Literatura de Verdade

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O presidente negro

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Não gosto de repetir temas nas crônicas. Expõe minha incompetência para o definitivo. Mas no caso das cotas raciais, o desafio equilibra a frustração. Vivemos num mundo de simplificações e consensos e um dos mais consolidados é o de que estamos divididos em dois grupos básicos: os defensores dos negros, não-racistas, a favor da igualdade, partidários das ações afirmativas e consequentemente favoráveis às cotas raciais versus a elite branca, racista, preconceituosa e consequentemente contrária às cotas raciais. A divisão é uma evolução da clássica dicotomia esquerda-direita, em que você compra o pacote todo para participar. Não tem centro-isso ou aquilo; os atenuantes servem apenas para indicar que o cara está disposto a debater, e não a se submeter ao ato nobre de mudar de ideia. Se você se localiza em algum ponto intermediário entre esses dois grupos, portanto, ou admite que faz parte de um deles ou corre o risco de ser desqualificado pela maioria como, digamos, inocente. Sou considerado ingênuo por acreditar que um dia viveremos harmoniosamente sem prestar atenção à cor das pessoas. Justo. Ideal é assim mesmo, cândido. Mas o consenso não entende como inocência esperar que um racista passe a respeitar um negro só porque ele ganhou um diploma de Medicina. Estamos na mesma. A diferença é que o meu ridículo ideal estará, a partir de agora, embasado historicamente. Chamo ao palco o negro mais influente do mundo: o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Quando Obama foi eleito, em 2008, a galera se apressou em dizer que Monteiro Lobato, racista maior de nossa virginal literatura brasileira, tinha previsto a eleição em seu O Presidente Negro. Bobagem. Diante da forma como a eleição do democrata se desenrolou, Lobato não poderia ter errado mais. No livro, somos apresentados a um aparelho muito louco chamado porviroscópio, que mostra o futuro a partir de uma combinação dos fatos presentes. O enredo se passa 1928, quando temos acesso ao que acontecerá em 2228, ano em que é eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. A diferença de 220 anos é o menor dos erros de Lobato. Os anos 1920 e 1930, frequentados pelo escritor, foram marcados por ideias de eugenia, pureza racial. A projeção desses valores instituiria três partidos políticos nos EUA: o Partido Masculino, o Partido Feminista e o Partido Negro. Uma aliança entre os masculinos e as feministas garantiria a presidência branca até Evelyn Astor decidir que era hora de uma mulher chegar ao poder e romper o acordo, o que abre espaço para o negro Jim Roy, que é eleito. O enredo básico é esse e (fica a dica) se você estiver interessado em colher dados para apontar o racismo em Monteiro Lobato, pode arranjar vários por ali. É só querer.

Obama não foi eleito pelos negros. Obama não foi eleito pelos brancos. Obama foi eleito pelos americanos, com o discurso clássico de que somos todos iguais, Martin Luther King, aquela coisa. Tem uma evolução aí, certo? O mundo é racista e tal, o tema é tratado em nível governamental, foi criminalizado, mas o quadro evoluiu duma forma menos apocalíptica do que se anunciava. É possível dizer que Obama se elegeu apesar de ser negro. Os defensores das cotas raciais dirão que sua eleição é consequência direta das ações afirmativas. É bem provável que elas tenham colaborado. Não são inócuas e podem contribuir para uma evolução nas relações humanas. O que me incomoda nelas é que servem mais a um conceito do que a pessoas. Mais do que falar em nome de desfavorecidos, falam em nome do negro, não enquanto indivíduo vítima de racismo, mas enquanto grupo, símbolo, raça, algo que deixou de fazer sentido cientificamente depois da Alemanha nazista. E para o cara ser negro basta decorar os nomes de algumas entidades africanas e assumir a afrodescendência. É só querer. Ou você vai cometer a violência de dizer a um negro que ele não tem direito de ser negro? É um lance bem perverso. Tão perverso que esquecemos que mais legal ainda do que defender os negros é defender os pobres, esses sim, sem organização que os permita reivindicar direitos, desbotados de um jeito que a gente não consegue nem identificar a cor. Onde estão as boas almas para defender as cotas sociais nessas horas? É possível fazer o bem assim também, com uma margem de erro bem menor e com menos pessoas a lhes importunar, porque falar contra os pobres não dá, é covardia.

Esse raciocínio sempre me pareceu tão convincente. Como a maioria dos pobres é negra (ou parda), quando beneficiamos os pobres, beneficiamos (em maior parte) os negros. Mas tem o lance da afirmação racial, o desvio da rota do movimento pelos direitos civis. Já fui a favor das cotas raciais. Passei um período indiferente e, depois de me debruçar sobre o assunto, mudei de ideia e, mudando, caí na bobagem de acreditar que é possível convencer os outros com argumentos razoáveis e bem fundamentados. Mas tem muito mais que razão envolvido nisso aí. Eles não tão mais caindo nessa, Sócrates. E agora?

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Written by Rodolfo Borges

Fevereiro 7, 2011 às 11:21 pm

6 Respostas

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  1. Mais uma vez, muito bom texto!

    psicopratia

    Fevereiro 8, 2011 at 6:53 am

  2. Mas, meu caro, esta é a tônica do bom debate: a emoção! Já diria Mouffe, minha musa do pensamento político neocontemporâneo, que “sentimentos, paixões e fantasias são essenciais para a discussão e o confronto político”. Não tivesse havido emoção – da xenófoba Mayara e dos revoltados pró-nordestinos ou simplesmente pró-respeito no Twitter -, a imprensa e a sociedade não teriam voltado a discutir o ódio contra o Nordeste ainda nutrido por alguns paulistanos…

    Pontos positivos e argutos do seu texto:
    1 – O exemplar exemplo (!) de Obama. Sim, decididamente, as ações afirmativas contribuíram com a ascensão de negros como ele nos EUA. E, sim, ele foi eleito muito mais por “unir” a sociedade ianque, especialmente os mais jovens, digitalmente engajados, do que por ser negro. Mas, tal como a eleição de Dilma Roussef marca simbolicamente a estreia de uma mulher no poder brasileiro (e pra mim, significa basicamente isso), o voto por Obama era, sim, um voto naquele que poderia ser o primeiro negro a governar dos Estados Unidos. Não seria possível ignorar a expectativa e o caráter simbólico da vitória do democrata.

    2 – Cotas raciais não anulam cotas sociais. Agora, para o problema da exclusão social, creio que o governo popular reeleito do PT anda fazendo – ou ao menos anunciando – muita coisa… Não tem uma série de programas como Bolsa Família, Luz para Todos, ProUni e afins para a população mais carente? Alimentação, infraestrutura e, claro, educação contribuem com um futuro melhor para as pessoas mais pobres! Da mesma forma, se não estou enganado, a Universidade de Brasília tem uma pontuação especial no vestibular para moradores das regiões administrativas, distantes do centro de Brasília. Ou seja, há sim ações afirmativas para pobres em diversas esferas. Qual é o problema de termos duas frentes de ataque? Uma no que tange à pobreza? Outra, no que se refere à pobreza e ao racismo institucional?

    Bem, a única inconsistência em sua argumentação é a seguinte frase: “Mas o consenso não entende como inocência esperar que um racista passe a respeitar um negro só porque ele ganhou um diploma de Medicina”.
    O objetivo de ações afirmativas não é atrair a simpatia do racista.
    Portanto, um médico negro pode até ser desrespeitado pelo racista, mas ele será fonte de respeito em uma outra ponta!
    A criança negra, que não vê referências (afinal pretos e pardos são minoria em cargos de destaque) e está acostumada a associar negro a tudo que a mediapolis (Silverstone 2007) interpreta como “ruim”, “feio” e “criminoso”, essa criança vai se sentir motivada a seguir na trilha dela. De ser quem ela quiser. Como nossos pais pobres que venceram na vida, ela vai se espelhar no irmão mais velho negro pobre que venceu na vida.
    Com o apoio das ações afirmativas. Que rompem o racismo institucional, que não se baseia em raça biológica – a mesma do Nazismo. E, sim, raça social, que é o que a sociedade carimba no indivíduo, sim, com base em características do fenótipo.

    No mais, quanto mais estudo, mais vejo que consenso é utopia. Acho seus argumentos válidos, sim. Mas a sua fundamentação não exclui todo o histórico de sofrimento e (ainda) presente de sofrimento dos negros no Brasil.

    A realidade só vai mudar quando o negro bem-sucedido deixar de ser exceção e passar a ser regra. E este será o dia em que o médico negro pode até ser desrespeitado pelo racista, mas este vai pro xilindró e, pra sair de lá, vai recorrer a um advogado negro.

    Grande abraço intelectual – e com emoção.

    Diego Iraheta

    Fevereiro 12, 2011 at 12:45 am

  3. Ah, mas eu não desqualifico as emoções. Só acho que, na hora de tomar uma medida que afeta a toda a população, o governo não pode (ou não deveria, utopicamente) se render a argumentos emocionais. Nessa esfera, a coisa tem de ser mais pragmática, por mais cruel que isso possa parecer.

    Mas a serenidade me tocou nas últimas semanas (daí provavelmente a queda no número de textos por aqui) e o assunto já não tem me chamado mais tanto a atenção. Devemos gozar de trégua nesse âmbito durante algum tempo (ou, quem sabe, pra sempre). Abraço!

    Rodolfo Borges

    Fevereiro 15, 2011 at 2:19 pm

  4. Realmente, este blog anda muito sereno mesmo. Cadê as atualizações?

    psicopratia

    Fevereiro 18, 2011 at 2:01 pm

    • As atualizações estão para voltar, depois de um breve período sabático. Estou em falta, assumo, mas a expectativa é voltar nos próximos dias. A serenidade passará. Tô tomando uns Nietzsches aí e o bicho vai pegar.

      Rodolfo Borges

      Fevereiro 21, 2011 at 11:01 am


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