Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Everyman feat. Crepúsculo dos Ídolos

with 5 comments

Parental advisory: este texto foi escrito sob o efeito alucinógeno de Friedrich Nietzsche, uma droga ideológica pesadíssima que se intrometeu no assunto sem ser chamada e amplificou o potencial crítico da crônica. Favor encarar como obra de Monteiro Lobato e não utilizar em sala de aula com objetivos padronizantes e castracionistas.

Ah, nem dá pra notar, vai...

Tombou. Caiu um exemplo de perseverança, foi embora um símbolo de luta pela vida, vencido pela morte. E nós choramos, choramos e lamentando uma derrota que no fundo é nossa enquanto humanidade, ou estou indo longe demais? Ou vocês estão indo longe demais? Não dava mais para José Alencar, empresário arrojado, maior fiador (é têxtil, certo?) de presidente operário que o mundo já viu, velhinho resistente que combateu o câncer e tal. Não deu, minha gente. E vamos falar a verdade, nunca dá. Pra ninguém, nem pra ele. Aliás, por que “nem pra ele”? Por que esperávamos tanto de Alencar?

Bem, tem a história de vida. O menino pobre que virou rico, aquela coisa, mas isso não faz de ninguém imortal. E é a morte, mais uma vez do alto de sua inevitabilidade, que nos impõe o grande Alencar como um mero homem comum. Antes de a morte desferir sua ceifada derradeira, a parceira velhice massacrou o prodígio de Muriaé sem misericórdia. Da mesma forma que vai massacrar você, se ousar chegar lá, como o profeta Philip Roth nos alerta. Não teve Coteminas ou vice-Presidência que desse conta dos golpes. Seria ingênuo imaginar que isso muda alguma coisa. Por que cargas d’água, então, imaginamos?

O melhor dos homens, no fim das contas, é aquele que consegue esconder melhor seus defeitos. Alencar foi competente no quesito. Mesmo sem reconhecer uma filha e tratar o caso provavelmente da pior forma possível, o ex-vice-presidente partiu praticamente imaculado — apenas uma mácula numa existência ilibada, é possível argumentar. Ora, isso tudo é questão de ponto de vista. Vejamos: se considerarmos Alencar, menino humilde que venceu na vida, prova de que todos podem, também teremos de aceitar o fato de que nossa admiração por ele é postiça, artificial, inventada.

Tá bom, todos podem, mas ele conseguiu. Era um homem obstinado, não desistia, lutava pelo que acreditava. São palavras já usadas para definir figuras como o terno Adolf Hitler. Mas Alencar era um nacionalista, pensava no país. Mussolini também — e só recorro a exemplos de ditadores porque por meio de suas figuras internacionalmente repugnadas é possível mostrar com mais eficiência a relatividade das qualidades atribuídas ao ex-vice-presidente. Mas há ainda a admirável luta contra a morte, a insistência em viver apesar da evidência mórbida do destino. Gostamos dessa resistência porque achamos bom viver, mas bom mesmo é viver bem, sem precisar, por exemplo, de um aparelho para respirar. Por esse ângulo, a galhardia de enfrentar a morte vira covardia.

“Uma morte no tempo errado, uma morte covarde”, diria o tio Nietzsche. “Morrer orgulhosamente, quando não é mais possível viver orgulhosamente”, certo, Friedrich? Mas escolhemos a mitificação de mais um de nossos irmãos medíocres e seguimos transformando homens comuns em virtuoses da humanidade enquanto aos virtuoses é relegada a disputa de esmolas via leis de incentivo à cultura. “Os fracos sempre tornam a dominar os fortes — pois são em maior número, são também mais inteligentes…”, continuaria Nietzsche. A quem não é genial, resta a inteligência.

E assim vamos execrando os espíritos mais elevados, submetendo-os a rasos valores morais em tentativas infantis de igualá-los a nós enquanto atribuímos grandeza a vitórias que estão ao nosso alcance, que dependem apenas de esforço e obstinação dentro de regras que nos igualam a todos em nome da ordem. José Alencar foi um dos maiores entre os homens comuns e isso lhe rende mais honrarias do que prestamos aos grandes homens. Percebem? Sustentou famílias com seus negócios, educou os filhos, fez política e deixou empresas como legado. A maioria de nós não vai passar disso.

Contribuiu para o engrandecimento espiritual da humanidade? Não exatamente. Criou algo que facilitasse nossa vida ou nos apresentasse a uma nova perspectiva existencial? Tampouco. Marcou história por atingir o máximo que alguém comum poderia ter atingido. Provavelmente ninguém sobreviveria a um escrutínio desses, dirão. E terão, assim, entendido o que eu quis dizer.

Anúncios

Written by Rodolfo Borges

Abril 12, 2011 às 10:05 pm

5 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. A morte, por si só, é a maior libertadora. Tanto de quem vai, quanto de quem fica. Não acompanhei a ida de Alencar com tanta atenção. Mas será que ele foi mais adorado do que qualquer ilustre morto? Mário Covas não foi mais? Mário Covas merecia mais?

    Rodrigo Borges

    Abril 12, 2011 at 10:18 pm

    • A morte santifica a todos, de fato, mas Covas não foi velado no Palácio do Planalto. Alencar não teria direito a essa honra, mas teve. O texto, contudo, se aplica a todos eles.

      Rodolfo Borges

      Abril 12, 2011 at 10:45 pm

  2. A morte não santifica a todos, diria agora Wellington Oliveira. Alencar não criou nada novo, mas produziu toalhas.

    Claudio

    Abril 13, 2011 at 12:01 pm

    • O processo de vitimização (e consequente redenção) de Wellington já começou. É inevitável. No fim das contas, somos todos vítimas.

      Rodolfo Borges

      Abril 13, 2011 at 12:47 pm

      • Sim, somos todos vítimas.

        Rodrigo Borges

        Abril 13, 2011 at 1:28 pm


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: