Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Acuso…!

with 6 comments

But I know she was born to do everything wrong with all of that

Melhor seria dizer acusamos, certo? Maria Bethânia levou R$ 1,3 milhão do governo (captação, aquelas coisas…) e ganhou de lambuja uma viagem para a ilha do Diabo. Não, Bethânia não é judia ou mantém qualquer semelhança com Alfred Dreyfus, mas eu também não sou Émile Zola, então estamos conversados. A questão é que, assim como o processo de degradação pública (e civil) de Dreyfus tinha como alvo velado os judeus, quem atira em Maria Bethânia está tentando acertar a famigerada Lei Rouanet ou, traduzindo, o patrocínio estatal das artes. Ei, eu não curto esse lance de rótulos, mas, se for para reforçar o argumento, assumo meu liberalismo. Acho esses patrocínios estatais uma furada, até porque grandes verbas governamentais trazem grandes responsabilidades, como diria o uncle Ben. Deixemos de lado, portanto, a condenável má formulação do projeto de Andrucha e Bethânia, o alto orçamento solicitado e outros detalhes que tenham lhe ofendido em particular para nos concentrarmos no todo: deve o Estado bancar obras de arte?

Num mundo ideal, não. Cada um que cuide do seu. Quer ajudar a humanidade a dar mais um passo à frente e contribuir para a evolução estética e sensorial dos coleguinhas? Ok, mas você vai bancar, malandro, que ninguém te pediu nada. Mas o mundo não é ideal, muito menos o Brasil. Considerando nossa realidade, portanto, julgo a questão passível de discussão. Constitucionalmente, temos direito a cultura. Esse direito deve ser garantido pelo Estado. A opinião da maior parte dos inconformados dá conta de que Bethânia poderia levantar a grana sozinha e brindar-nos com a poesia que vai mudar o mundo e tal. Pode ser, mas um outro tanto de críticos diz que as empresas não patrocinariam um projeto louco desses sem incentivo, porque não é lucrativo. Outra: conversei recentemente com o gerente de um shopping center de Brasília e ele contou que, antes de trocar as quatro salas reservadas a filmes comerciais do shopping por um mega-restaurante, tentou montar ali um cinema de arte. Nenhuma reprodutora se interessou. Disseram que não vale a pena, que o público é pequeno — e é mesmo, por definição. Resultado: a capital do país não tem um cinema com lançamentos de fora do circuito desde que o Cine Academia, único que prestava esse serviço na cidade, pegou fogo, em maio de 2010. Se ninguém banca, como o projeto sai? Não sai. A função do Estado é tapar o buraco.

Os detratores de Bethânia argumentam que o dinheiro investido nos 365 vídeos poderia estar indo para escolas, e, na própria reclamação, revelam a ignorância sobre as possibilidades da educação a partir da arte — o que ironicamente reforça a necessidade dos projetos culturais que aparentemente não existirão neste pais sem a promoção governamental. Diante da simplicidade do raciocínio de oposição, apelo para o clichê: se os vídeos da cantora fizerem um único jovem brasileiro atentar para a poesia, já terá valido a pena (rola a lágrima). “Ah, mas se Bethânia deseja fazer um bem à nação, que o faça por seus próprios meios, que o faça com dignidade!”. Não encare apenas como blague (porque em parte é), mas, entre os clamores populares, aquele que mais me comove é o moralista. Já me submeti ao moralismo e provavelmente vou cair na tentação outras vezes, é assim mesmo.

A Lei Rouanet é imperfeita, mas ainda está valendo — tramita projeto para atualizá-la, mas esse tipo de coisa sempre será passível de questionamento. Dentre seus inúmeros defeitos, talvez a principal falha seja tratar pessoas diferentes de forma diferente. Indiscutível que Bethânia ou Gal Gosta sempre se destacarão entre os possíveis pleiteantes. Devem receber tudo que pedem? Não, mas dificilmente os julgadores deixarão de levar em conta quem elas são ao conceder os benefícios, afinal, em último caso, essas cantoras carregam uma trajetória de sucesso que reforça a convicção de que o dinheiro será bem investido. O salário de R$ 50 mil para Bethânia é alto? Difícil medir, mas se você pudesse escolher uma cantora para ganhar isso, Bethânia, uma das mais aclamadas do país, não estaria na lista?

Mérito reconhecido ela tem, mas o preceito de esquerda diz o contrário: é preciso favorecer os desfavorecidos — e os ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira foram criticados por isso. Nessa área cultural, o raciocínio é traiçoeiro. Dar dinheiro a um desconhecido é bem mais arriscado. A não ser que o desconhecido em questão seja, digamos, um jovem, impetuoso e bem apessoado aspirante a escritor que, sem condições de sobreviver da literatura, prostitui suas palavras em jornais e revistas enquanto aguarda que seu evidente talento seja reconhecido por um generoso e improvável mecenas. Por falar nisso, dona Lei Rouanet, não sobrou um trocado do projeto da Bethânia por aí não?

Anúncios

Written by Rodolfo Borges

Março 20, 2011 às 8:10 pm

Publicado em Crônica

Tagged with , , ,

6 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Todo mundo é vítima no Brasil quando o assunto é dinheiro público. Ele sempre vai pra o lugar errado, seja um patrocínio ou investimento qualquer, seja um bolso malandro.

    Rodrigo Borges

    Março 20, 2011 at 10:41 pm

  2. A premissa de que, em um mundo ideal, cada um cuidaria do seu é questionável.Quando ao impetuoso bem apessoado, anda muito oferecido. Isabel já viu isso?

    psicopratia

    Março 21, 2011 at 8:47 am

    • Quando digo que cada um cuidaria do seu, o digo em termos econômicos. É uma referência ao Liberalismo.

      O bem apessoado é cantada barata pra Leio Rouanet. Vai que cola.

      Rodolfo Borges

      Março 21, 2011 at 8:54 am

  3. Passar prum concurso do Judiciário é uma boa alternativa aos jornais e revistas – pelo menos sobrará mais tempo pra escrever, enquanto a Lei Rouanet não cair no seu caô. É só esperar o governo reabrir a torneira.

    Freire

    Março 22, 2011 at 9:36 am

  4. Francamente, o liberalismo me incomoda. Adapto-me a ele, mas questiono meritocracia, competição, hierarquias. Por outro lado, fujo do label de comunista. A História nos ensina – e o presente, também – que é um sistema falido. Ainda estamos em busca de um modelo ideal, e talvez sempre estejamos. Sim, eu apoio iniciativas estatais para bancar arte, cultura e educação! Creio que é possível mudar a sociedade (ao menos, uma pequena parcela dela), melhorar o dia a dia, encher de poesia o “mundo moderno cheio de absurdos”. Concordo com o Chang que brasileiro adora reclamar de gastos de dinheiro público ou captações ou seiláoquê – que, em última análise, sim, afeta o bolso do cidadão e reverte em tese para ele. Mas o exemplo andrúchico e betânico é representativo de como os desfavorecidos continuarão sem receber o incentivo que as elites, as eternas minorias (ainda que artísticas, intelectuais) conseguem – com uma ampla facilidade. Vou enviar um artigo para os três aqui em discussão que recebi sobre como o nome da família a que você pertence importa mais no Brasil que a educação que você recebeu. Isso, OK, acontece em qualquer sociedade tradicional, conservadora, aqui no UK sem dúvida. Mas me irrita como o Brasil adora se autoproclamar o país da diversidade, do “todos somos iguais”, e uns continuam mais iguais que os outros. Especialmente com belos nomes para atrair captação dos cofres públicos e/ou iniciativa privada! E, sério, meus amigos, isso não é CONSPIRAÇÃO!

    Diego Iraheta

    Março 22, 2011 at 11:54 am


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: