Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Um retrato do poeta quando velho

with one comment

We poets in our youth begin in gladness
But thereof come in the end despondency and madness

William Wordsworth

Vai encarar, molecada?

Vamos falar a verdade, poesia é coisa de moleque. De Rimbaud pra baixo. Para escrever um poema depois de velho, o cara precisa sofrer de algum tipo de retardamento, nem que seja emocional. Não leva a mal, mas isso de remoer a infância perdida e sofrer pelos carneirinhos do campo não cai bem em marmanjo. Eu vinha pensando nisso, provocado pelo início triunfal e a queda melancólica do William Wordsworth, quando topei com esse livro do Ferreira Gullar que levou o Prêmio Jabuti. Aí você esquece tudo o que eu escrevi até agora.

“Em alguma parte alguma” é barra pesada. Desses livros que te estraçalham brutalmente com todo o carinho. Você pega a obra na estante como quem não quer nada e o cidadão vem com um tal de O que se foi: “O que se foi se foi. Se algo ainda perdura é só a amarga marca na paisagem escura. Se o que se foi regressa, traz um erro fatal: falta-lhe simplesmente ser real. Portanto, o que se foi, se volta, é feito morte. Então por que me faz o coração bater tão forte?”

Respira um pouco aí antes de a gente continuar.

Tem outros desses por lá, metrificados com requintes de crueldade, só para lembrar que não são apenas os poetas que sofrem do tal do retardamento emocional depois de velhos. São muito poucos, aliás, os que crescem. A diferença é que os poetas se expõem, mas a inconstância sentimental vale pra todo mundo, principalmente para quem sabe esconder melhor. E essa fragilidade, eu me arriscaria a dizer, vem aumentando progressivamente de intensidade.

Enquanto as crianças trocam boneca por salto alto e bola por telefone celular cada vez mais cedo, quanto mais velho o homem é mais novo quer parecer. No meio dessa artificialidade toda, não sobra tempo para perceber o que está acontecendo, mas fica tudo quebrado por dentro. Está aí, na buzina do seu carro, nos impacientes chiliques que você despeja sobre seus subordinados, na insegurança acerca do que pensam sobre a sua vida.

É para expor essa nossa fraqueza, no fim das contas, que o poeta continua a escrever depois de velho. Para mostrar que o osso, a parte mais dura (e a que mais dura) do nosso corpo, é a que menos somos, como diz o Gullar. É quando o jovem poeta, do alto de sua virilidade inconsequente, envelhece, deixando de ser uma força implacável da natureza voltada à destruição desordenada para passar a desmontar cirúrgica e serenamente, quando o poema deixa de ser sujo para se tornar límpido e cristalino, que ele se habilita a revelar a fragilidade humana em todo seu vigor.

Esses Whitmans, Wordsworths, Eliots e Drummonds velhinhos parecem inofensivos, mas não se engane, eles já chegam na voadora. É vale-tudo, MMA, chama como quiser. No fundo, é um pessoal mais durão que você, mesmo depois – e talvez principalmente – de passar dos 80, quando não têm mais nada a perder. Cuidado com essa turma, porque eles podem te fazer olhar pra dentro, e mais fundo do que você imaginava possível.

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Uma resposta

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  1. Sou tradutora. Estava procurando algo sobre Wordsworth quando …
    Que barbára a sua resenha, que cabeça profunda você tem. Faz muito tempo, quase meio século, que eu não via algém falar, entender e gostar de poesia. Origada pelo incentivo, Vou comprar o livro do Ferreira Gullar.

    Marilene

    Fevereiro 10, 2012 at 5:27 pm


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