Literatura de Verdade

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O Rimbaud da Baixada

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Faz tempo que não passo por aqui. Tirei uns dias pra adiantar as leituras. Mas a quantidade de texto esperando na fila é angustiante. Enquanto termino O presidente negro, em que espero enfim bater o martelo na história das cotas raciais, vai aí o Neymar, que tá arrepiando no sul-americano, mas não solta a bola de jeito nenhum. Foi escrito pro OsGeraldinos.

Mala que é mala vai de moicano

Neymar é mala. Se o óbvio ainda ululasse pelo país, eu não precisaria ser tão direto, mas como ainda há gente por aí bolando teses deterministas para livrar a cara do moleque mais uma vez, a indelicada constatação se impõe. Quem não sabia, não queria admitir ou simplesmente duvidava da malice do cara, contudo, tirou a prova na birra contra um indefeso e agora desmoralizado Dorival Júnior.

A bronca do tio René Simões também vem sendo criticada como covarde, mas, vamos lá, Neymar estava pedindo por um esculacho público há muito tempo. De condenável nas palavras do eterno técnico jamaicano só a pretensão de controlar o monstrinho. Isso de educar Neymar não existe. Encaremos os fatos: aos 18 anos, o enfant terrible da Vila já recebeu a educação de que precisa e não tem psicólogo ou pai de santo que vá mudar o seu caráter.

Estamos à mercê do menino, então? Sim. É duro admitir a realidade, mas não é a primeira vez nem será a última que a humanidade se vê forçada a engolir um pequeno e incômodo gênio, ou vocês já esqueceram do Rimbaud? A única diferença é que, se no século 19 o gênio era reconhecido por versos e palavras, hoje ele ganha mais amplitude no gramado.

Rimbaud era mala, um dos maiores de todos os tempos. Fazia questão de incomodar com excrementos e impropérios e, a exemplo de Neymar, não poupava pretensos superiores — afinal de contas, em que quesito mesmo Dorival Júnior é superior a Neymar? Rimbaud foi adotado como pupilo por Verlaine, mas fazia questão de submeter o mestre, inclusive, comenta-se, sexualmente. Era portanto, intratável, mas, ao mesmo tempo, um artista brilhante que revolucionou a poesia francesa aos 19 anos.

Rimbaud não ganhou o dinheiro de Neymar (causa aventada para explicar o comportamento do jogador), mas tinha, assim como o malinha da Vila, a clara noção de sua própria genialidade — o que é muito mais perigoso para o caráter de um cidadão do que o dinheiro. Neymar sabe que é diferente e, se isso lhe permite ser tratado de forma diferente, por que cargas d’água o menino vai escolher se submeter a um bando de medíocres?

“Mas precisamos dele!”, bradarão as massas em desespero, pensando na Copa do Mundo. Precisamos e, por isso, estamos em suas mãos (ou pés); essa é a verdade. Já aconteceu com o Romário, em 1994. Quer gol, quer drible, magia, firulinha? Então reza na cartilha do cara. Há um preço a se pagar por tudo. Kaká, por exemplo, paga 10% por mês pelos limites da igreja (atualização: ao que me consta, Kaká deixou de contribuir com a Renascer) — e ainda assim a gente reclama.

Neymar não precisava ser assim. Há gênios que não nos oprimem ou desafiam tanto quanto ele. Mas o Rimbaud da Baixada é desse jeito aí. Topa o mano a mano?

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Written by Rodolfo Borges

Janeiro 31, 2011 às 9:22 pm

Publicado em Crônica

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5 Respostas

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  1. Realmente, você andava sumido.
    Esse eu tinha lido quando publicou da primeira vez, muito bom.
    Quanto à martelada final no assunto das cotas… Rodolfo, você é mesmo persistente.

    psicopratia

    Fevereiro 1, 2011 at 6:36 am

    • Admito minhas obsessões, mas, neste caso específico, não farei mais do que responder a uma demanda do Diego, que destacou o fato de que o último texto sobre o tema apresentava um problema, mas sem oferecer solução.

      Rodolfo Borges

      Fevereiro 1, 2011 at 9:43 am

  2. Como é futebol, abstenho-me. Admito, contudo, que não sou abstêmio.

    Diego Iraheta

    Fevereiro 1, 2011 at 7:19 am

  3. […] Outro dia fui questionado ao comparar num texto gênios da música e da literatura a craques de bola. Mantive e mantenho a comparação. Arshavin está para o jovem Dostoievski (ou Raskolnikov, como disse Xico Sá) assim como Neymar está para Rimbaud. […]

  4. […] Outro dia fui questionado ao comparar num texto gênios da música e da literatura a craques de bola. Mantive e mantenho a comparação. Arshavin está para o jovem Dostoievski (ou Raskolnikov, como disse Xico Sá) assim como Neymar está para Rimbaud. […]


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