Literatura de Verdade

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Supremo Sertão: Certezas

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ou Muito além dos peitinhos de perdiz ou Riobaldo sai do armário ou O Banquete de Carlos Ayres Britto ou

Ei, eu conheço aquele cara…

Riobaldo era gay. Ei, não vem de cara feia, foi o Supremo Tribunal Federal que decidiu. Ou melhor, foi a ministra Cármen Lúcia quem disse. Não com essas palavras, assim de forma tão direta, mas para bom agitador meia insinuação basta. Convenhamos, citar o Grande Sertão: Veredas num julgamento sobre o reconhecimento dos direitos da união homoafetiva tem lá suas implicações. E eu que, inocente, me ofendi quando o professor lá da UnB resumiu a obra-prima do Guimarães Rosa à história de dois jagunços homossexuais que descobriam, ao fim do livro, que um dos dois era mulher.

Bem, tecnicamente Diadorim seria travesti, professor, mas antes que eu me perca em conjecturas nesta travessia, cito Cármen Lúcia citando Rosa para iniciar os trabalhos: “enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. (…) o real roda e põe diante. Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos (…) amor desse, cresce primeiro; brota é depois. (…) a vida não é entendível”. Boa parte do Grande Sertão também não é entendível, não se desespere. Até porque o importante nesse caso, como bem lembraram os ministros do STF, é sentir.

Foi bonito. Sensual até, dependendo do nível da sua tara por togas. Os ministros da mais alta corte do país se refestelaram durante dois dias num belo banquete sabor Platão, numa celebração jurídica de Eros mais ousada que Débora Secco enquanto Bruna Surfistinha e que surpreendentemente escapou aos olhos pudicos da classificação educativa (em pleno horário nobre!) e invadiu os lares do país via TV Justiça. E nós pensávamos que Eros Grau tinha ido longe demais com seus peitinhos de perdiz.

Carlos Ayres Britto chamou os genitais de plus, bônus, regalos da natureza, “o superávit da vida”, e que o governo não venha pensando em contingenciar os ditos cujos. Nem o pessoal do Pânico na TV ousaria tanto. Ellen Gracie foi breve — me parece que para não exaltar os ânimos da corte; elogiemos sua prudência. “Até Gilmar Mendes!”, torciam as massas do Twitter, emocionadas diante da evidência de que a Justiça é cega, mas não frígida, e que é possível sentir debaixo de uma toga. Foram obscenos, dirá a Inquisição. Ora, e por que haveria o Supremo de se envergonhar disso?

Vivesse entre nós, Shakespeare não teria outro mote verossímil para seu Romeu e Julieta que o relacionamento homossexual. Esse é o grande drama amoroso da nossa época, seu Capuleto. Te sensibilizei agora? “Mas e a lei, e a família?”, bradam aflitos os auto-proclamados guardiões da família do alto de suas relações vazias e coleções de divórcios. Ah, meus caros, a família já vem decaindo há anos, e o ocaso nem precisou da colaboração dos gays.

O correto, aliás, seria dizer o contrário: nas famílias formadas por casais do mesmo sexo há provavelmente mais afeto, carinho e respeito — pois reforçado pelo “contra tudo e contra todos” — do que poderíamos encontrar em muitas uniões convencionais, tão fáceis de fazer e desfazer. Olha, pastor, eu respeito a sua igreja no serviço que presta à organização social e tal e estendo meus agradecimentos à Igreja Católica, principalmente no que diz respeito à consolação do irremediável. Sério mesmo, gente, manda um abraço pro papa.

Mas isso de negar direitos básicos pega mal. É de direitos que estamos falando, certo? Ah, você tava falando de religião? Sobre o que acontece dentro da igreja, interpretações de textos antigos, como as coisas deveriam ser? Ih, cara, não é aqui não. Acho que é naquele outro templo ali do lado, ali atrás. Mais pra trás. Continua indo. E não liga não, mas tenta se acostumar, que essa história começou nonada e está fadada a terminar notudo.

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Written by Rodolfo Borges

Maio 8, 2011 às 9:03 pm

3 Respostas

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  1. Preciso e brilhante! Como seus últimos textos, da fase rodolfiana madura. Acompanhei o julgamento aqui do outro lado do oceano. Não prestei atenção na citação de Guimarães Rosa, mas ouvi as referências e deferências a Platão. Obviamente, fiquei feliz com a sensatez e vanguardice (sic) dos ministros do STF. Bom ler a respeito, do seu ponto de vista. Destaque para “nonado”, “notudo”, contingenciamento dos “ditos cujos” e “tão fáceis de fazer e desfazer”. Espero que você não se incomode, mas tenho usado suas aspas no meu Twitter. Atribuo a @livrada, though. Abraços saudosos.

    Diego Iraheta

    Maio 9, 2011 at 7:46 am

  2. E quanta inspiração recente, hein?! Vide este e o debaixo. Isso aí! Quero livro agora!

    Diego Iraheta

    Maio 9, 2011 at 7:47 am


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