Literatura de Verdade

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É isto um homem?

with one comment

Liga o modo conversa de bar aí, que não pretendo passar disso. Encare-me como a um mero ministro do Supremo Tribunal Federal, sem poder para decidir a questão, que assim a gente tira o peso do debate e amplifica o caráter filosófico da coisa: Cesare Battisti virou gente diferenciada em Higienópolis e os italianos estão descontando em tudo quanto é brasileiro a decisão do ex-presidente Lula de mantê-lo no país.

Você acha que a gente devia ter deixado os italianos cuidarem do assunto, certo? Não, na sua opinião Lula acertou ao proteger o herói da resistência contra a fúria do sinistro Berlusconi. Pois é, não consigo condenar com tanta facilidade. Ou absolver em nome de causas políticas, mas eu sei lá se ele matou mesmo. Se estuprou. Eu sei é que essa discussão toda me levou por sabe-se lá que caminhos tortuosos ao Primo Levi.

O caso de Battisti não poderia ser mais diferente que o de Levi, hóspede por um ano do célebre campo de concentração de Auschwitz, e é exatamente baseado nisso que repito a pergunta do químico italiano: é isto um homem? Se é válida a dúvida sobre a condição de humanidade dos judeus aprisionados e executados em campos de concentração, forçados a trabalhar até o esgotamento, expostos nus ao frio da neve, alimentados por ração e submetidos a todas as humilhações possíveis apenas por serem judeus, o que dizer do oposto?

O que dizer de alguém que de fato tem algo do que se arrepender ou motivos para pedir perdão e, ainda assim, é dispensado de qualquer penalidade? Quer dizer, quando olha para Battisti, você vê o quê? Uma bandeira? Uma ideologia? O tal do animal político, seja lá o que isso for? Ou seria apenas um homem, sujeito a erros e, portanto, a punições? Se fosse acusado de matar inocentes em nome de Franco, Hitler ou Mussolini, Battisti mereceria (e receberia) nossa condescendência?

Só pergunto isso tudo, você sabe, porque realmente não me vejo (e não estou mesmo) na posição de julgar. Dizem que o cara matou quatro pessoas. Aliás, quatro inocentes, no sentido de que não estavam diretamente envolvidos nas disputas políticas de que Battisti participava na década de 1970. Mas vai acreditar na capacidade do governo italiano de julgar alguém, né?

É por isso que eu pergunto para quem conseguiu decidir, na esperança de receber uma resposta que o livro do Primo Levi deixa no ar: caro presidente Lula, então é isto um homem?

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Written by Rodolfo Borges

Junho 30, 2011 às 12:33 am

Uma resposta

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  1. Gostei da ponderação. A princípio, eu poderia criticar a decisão do STF (uma clara contradição ao que escrevi em teu outro post) e a pressão de Lula, com base no que li e cobri do Battisti. Mas, de fato, ao me tocar do histórico do governo italiano, sei não, meu’rmão… Por isso, fico com tua pergunta: é battisto um homem?!

    Diego Iraheta

    Julho 24, 2011 at 8:55 pm


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