvez o povo — uma parte mais bem abastada dele, mas ainda povo — tenha descontado suas frustrações no presidente, como fez o trabalhador de Rimbaud. Pode ser. Vai saber; mas ainda que nunca descubramos o exato motivo das vaias do Maracanã a Lula, é certo que não faltaram razões para elas.

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Written by Rodolfo Borges

Dezembro 26, 2010 às 10:29 pm

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