Literatura de Verdade

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A história de um cachorro

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Sugestão do Como cães e gatos (http://cceg.tumblr.com/)

Eu não ia assistir ao vídeo. Cachorro é o meu fraco. Mas a coisa causou tanto alvoroço que a curiosidade passou por cima da prudência. Eu vi a cachorrinha tremendo, acuada. A cena é braba. E provocou tanto incômodo que a vida da agressora virou um inferno depois da divulgação das imagens. Como já se falou o bastante sobre esse mulher — e a exposição se encarregou de puni-la –, tentemos entender, enfim, o motivo de tanta comoção.

Quase que simultaneamente à onda de indignação provocada pelas imagens do espancamento da Yorkshire, surgiu um outro movimento, de relativização dos maus tratos. “É só um cachorro”, “crianças passam por coisa pior”, “os indignados não fazem nada quando veem mendigos com fome na rua”. Tem muita confusão nesses contrapontos, a começar pelo fato de que o registro em vídeo larga na frente de tudo isso, pela possibilidade de ser replicado.

Fosse uma criança sendo espancada até a morte, ou um velho indefeso ou um homem acuado por quatro ou cinco, imagino que a repercussão da cena seria igual ou pior, porque estamos falando de uma covardia, no fim das contas. É a constatação de que o bichinho não tinha como se defender que nos incomodou. Percebe que o que mais dói é saber que aquele pequeno cão não fazia ideia do que estava acontecendo?

Não existe nada mais genuíno que um cachorro. É uma idiotia permanente, pronta para servir. Não tem malícia, não tem maldade. É só a expectativa de receber e retribuir atenção. O cachorro é um inocente, por definição. Inocente demais para apanhar até a morte, pois não sabe o que faz. Está disponível ao condicionamento, vai fazer o que você ensinar que é correto. E se você não ensinar que é errado urinar no aparelho de ar condicionado, ele vai urinar lá.

Esse lance me bateu tão mal que instintivamente busquei refúgio num Tolstói. Os cavalos estão para o gigante russo assim como os cachorros estão para mim. Foi bom. “Khólstomer, a história de um cavalo” deu uma acalmada, mas também me fez perceber que o tema é pequeno demais para Tolstói. Para resolver a coisa toda, era preciso descer até Dostoievski.

O mestre de Iasnaia Poliana até que manda bem ao contrapor a utilidade do cavalo (mesmo depois de morto) à insignificância de seu antigo dono (antes e depois de morto). Mas quem expõe a dimensão da crueldade que o espancamento de um animal pode atingir é Dostoievski. E a coisa não é bonita.

Está no início do “Crime e Castigo”, quando Raskolnikov sonha assistir ao espancamento de uma égua feita apenas de pele e osso.

Ao deixar um bar, seis amigos embriagados se irritam com a fraqueza do animal, que não consegue mover a carruagem a que está atrelado. A égua leva chicotadas o bastante para ter o ímpeto de arrancar, mas não consegue sair do lugar. Está velha, maltratada e passa a receber pancadas no lombo, na cabeça, na barriga. Enfurecido, seu dono conclama os amigos a espancá-la até a morte.

Eles descem da carroça para acabar com o animal. De nada valem os apelos de quem os observa. A decisão está tomada e, diante da insistência da égua em respirar, o líder dos agressores pega uma barra de metal ou algo do tipo para finalizar o serviço. Bate mais de uma vez. A égua está presa, não consegue escapar e leva pancadas de todos os lados até cair ensanguentada. Raskolnikov acorda e se consola lembrando que foi apenas um sonho.

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Written by Rodolfo Borges

Dezembro 24, 2011 às 11:33 am

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