Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

A marca humana

with 11 comments

Demorou mais do que eu esperava, mas o sistema de cotas para negros enfim tropeçou nas próprias pernas, graças ao Palácio do Itamaraty. A partir deste ano, os candidatos que se declararem negros terão privilégios ao prestar o Rio Branco. Bem, não dá pra falar exatamente em privilégio, porque a forcinha só vale para a primeira fase do exame, e essa foi só uma das pisadas de bola da decisão. Desse modo, apenas na etapa mais fácil, a cota não passa de uma medida demagógica, meramente protocolar, política, enfim, no pior sentido da palavra. Mas o que pega mal mesmo é o fato de o Rio Branco já exigir diploma de ensino superior para a inscrição, ou seja, para ser candidato, é preciso ter competências equivalentes. Assim vocês acabam me convencendo que os negros são intelectualmente inferiores aos brancos.

Eu sei, as cotas visam a colorir ambientes historicamente ocupados pelo macho adulto branco sempre no comando e compensar a falta de oportunidades que o racismo impõe aos negros. Mas aí vem aquela incômoda constatação de que no Brasil rola um lance de miscigenação que os norte-americanos, precursores das cotas raciais, não entenderiam — não sei vocês, mas eu não me espelharia no exemplo de um país que cultiva bairros e seriados de TV só para negros ou brancos. Aqui no Brasil tem isso de as pessoas de cores diferentes se misturarem. Sou fruto disso, é possível que você também seja. Aqui tem o tal do pardo, que pode optar por ser negro, dependendo da conveniência. Nos Estados Unidos não é bem assim.

Parece óbvio, movimento pelos direitos civis, Martin Luther King, Rosa Parks, a gente conhece aquela história toda, mas me toquei mesmo da diferença entre nós por acaso, no meio dum livro do Philip Roth. A Marca humana conta a história de Coleman Silk, um professor universitário que se envolve numa enrascada quando pergunta aos alunos se dois de seus colegas que não apareceram nas cinco primeiras semanas de aula eram de verdade ou meros spooks (fantasmas). O problema é que o termo spook costumava ser usado, num passado distante, para designar pejorativamente negros e, vejam só, os dois alunos que nunca tinham aparecido na aula eram negros. A acusação de racismo foi automática e virou a vida do cara de cabeça pra baixo, mas eu quero chamar atenção mesmo é para o fato de Coleman ser negro. Quer dizer, ele é negro, mas apenas de pai e mãe. Um negro branco, branco negro, ou o que conhecemos por pardo. Vítima de discriminação quando adolescente, por andar entre negros, Coleman decide renegar a família, se alistar como branco na Marinha e ir estudar em outra cidade, onde leva uma vida de branco. E as pessoas o tratam como tal, a não ser os poucos que descobrem que aquela cor indefinida é na verdade negra.

Não consigo encaixar essa história por aqui, do lado debaixo do Equador. Existe racismo no Brasil. Há pessoas que tratam negros e brancos de forma diferente sim, porque, antes de tudo, acreditam que há negros e brancos. Percebi isso quando tinha oito ou nove anos e uma colega de turma se recusou a dar a mão a um menino de pele bem escura na roda de São João. Concordamos que o racismo existe e que, consequentemente, deve ser combatido, mas se espelhar no exemplo americano é inocência, uma simplificação boba e nociva. Essas cotas não apenas não vão contribuir para solucionar o problema como, na sua ânsia por diferenciar, confundem tudo por aqui e atrapalham nossa busca pela igualdade. Sinceramente não consigo entender por que elas viraram carro-chefe da política de igualdade racial. É preciso dar um passo à frente, abandonar as amarras do remorso paternalista e não se deixar seduzir pelo caminho aparentemente óbvio da compensação que não compensa.

Só eu acho ridículo quando um brasileiro vai buscar suas raízes na África? Ora, ele é brasileiro e tem o direito de se encontrar por aqui mesmo. Merece lugar entre nós, mas é convencido a escapar em busca de antepassados negros incógnitos que, eles também, escravizaram negros, porque isso de submeter os outros só se transformou em questão de cor por detalhe. E a sublimação se perpetua no discurso de que são coitados, de que sofrem na memória afetiva que lhes incutem os racistas a lhes convencerem de que não falham, não erram, são vítimas, isso sim, de um mundo injusto que desrespeita sua cor. Pobres dos pobres que também são, foram e serão desprezados pelo Estado e não têm nem a cor para usar como moeda de troca.

Haverá racismo enquanto existir o discurso de um lado ou do outro, enquanto houver a discriminação nefasta ou a demanda de um grupo por prerrogativas apoiadas em restrições passadas a um povo que não era exatamente um povo, que chegou falando dialetos diferentes e aprendeu por aqui a falar a mesma língua de quem é pardo ou branco ou amarelo ou vermelho. Não caiam nessa de aceitar esmola, de se submeter a rebaixamentos fruto do capricho de aquarelistas interessados em separar as cores num país onde as tonalidades já vêm se misturarando há décadas. É preciso corrigir nossa rota, antes que a gente volte a ficar diferente demais para se entender.

Anúncios

Written by Rodolfo Borges

Janeiro 11, 2011 às 11:12 pm

11 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Acontece que a diferença já existe, Rodolfo. Já somos diferentes e, como tal, tratados de forma diferente. Boa parte da geração de nossos pais foi criada com o racismo, homofobia, machismo e xenofobia contra estrangeiros ou nordestinos como pilares de sua educação. Posso olhar para pessoas próximas e compreender, de forma bastante clara, como esses tipos de preconceito distintos foram se perpetuando. É claro que os valores e princípios que nos foram ensinados também foram afetados por essas ideias de segregação. Logo, a sociedade atual pode ser um pouco, mas é só um pouco mesmo, menos racista, homofóbica, machista e xenofóbica que a anterior. E esse pouco menos não resolve pra quem faz parte de “minorias”, aqui no sentido oposto ao “macho adulto branco” que você ironizou em seu texto. Discursos não faltam. “Ih, mas essa empregada veio do Nordeste”. “Não sei se vai durar, a família é de negro, você sabe, né”. “Esse aí é bicha, não dá pra confiar”. “Ô, salvadorenho, quem manda nesse táxi e nesse país aqui sou eu”. “Se uma mulher urologista me atendesse, eu ia mandar ela me chupar”. Meu amigo, eu ouvi todas essas frases em contextos diferentes. De pessoas diversas. Alguns, familiares e amigos. Outros, só conhecidos. Me diz: como mudar? Como alterar pensamentos que forjam a sociedade e se tornam ideologias fundantes e dolorosas? Quem sofre discriminação pela cor da pele vai fazer o quê? Chorar? Se eu sofri efeito bullying, deveria ter feito o quê? Ter deixado a vida me levar. Vejo críticas em seu texto, mas não encontro soluções nele. Talvez não seja mesmo sua intenção, mas dizer que “haverá racismo enquanto existir o discurso de um lado ou do outro(…)” não é suficiente. Porque o discurso do outro lado, que pressiona, que fere, que exclui, é dominante. Está incorporado no imaginário coletivo. Não vai deixar de existir por mágica. Por isso, deve haver iniciativas que enalteçam a diferença e a diversidade. E é aí que entram as ações afirmativas – tratar de modo distinto o que a sociedade e a cultura brasileiras JÁ tratam de forma diferente. O problema não é celebrar a nossa africanicidade (sic), mas sim romper com o eurocentrismo da nossa História, do que aprendemos à mesa com papai e mamãe, e na escola com a tia. E que vai pra mídia, está na imprensa, negro ladrão, cadê o médico negro?, negro malandro, onde está o diplomata negro? Da mesma forma que a mestiçagem faz parte da cultura brasileira, a invisibilidade do negro, da minoria, da diferença também faz. Já que você citou a questão da escravidão africana – no meu entender, de forma muito superficial – vamos pensar na lógica da miscigenação brasileira. Foi o embranquecimento da população que guiou a miscigenação! “Vamos tornar o brasileiro um povo asséptico, com a menor quantidade do componente negro possível”. E quem sobra hoje, com aspecto de negro, tem cabelo “ruim”, nariz “feio”, “beiço de preto”. Entre não fazer nada e arriscar, eu voto mil vezes em tomar uma atitude. E creio que as cotas são uma possibilidade e, mais, estão surtindo efeito. No mais, o texto é válido para discutir o tema. Respeito sua opinião, mas discordo frontalmente dela. Abraço.

    Diego Iraheta

    Janeiro 13, 2011 at 1:19 pm

    • Você acerta ao indicar a falta de uma proposta alternativa no texto, porque essa realmente não era a intenção dele. Não discordo que haja racismo, como disse, mas discordo da forma como optamos por enfrentá-lo. Há alternativas? Por incrível que pareça (e digo isso porque, pelo jeito, não conseguimos ir muito além das cotas, o que não faz delas boas ou corretas), há: promovendo a igualdade em vez de promover a diferença. Somos diferentes sim, individualmente diferentes, e seremos diferentes em grupo se assim optarmos, formando guetos: a cota dos negros, a cota dos índios, a cota dos gays (que tal?), a cota das mulheres, a cota dos deficientes físicos (a única que eu acredito que se justifique, além de cotas para quem não tem condição financeira), a cota dos anões, a cota dos tímidos, a cota dos daltônicos. Você, alías, acabou de me dar uma bela ideia pra um próximo texto sobre o assunto. Acho que nele dá pra avançar um pouco nesse sentido que você apontou.

      Não defendo que quem se sinta vítima de racismo ouça calado ou fique chorando. Tem uma passagem nOs Certões em que defendo exatamente o contrário. Mas não acho correto reivindicar respeito por meio de privilégios, principalmente baseado numa coisa que eu não reconheço, que é a existência de raças humanas. A cota racial não passa do sistema mais consistente de retroalimentação do movimento negro. Quer dizer, você põe institucionalmente o carimbo de negro no cara e, ainda que ele seja mais branco do que negro (pardo, sei lá), passa a compor um grupo à parte. Nem falei sobre isso, mas é uma loucura mesmo pensar que a raça voltou a se tornar algo institucional.

      Disse e repito aqui que essa cultura do preconceito não vai sumir enquanto houver uma justificativa para embasá-la, que, no caso, é a crença na existência de raças. Obviamente que isso não vai sumir por mágica (tendo a acreditar que nunca vai sumir), mas reforçar diferenças não me parece, como disse, o melhor jeito de evitar que elas nos tornem ainda mais diferentes (mais diferentes até do que somos).

      Acreditei nas cotas quando elas surgiram no Brasil exatamente por isso que você comentou, de que pelo menos alguma coisa estava sendo feita. Pensava que não era o ideal, mas era alguma coisa. Mas duns tempos pra cá me toquei de que não estava ajudando. Acho que quanto mais o negro se sente negro e não simplesmente humano ou brasileiro, pior. Nossa divisão em dois grupos distintos não é o meu mundo ideal. Daqui a alguns dias publico esse outro com alguma proposta. Valeu!

      Rodolfo Borges

      Janeiro 13, 2011 at 2:12 pm

  2. Só pra esclarecer: o tópico que me pareceu superficial foi “escravidão africana pelos africanos”. Tenho uma outra perspectiva sobre o tema. Mas pruma mesa de bar.

    Diego Iraheta

    Janeiro 13, 2011 at 1:32 pm

    • Ainda não li lá em cima, mas não falei de africanos que escravizaram africanos, e sim de negros que escravizaram negros (quer dizer, que se valeram de outras justificativas que a cor para submeter um povo, um grupo, alguém).

      Rodolfo Borges

      Janeiro 13, 2011 at 1:36 pm

  3. Pensemos uma solução alternativa, então. Aguardo novo texto a respeito.

    Diego Iraheta

    Janeiro 13, 2011 at 2:18 pm

  4. Acho que, até agora, o Rodolfo tá ganhando.

    Rodrigo Borges

    Janeiro 13, 2011 at 2:37 pm

    • Não vejo este debate como uma simples questão vitória-derrota. Dizer “pensemos uma solução alternativa” não significa que me convenci. Espero certamente algo que possa se equiparar às cotas. Caso contrário, torço para que sejam mantidas.

      Diego Iraheta

      Janeiro 13, 2011 at 7:22 pm

      • Diego, acho que ele não se baseou nisso de alternativa pra definir a vantagem. Outra coisa: esse lance aí de “equiparar às cotas” é meio complicado, porque nossa discordância é conceitual. Você acredita na existência de raças, eu não.

        Imagino ter mostrado simplesmente como as cotas são ruins. Qual seria a melhor alternativa? No próximo texto sobre o tema, pretendo dar um passo à frente, mas não trabalho com a pretensão de te convencer.

        Rodolfo Borges

        Janeiro 13, 2011 at 7:36 pm

      • Agora quem está ganhando sou eu.
        ;D

        Rodrigo Borges

        Janeiro 14, 2011 at 7:32 am

  5. Rodolfo, discordamos em muita coisa, mas posso dizer que respeito muito suas opiniões. Reconhece que sempre são embasadas, não me lembro de vê-lo expressando algum ponto de vista baseado em achismos ou opinionites. Mas confesso que acho esse discurso de promover a igualdade em vez de reforçar a diferença bastante preguiçoso. Pra não dizer ingênuo, o que muito me surpreende vindo de você. Se fosse a Polyana falando, faria bem mais sentido.

    Luanda

    Janeiro 13, 2011 at 2:39 pm

    • O discurso faz parte do meu processo de trasncendência hippie, que culminará na feitura diária e metódica de pulseiras de miçangas do lado de fora da biblioteca da UnB, quando não precisarei mais ler os livros, pois serão eles que vão me ler.

      Luanda, respeito a sua preguiça e até entendo seu incômodo (acho que “desconfiança” seria um termo melhor) diante do idealismo cândido-poliânico de um cara que tende para o realismo brutal da vida bandida. Mas realmente não acredito nisso de fortalecer dois lados que, quando estiverem em pé de igualdade, se digladiarão à morte ou, com menor probabilidade, conviverão harmoniosamente. Esse tom conciliador tem precedentes e está lá nos Certões. Dá uma olhada; no fundo, no fundo, sou um hippie crente na humanidade, ainda que negue pra não ficar feio, que o idealismo está fora de moda mesmo e, convenhamos, é ridículo por definição. Além do mais, tenho uma pequena, mas limpinha, reputação a zelar. Apareça mais por aqui!

      Rodolfo Borges

      Janeiro 13, 2011 at 2:50 pm


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: