Literatura de Verdade

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Da opressão pela prestação de serviços

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Foi Robert Walser quem me alertou para o poder opressor de um bom servente. Até conhecer seu Jakob von Gunten, eu não entendia muito bem por que nunca gostei de ter meus sapatos engraxados, de ver a diarista limpar as janelas ou de ser chamado de senhor pelo mais reles dos flanelinhas. Bem, o fato é que é possível subjugar até pela prestação de serviços (como comentarei abaixo) e a recente edição da Companhia das Letras (Tradução Sergio Tellaroli, 152 páginas) já valeria uma estátua em homenagem a Luiz Schwarcz, por permitir aos brasileiros o contato com a obra de Walser. Mas deixemos de lisonjas gratuitas, que os caras ganham dinheiro com isso e preciso provar um ponto: é possível submeter até pela submissão.

É claro que a ideia não veio simples assim. Quer dizer, receber a informação é uma coisa, sentir é outra. Digamos que Walser inoculou a coisa na minha cabeça, que já andava perturbada pelo tema com alguma intensidade desde que o trabalho me exigiu o uso do terno — ah, paletó, por que eles acham que nós temos tanto dinheiro? Estava eu nesse clima aí quando, em busca de novos sabores, levei minha senhora a um restaurante diferente, sem esperar que fosse tão diferente assim. A comida era boa, muito boa, aliás, mas o garçom… tá bom, o garçom também era ótimo. Ótimo até demais.

Não quero parecer implicante, mas quando o cara se desculpa e pergunta se pode te servir pela frente, porque atrás de você há uma parede, ah, tem alguma coisa errada — ou certa demais, você decide. A questão é que o camarada deu um show. “Com licença, senhor, senhor, o senhor poderia e/ou gostaria de pedir uma bruschetta?, checar o valor da conta?, a comida estava boa?, carta de vinhos? posso incluir o serviço?”, aquela coisa toda, mas num crescendo de intensidade, como que numa reação ao fato de eu não apreciar tudo aquilo da forma correta. Digamos que o cara foi além do manual. Aquilo era uma arte, a sua arte. E foi ali, diante de um nhoque e um polpetone, que eu tive a epifania que originaria este texto: é possível oprimir pela prestação de serviços.

Aí você pergunta: e o que tudo isso tem a ver com o Jakob von Gunten? Bem, o livro é um diário sobre o período em que Jakob viveu no Instituto Benjamenta, uma escola para moços. Ele basicamente nos conta como as coisas funcionavam ali e nos apresenta a seus colegas. É sobre Kraus de que tudo isto aqui se trata, em particular na parte em que Jakob diz que “sua alma, toda a sua natureza, a totalidade do ser desse meu colega tem algo de servil, no melhor sentido da palavra. Servir! Tomara que Kraus encontre um senhor decente, é o que lhe desejo. Afinal, existem cavalheiros, senhorias, ou seja, patrões que absolutamente não apreciam nem desejam a dedicação total de um criado, pessoas que de fato não sabem acolher os verdadeiros préstimos de um serviçal.”

Sou eu, Jakob! É de mim que você fala. E, só para terminar o raciocínio: “Kraus tem estilo, há de lhe caber sem dúvida servir a um conde, isto é, a um senhor muito, muito nobre. Não se deve fazer alguém como Kraus trabalhar como um mero servo ou um operário comum”. Era um Kraus que me servia aquele nhoque. Um lorde da subserviência, um ditador da adulação, um artista da prestação de serviços, enfim.

Senhores, aquele homem compôs em sua bandeja e nos apresentou entre contas e guardanapos uma equilibrada sinfonia de obrigados e com licenças e eu, ignorante na arte do servir, não soube apreciar. E naturalmente o ofendi. Submetido por sua submissão, peço, portanto, seu perdão, garçom anônimo, ao mesmo tempo em que reconheço que não me sinto digno de todas suas atenções. Por favor, não me puna mais com esse olhar inquisidor de “você não sabe ser servido”.

No mais, Jakob von Gunten fala de uma renomada instituição de ensino em sua fase decadente. Em alguns trechos, é como se falasse dos problemas de uma escola brasileira. Se ainda não te convenci a ler o livro, apelo para o argumento editorial: Kafka curtia Walser. Talvez bastasse ter escrito isso, né?

ps: Esta é a primeira do que eu espero ser uma série de resenhas que vão passar a povoar este blog a partir de agora. Vamos ver se vinga.

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Written by Rodolfo Borges

Maio 15, 2011 às 4:07 pm

Publicado em Resenha

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6 Respostas

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  1. Sinta-se vingado.

    Rodrigo Borges

    Maio 15, 2011 at 4:20 pm

  2. Acho que acabamos de conferir o poder opressor de um bom texto. Pobre garçom, se tivesse ao menos ideia do que poderia ter te causado… talvez seria ainda mais submisso. =P

    Isabel

    Maio 18, 2011 at 4:23 am

  3. […] blog Literatura de verdade, o Rodolfo comentou Jakob von Gunten, de Robert Walser. No Quadro a quadro, o Lillo resenhou Na colônia penal, de Sylvain Ricard e […]

  4. Excelente o texto. Passei os olhos em algumas outras crônicas e fiquei muito bem impressionado. Recomendo que você ponha um índice de temas e autores citados. Gosto de literatura e senti falta de uma indicação dos autores que você comenta, como o Walser nessa última. Uso no meu blog dois índices, um de nomes de autores, outro de temas discutidos. Parabéns e continue a escrever. É raro ver textos de qualidade como os seus na internet.

    Isaías Caminha

    Maio 19, 2011 at 9:10 am

    • Obrigado, Isaías. Como você pôde perceber, a coisa ainda vai improvisada por aqui. Vou dar uma olhada nas ferramentas e tentar pelo menos um índice de escritores. Muito bom conhecer seu blog também. Abraço!

      Rodolfo Borges

      Maio 19, 2011 at 9:22 am

  5. Saber servir é um talento. Submete, sim; seu argumento é válido. Mas sei não… Sempre enxergo mais uma relação de pessoas (garçom-cliente; atendente-consumidor) que de prestadores de serviço. Gosto de humanizar o vínculo de só dois minutinhos de “com licença”, “obrigado” e “olá”. Acho que isso quebra um pouco o próprio manual ou pós-moderniza a arte do outro. =p Badalada sua indicação pela Companhia das Letras! Aguardamos mais resenhas.

    Diego Iraheta

    Maio 19, 2011 at 8:34 pm


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