Literatura de Verdade

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O insustentável peso de ser sustentável

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Quer ajuda com a sacola, tio?

“O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.”
Milan Kundera

O mundo está acabando. Desde que começou. É aquela história: a gente mal nasce e começa a morrer. O colapso final pode ocorrer na próxima semana, em 2012, daqui a alguns séculos ou em milênios, mas o legal é trabalhar com o cenário de que tudo vai acabar amanhã mesmo. E não apenas nos identificamos como a principal razão para o fim do planeta como acreditamos que, unidos num só coração, conseguiremos evitar a catástrofe definitiva que culminará no prometido gemido de T.S. Eliot. É muita pretensão. Perdoa, Galileu, eles não sabem o que pensam. A Terra foi despejada do centro do Universo há séculos, mas continuamos guardando a vaga: um pouco pra esquerda, tia, desfaz, bem vigiado! E se a gente não puder fazer nada?

Podemos e devemos cuidar melhor da casa. Os carros não estão sendo tragados pela terra ou as casas navegando pelas águas por acaso. Demoramos a perceber a importância de respeitar as plantinhas, mas é megalomania imaginar que somos nós, com nossos controles de ar-condicionado metafísicos, os responsáveis por aumentar ou reduzir a temperatura de um planeta desse tamanho. E já temos feito tanto pra protegê-lo. O discurso da sustentabilidade virou consenso e o mais importante já aconteceu: entrou dinheiro na história. Tem gente ganhando em cima da preservação; agora é questão de tempo.

Mas, para o ambientalista, é como se nada tivesse mudado. Os fóruns persistem, os protestos, os abaixo-assinados, o lamento — bem, essa turma também está ganhando seu dinheiro. É por isso que o autoflagelo se impõe diante de um passado devastador e impiedoso? Desculpa, ararinha azul, duas Ave Marias e três edições do Globo Repórter ajoelhados no milho em sua memória.

Eu não diria que a coisa toda foi resolvida, mas será que não dá pra pegar um pouco mais leve, pessoal, ou vamos continuar a carregar o destino do planeta nos ombros e depositar o peso do futuro da humanidade em cada compra? Vai, ecobag, salvar mais um pinguim. Epa, eu não queria ser tão cruel, foi mal, mas é que essa obsessão por embalar a Terra nos braços não me soa nada bem. Espinosa chamava a natureza de Deus. E não é que a danada da humanidade quer domar o Criador numa jaula de garrafas pet recicladas?

Pode ser que esteja embutido aí algum sentimento de vingança pós-paraíso, mas meu palpite é que tutelamos o Senhor simplesmente por não ter nada melhor para fazer. O mundo perdeu o sentido.  Morreram as ideologias, o patriotismo não tem mais lugar e nossas relações pessoais não significam nada. Estamos livres, sem obrigações, leves, enfim, e isso é insuportável, certo, Milan?

É preciso carregar alguma coisa, nem que seja para tirar sentido da perpetuação da falta de sentido. O problema é que o planeta é pesado demais. Enquanto nossos planos mais ambiciosos projetam 50 anos, as soluções pedem por séculos. Heróicos, insistimos em resolver tudo durante nossas curtas vidas, talvez porque precisemos participar e mostrar aos outros que participamos. Mas a expectativa serve apenas pra frustrar e alardear ainda mais a derrota do ser humano, que não passa da derrota de uma pessoa só.

Cai na real, malandro, esses seus sacrifícios pela humanidade na hora de escolher o papel higiênico não enganam a ninguém além de você mesmo. Que tal trocar o egoísmo inócuo pelo produtivo e regular a própria vida antes de sair por aí querendo sustentar a humanidade? “Mas, peraí, por que falar assim, desse jeito agressivo, denunciando o egoísmo-vazio-disfarçado-de-ímpeto-político-biodegradável se isso é tudo que nos sobrou?”, você pergunta.

É verdade, esquece o que eu disse. Deixa pra lá. Faz de conta que você não leu este texto que eu finjo que não escrevi. Mas não me vem com essa história de aquecimento global, por favor, que o clima acaba esquentando.

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Written by Rodolfo Borges

Janeiro 22, 2011 às 11:00 am

8 Respostas

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  1. Polêmica.

    Rodrigo Borges

    Janeiro 22, 2011 at 11:12 am

  2. Meu caro, sou fã dos seus textos, independente do meu posicionamento.

    psicopratia

    Janeiro 22, 2011 at 11:26 am

  3. Este aqui está imbatível! Muito melhor que os textos que eu lia na página editorial da Folha. “E não é que a danada da humanidade quer domar o Criador numa jaula de garrafas pet recicladas?” Que sensibilidade e argúcia tem o escritor!

    Pois bem, eu ainda concordo com o discurso ecologicamente correto, ainda que não urine no banho (alguma vez, ouvi falar que era o mais apropriado para evitar o desperdício de água).
    No entanto, você tem razão.
    Antes de regular o ambiente, a sociedade, as pessoas deveriam regular a própria vida.

    Aí as coisas ganham o verdadeiro sentido.
    E não precisaremos nos digladiar uns com os outros para derrotar a insustentável leveza do ser, que dói fundo quando nos deparamos com ela.

    P.S.: Leia os comments do último post do blog do Léo. =p

    Diego Iraheta

    Janeiro 22, 2011 at 2:18 pm

    • Rodolfo, sou fã do seu sarcasmo! O capitalismo reverte em moda até a crítica aos seus rumos! Até a foto de Guevara foi das mais reproduzidas e vendidas…E dale ecobag pra não ficar de fora! Discordo quanto ao fim das ideologias, nisso eles tb querem que eu acredite. Vou compartilhar tá? Tô lendo mais de ano depois mas texto bom é sempre atual, beijo.

      valéria

      Março 12, 2012 at 10:25 pm

  4. Esta do fim das ideologias, é mais uma das máximas dos neos.Já de decretaram o fim da historia. A pretensão desde então aumentou e chegou a arrogância aqui na metáfora das gatafunhas pet. Parabéns …apesar de que compra a fim da ideologia.entendo muito mais sério, temos de mostrar, é a barbárie do sistema produtivo envenenado, transgêniado, cartelizado, desmedido em consumo de matérias primas……

    Euvald

    Junho 23, 2012 at 8:28 pm

    • Não fui eu que matei as ideologias, Euvald (acho que foram suicídios), e, como você, sinto falta delas. O mundo já foi mais fácil (ou pelo menos já foi mais fácil acreditar nisso).

      Rodolfo Borges

      Junho 23, 2012 at 8:45 pm


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