Literatura de Verdade

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Cláudio Manuel da Costa e eu

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Sabe aqueles poetas de que a gente só ouve falar no colégio e que de tantas inversões de período e floreios nos traumatizam para a eternidade? Pois bem, resolvi dar mais uma chance a um deles, e talvez fosse melhor para Cláudio Manuel da Costa que tivéssemos ficado apenas na lembrança da escola. Caiu-me na mão Perfis brasileiros – Cláudio Manuel da Costa (Laura de Mello e Souza, Companhia das Letras, 2011, 272 páginas) e antes que eu te assuste mais do que pretendo, adianto que a ideia aqui não é duvidar da competência do poeta mineiro para o verso clássico (ainda preciso revisitar seu célebre Vila Rica para ver se engulo), mas apenas constatar que se Cláudio Manuel não me fisgou no colégio não foi apenas por incompetência  da professora: a vida do cara foi patética.

Não que a minha existência seja lá essas coisas, mas depois de passar pelas biografias de Rimbaud, Maiakovski,Twain, Proust, Kerouac, Faulkner, Dostoievski, Lispector, Leminski e até Kafka e Mann, confesso que saber como foi a vida de Costa me assustou. É claro que a vida dos escritores (inclusive os que citei) dificilmente compete com suas obras — seria covardia comparar a criação com essas realidades em grande parte banais –, mas a agitação interna e consequente produção literária dos grandes tendem a preencher o marasmo existencial a que até os gênios (e, talvez, principalmente eles) estão fadados. Não no caso de Cláudio Manuel da Costa e aqui vai por quê:

Filho da união entre um português e uma brasileira, Claudinho nasceu em junho de 1729, em Minas Gerais. Como rebento da classe média alta local (o pai reuniu relativo patrimônio às custas do próprio trabalho), o futuro poeta iniciou os estudos com os jesuítas no Rio de Janeiro e, a exemplo dos irmãos, foi completá-los em Portugal. Alma sensível, o garoto obviamente se encantaria com a vida agitada da metrópole, mas, com a morte do pai, seria condenado a voltar ao Brasil, para cuidar da família.

Aí já viu, né? Apesar de tecer famigeradas loas a Minas, Claudio queria mesmo é freqüentar as ruas de Lisboa. O jeito, então, foi se posicionar na elite mineira e, para isso, o poeta não hesitou em louvar qualquer que fosse a autoridade nas páginas dos jornais — se naquela época os governantes ainda tinham (ou pelo menos fingiam) alguma sensibilidade para se emocionar com versos, hoje pelo menos os poetas têm o pretexto da incompreensão e a pecha auto-imposta de malditos em que se escorar no caso do desprezo por suas obras.

Se esse tipo de bajulação pega mal pra qualquer pessoa, imagina pra um poeta… ossos do ofício, você dirá, e eu concordo. Não acho justo condenar o cara por isso — era como as coisas funcionavam naquele tempo. Mas, de qualquer forma, esses poemas ao prefeito e a busca obcecada por títulos de nobreza acrescentam detalhes sórdidos ao perfil do homem que, levemente envolvido com os inconfidentes, delataria a todos no primeiro interrogatório, para, no dia seguinte aparecer morto em sua cela — seu suicídio entrou para a história apenas como uma possibilidade, já que pode ter sido forjado.

Durante a leitura da biografia, cheguei a desconfiar por um momento que a falta de emoção na vida do poeta provinha da falta de qualidade do livro, mas a ausência de um estilo mais livre, leve e solto na pena da historiadora Laura de Mello e Souza (que exagerou nos gerúndios a ponto de me fazer notá-los e insistiu na repetição de algumas informações) se equilibra na rigidez e no detalhismo dos poucos dados que restaram sobre a vida de Cláudio Manuel, o que me leva a concluir que o poeta é mais vítima das circunstâncias que da biógrafa.

Se a vida do cara foi tão desinteressante, por que ler esse livro?, você, enfim, me pergunta. Dada a ridícula vida do poeta mineiro, minha primeira resposta seria: como forma de vingança — se é que você se sentiu ofendido por ser coagido, no colégio, a ler o que não poderia entender. Mas o livro também vale como registro de uma época em que muito do que condenamos e repelimos na atual sociedade brasileira estava a se consolidar.

Suspeita-se que o próprio Cláudio Manuel da Costa traficava diamantes, algo que, naquela época, tinha um quê de contestação do poder metropolitano — já que os impostos cobrados por Portugal eram muito altos e o Brasil já tinha uma elite em processo de consolidação. Se esse raciocínio não faz dos chefes do crime organizado inconfidentes, pelo menos ajuda a explicar o alto índice de sonegação de impostos — entre outros desafios ao Estado — no país.

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Written by Rodolfo Borges

Outubro 12, 2011 às 3:26 pm

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