Literatura de Verdade

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As intermitências da morte e o fator previdenciário

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Acho que ela tá te deixando ganhar, meu velho

No dia seguinte ninguém morreu. Quer dizer, morreram menos pessoas (que isto não é livro do Saramago), graças a nossos persistentes desafios à morte. Diante de tanta empáfia, ela foi dando corda, dando corda e, em vez de nos enforcarmos, optamos por nos dependurar pelo fio por cada vez mais tempo. Numa análise simplista, avançamos no campo de batalha: demoramos mais a morrer e, assim, aproveitamos os prazeres da vida regados ao elixir de Viagra que nos levará harmoniosamente à quarta idade. Mas caímos mesmo é numa bela duma armadilha.

O prolongamento do gozo terrestre vem acompanhado por um monte de problemas, e eu diria que o maior deles é ter de trabalhar por mais tempo. Os franceses estão quebrando o pau porque a reforma da Previdência reza que os velhos vão ter que se aposentar mais tarde, o que deixa os jovens sem emprego. Não me venha com essa de que o trabalho dignifica o homem e que o Brasil tem muito feriados. A gente trabalha pra ganhar dinheiro o bastante para um dia não precisar mais trabalhar — a não ser os pervertidos que conseguem tirar prazer da coisa, mas aí é fetiche. E logo agora que é possível aproveitar a velhice com um pouco mais de dignidade, vem o Estado lembrar que alguém precisa pagar a conta.

Mesmo diante do fato de que viver mais significa trabalhar mais, continuamos esticando a corda, atrás apenas da parte boa. Mas tudo tem uma consequência, pessoal, e uma hora vai ser a nossa vez de ir às ruas protestar contra nossos anos de vida a mais. Diante da confusão, não consigo pensar no assunto sem imaginar que a morte deve estar em algum lugar, do alto de sua inevitabilidade, rindo da nossa incapacidade de lidar também com a vida e debochando dessa história de proibir eutanásia enquanto arremessa foices em fotografias de Oscar Niemeyer e José Alencar, os mártires invertidos da vida enquanto atitude política diante… bem, da morte. É um senso de humor mórbido, eu sei, mas, neste caso, por definição. Ei, alguém tem que se divertir com isso tudo, e se não for a morte, quem será?

Faz um tempo, li uma fábula num Puchkin sobre o urubu e o gavião… não me recordo exatamente quem puxou a conversa, mas o gavião estava espantado diante dos hábitos alimentares do urubu, que curtia um belo dum cadáver. O urubu justificava que o animal assim, apodrecido, não era tão saboroso quanto uma carninha fresca, mas também não o expunha aos riscos da batalha pela vida ou às câmeras indiscretas do Discovery Channel, permitindo-lhe uma vida mais longa e discreta que a do gavião. Olha o dilema: você prefere passar 110 anos comendo carniça com granola ou 80 no filé com fritas quentinho e calórico? Acho que já fizemos nossa escolha. Agora é comer a carniça.

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Written by Rodolfo Borges

Janeiro 2, 2011 às 9:38 pm

4 Respostas

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  1. Meu caro, excelente! Muito bom mesmo!

    leopfq

    Janeiro 3, 2011 at 9:24 am

  2. Huahauhauahau! Demais mesmo, escritor! Viva a inspiração de 2011! Pessoalmente, creio que sou um pervertido. A boa nova: lia Lya (!) Luft. E ela faz uma bela contra-apologia ao trabalho. Mais detalhes, breve, em meu blog. Luftei.

    Diego Iraheta

    Janeiro 3, 2011 at 10:19 pm

  3. Enquanto isso, no Rio… http://link-shrink.com/8045

    Isabel

    Janeiro 5, 2011 at 10:39 pm

  4. E antes que passe em branco, a discussão é boa, e o texto está ótimo. “Mártires invertidos da vida enquanto atitude política diante da morte”… só você… =P

    Isabel

    Janeiro 5, 2011 at 10:41 pm


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