Literatura de Verdade

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Sociedade: como faz?

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Jacques sem o "c"?

Você já tentou montar uma estante sem ler as instruções? E ligar um aparelho novo sem consultar o manual? Confuso, certo? Que tal viver sem ler o manual? Só me dei conta de que aqui, do lado de baixo do Equador, a gente joga assim, sem conhecer as regras, depois de ler Do contrato social (Penguin/Companhia das Letras, tradução Eduardo Brandão, 200 páginas), do bom selvagem Jean-Jacques Rousseau. E só aos 28 anos… Mas ninguém me disse que tinha um manual. Pois é, o convívio social tem manual, e não é de etiqueta – o que não quer dizer que vocês deve falá errado, multiplicar dividindo ou pousar os cotovelos em cima da mesa, por favor.

Ninguém me avisou e é por isso que eu estou te avisando. Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, você vai aprender a ser gente, diria o poeta, e a música popular brasileira nunca teria feito tanto sentido. Esse curto clássico do Rousseau, mais uma vez reeditado, nos oferece, em sua pretensão pelo fundamental, um belo apanhado das regras básicas que, se seguidas ou pelo menos levadas em conta por aqui, evitariam mensalões, consultorias público-privadas e, vejam só, até a existência do famigerado Movimento dos Sem-Terra.

É curioso, muito curioso, e extremamente frustrante, ler em Rousseau (1712-1778 – eu disse 1712-1778, século 18) que o poder Legislativo não deve ser sobrepujado pelos poderes Executivo e Judiciário, sob pena de ferrar tudo, e que “num Estado bem governado há poucas punições, não porque se agracia muito, mas porque há poucos criminosos: o grande número de crimes assegura a impunidade quando o Estado definha”.

Mas o que mais me tocou enquanto brasileiro-bom-de-bola foi perceber a forma como encaramos a lei por aqui. Consideramos a lei, de forma geral, como uma inimiga a ser combatida. É o pleito clássico daquilo que reunimos sob o nome de “movimentos sociais”. As manifestações de organizações como o MST têm em sua essência a ideia de que a legislação existe para lhes prejudicar ou, em outras palavras, “manter a opressão da elite”. Certo, mano?

É, ela costuma ser usada assim. O próprio Rousseau concorda, em outro livro, que isso é inevitável  (ah, a contradição, sempre deixando as coisas mais interessantes), mas a inevitabilidade não transforma o errado em certo. O pleito correto, sopra-me Do contrato social ao ouvido, seria o protesto pelo cumprimento da lei, e não pela sua mudança. Está no manual de utilização da vida em sociedade – ou pelo menos um deles. É claro que as regras precisam passar por atualizações. Conceitualmente, devem passar, desde que as mudanças beneficiem a maior parte da população.

Bem, isso tudo aí é discutível, concorda? Que tal discordar? Rousseau é autoritário nessa de achar que o homem deve ser forçado à liberdade? Você que sabe, mas vamos sair desse básico de a sociedade corrompe o homem. Ou vai continuar sem querer saber onde devia ter colocado os parafusos que sobraram na caixa?

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Written by Rodolfo Borges

Junho 13, 2011 às 9:44 pm

Uma resposta

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  1. Lei é feita para ser cumprida. Hmmm. Mas quem faz as leis? Ainda mais no Brasil? É a vanguarda da sociedade? São parlamentares com a melhor formação, as melhores credenciais? Fazem pelo desejo republicano de bem geral da nação? Ou simplesmente atendem a interesses de seus grupos (e aí podemos incluir movimentos dos sem terra, mas também latifundiários, empresários ricos, evangélicos)? Talvez Rousseau esteja certo no Contrato Social – e eu devo ler com a minúcia requerida para poder contestar -, mas em casos esdrúxulos como o Congresso brasileiro, um Executivo e um Judiciário fortes e vanguardistas salvam o País da Idade Média.

    Diego Iraheta

    Julho 24, 2011 at 8:50 pm


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