Literatura de Verdade

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A janela de esquina do meu Mac

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Sempre tive dificuldade para participar. Fazer parte de grupos, tomar partido, defender ideias, militar, me juntar a passeatas, essas coisas. Vida política praticamente nula. É um lance meio ceticista, misantropo até, que costuma me levar a um silêncio quase permanente. Parece que tem até gente publicando livro por aí sobre o ceticismo da nossa geração. Encontrei meu grupo. O militante político diria babando que sou daqueles que ficam em cima do muro. Gosto de dizer que sou o próprio muro, não apenas para me sentir magnânimo, imponente ou melhor que os outros, mas por causa da minha tendência a desabar por cima de quem pretende me empurrar para um dos lados. É o meu demente senso de equilíbrio ideológico agindo instintivamente, mais forte do que eu. Bem, o fato — e vamos direto ao ponto — é que essa atrofia participativa desenvolveu em mim a faculdade de observar.

Nisso de observar mais que participar a gente vai aprendendo a sacar as pessoas, criar e reconhecer tipos. Não deixa de ser um passatempo pra quando falta um livro à mão e tem se revelado um eficiente campo de força, mas essa é outra história. Eu só queria dizer que, para um observador como eu, a internet tem se mostrado um campo fértil — e de ervas daninhas. Não dá exatamente para ver as pessoas fisicamente, mas é nesse ambiente de pretenso anonimato que elas tendem a se mostrar mais e a revelar seus pensamentos com um despudor inédito, a não ser em casos clínicos. É nesses momentos de segurança, quando achamos que não tem ninguém olhando, que nos sentimos mais à vontade para liberar as intimidades. Nesse sentido, não há nada mais libertador que uma caixa de comentários.

É nesses fóruns espalhados por blogs, youtubes e twitteres que busco a essência excretada do homem moderno. No século 19, E.T.A. Hoffmann avaliava a humanidade de uma janela virada para o Gendarmenmarkt. A praça hoje é virtual e eu espio pelo meu Mac. Tá vendo aquele cara que critica o vídeo mal feito só porque não tem nada melhor pra fazer? E aquele mala que, por mera falta de concentração, sai distribuindo palavrão antes mesmo de terminar de ler o texto que acabou de comentar? E o destemido que condena o inocente e inocenta o culpado só pra tumultuar? Ah, as lições de moral bem dadas, que desperdício de bytes. Tem também uma figura curiosíssima, o letrado, estudado, pós-graduado, especializado em qualquer coisa que busca na rede um espaço para dizer o que ninguém parece interessado em ouvir. Tamo junto!

Mas o pior é o militante político. Eu achava passeata uma coisa chata, aqueles gritos de guerra rimados, mas descobri que é ainda mais torturante acompanhar o raciocínio do militante nas suas tentativas de tirar sentido de onde não há. São debates de surdos as discussões da internet. E, confesso, a minha curiosidade mórbida me leva vez ou outra a olhar por essa janela (que é mais como um buraco de fechadura) e, como ninguém é de ferro, a sacanear geral. Pois é, também sou humano. Criei até pseudônimo inspirado em Voltaire, coisa fina, elaboradíssima. É claro que mantenho a classe, não conseguiria fazer diferente, mas soar lúcido nesses espaços não deixa de ser um tipo de contravenção, anarquia pura. Ei, não me olha assim. Sou um de vocês e você é um de nós. Ou vai dizer que o Hoffman não cuspia lá de cima?

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Written by Rodolfo Borges

Janeiro 8, 2011 às 12:14 am

4 Respostas

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  1. Debates de surdos… já fiquei com essa mesma impressão lendo caixas de comentários. E tem esses tipos que vc comentou mesmo, é muito curioso.

    Leo

    Janeiro 8, 2011 at 7:44 am

  2. Hahahahaha!

    Rodrigo Borges

    Janeiro 8, 2011 at 7:48 am

  3. Fazendo um inventário dos tipos virtuais? Seria um Balzac contemporâneo? Aliás, eu acho um saco militância política surda no Facebook. E não lhe julgo um mero observador. Porque ser político, politizado, pode ser simplesmente observar, tomar partido mental e se juntar à turma dos céticos que cospe lá embaixo. Política é baseada em conflito. Não falo em armas, mas em divergências. Seu muro pode não ser o de Berlim, meu amigo, mas é sim ideológico.

    Diego Iraheta

    Janeiro 8, 2011 at 1:32 pm


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