Literatura de Verdade

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A cabana do Pai Barack?

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A vontade e, mais importante, a disposição para escrever por aqui voltaram. E, enquanto preparo o próximo texto, aproveito a visita do presidente americano para dar fim à imperdoável interrupção do fluxo bloguístico e recuperar um texto que escrevi na época em que Barack Obama ainda era candidato ao governo. Reli a crônica e, diante das tensões raciais vigentes no pais (fabricadas ou não), acredito que é alta a possibilidade de eu ser mal interpretado e taxado de elite-branca-defensora-da-submissão-negra. Não é disso que se trata. Se a interpretação daqueles que se sentem oprimidos e excluídos estivesse sob o meu controle, essa realmente não é a mensagem que eu gostaria de passar (e está cada vez mais chato escrever esses preâmbulos explicativos para rejeitar a premissa de que todos são racistas até que se prove o contrário). Vamos Em busca do texto perdido com Harriet Beecher Stowe:

A cabana do Pai Barack?

Parece que o jornal alemão Die Tageszeitung causou mais incômodo do que desejava quando publicou a vitória do senador Barack Obama nas prévias do partido Democrata sob o título A cabana do Pai Barack (uma paródia do abolicionista A cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe). Segundo o próprio periódico, a intenção era chamar a atenção para os esteriótipos derivados da questão racial, mas lideranças negras e norte-americanas interpretaram a brincadeira como um insulto racista.

Para os críticos, Pai Tomás era um escravo submisso e comparar Obama a ele é depreciar não apenas o candidato democrata, mas todos os negros. Não pretendo defender os jornalistas alemães, cuja verdadeira intenção (consciente ou não) ao publicar a paródia permanecerá obscura, mas tenho uma impressão completamente distinta sobre o caráter de Pai Tomás, e, conseqüentemente, a respeito de sua comparação com Obama.

No livro de Stowe, Pai Tomás pertence a Arthur Shelby, um senhor bom e sensato que cuida bem de seus escravos. A relação dos dois é muito próxima (o escravo carregou Shelby nos braços quando o amo ainda era criança), e as qualidades morais de Tomás são tão admiradas que ele administra os negócios da fazenda em nome de seu senhor. Para os críticos do jornal alemão, esse comportamento pacato e respeitoso de Tomás para com seu senhor é submissão. Para mim, não.

Como eu já disse, Tomás era bem tratado. Tinha uma cabana só para ele e sua família, trabalhava com gosto, respeitava seu patrão e era por ele respeitado. Enfim, levava uma vida boa, por mais que seja difícil para nós entender como isso seria possível para um escravo (no caso do livro de Stowe, a escravidão e a relação entre um negro e um branco obscurecem a relação entre Shelby e Tomás. Quer dizer, eu não imagino que Tomás seria dócil se seus senhores tivessem lhe tratado mal desde o início de sua vida).

Tomás não era simplesmente submisso. Era um homem correto, devotado a seu senhor por receber um bom tratamento. Para quem se confunde e reduz democracia a voto, a escolha pura e simples, deve ser complicado entender a questão, mas Tomás não escolheu seu amo, e gostava dele; muitos de nós escolhemos o presidente Lula, e tantos quanto não gostamos dele (se restaram dúvidas, acompanhem o processo eleitoral do Zimbábue). Aliás, muitos de nós provavelmente temos menos liberdade atualmente do que tinha Tomás na fazenda dos Shelby.

Mas deixemos de divagações; antes que me acusem de defender a escravidão, chego ao trecho da história de Pai Tomás em que as mazelas desse malquisto sistema o atingem. Com problemas financeiros, Shelby é forçado a vender parte de seus escravos, mas como o preço de pai Tomás é alto, sua venda evitaria a negociação de uma quantidade numerosa de trabalhadores da fazenda. Finalmente sua liberdade é posta em jogo; sua vida não lhe pertence. Em vez de enfim se revoltar e protestar contra a venda, o escravo acata a decisão de Shelby, para não prejudicar o amo.

Covardia e submissão? Não, lealdade e caráter. Para Pai Tomás, mais do que um dono, Shelby é um amigo; e quem não se sacraficaria por um amigo? Tomás deixa a família para sofrer até a morte no sul dos Estados Unidos, mas é leal a Shelby até o fim. E onde é que Obama fica nessa história? Bem, se Die Tageszeitung conseguir me convencer de que o canditato democrata à Presidência dos Estados Unidos é tão íntegro quanto Tomás, Obama terá meu apoio incondicional. Se um Pai Tomás morreu por seu senhor, imagine o que um Pai Barack seria capaz de fazer por um país inteiro.

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Written by Rodolfo Borges

Março 19, 2011 às 9:43 am

5 Respostas

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  1. Eu não li Stowe, mas estudei brevemente sobre o significado dessa obra na época da graduação. De fato, minha interpretação sobre Pai Tomás vai nessa linha do escravo dócil e submisso. Gostei, no entanto, da sua análise. Aí podemos ir até além e questionar se amizade não é um tipo de escravidão, prisão… O assunto iria para níveis mais filosóficos que sociológicos – focados em questões raciais. Que bom que retornou! Queremos mais textos.

    Diego Iraheta

    Março 20, 2011 at 3:07 pm

  2. Mas de onde você tira essas interpretações??
    Como disse o Diego, que bom que retornou!

    psicopratia

    Março 21, 2011 at 8:36 am

    • Diria que saem de uma cabecinha perturbada. Mas, nesse caso, foi exatamente a impressão que me deixou o livro. É uma simplificação de sentimentos, mas a autora escreveu assim mesmo (por isso, as críticas a ela não são lá muito laudatórias). O fato é que, quando entrou na linha de tiro para ser vendido, Tomás podia ter fugido, mas ficou. Ficou por que estava condicionado? Não entendi assim.

      Rodolfo Borges

      Março 21, 2011 at 8:49 am

  3. […] mais: A cabana do Pai Barack? « Literatura de Verdade Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag barack?, cabana, verdade, […]


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