Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

Os anjos tortos

with 8 comments


O muro caiu há mais de 20 anos, mas ainda tem gente tacando pedra por cima dele. Os conceitos de direita e esquerda persistem — e existirão enquanto houver quem os sustente — , mas faz tempo que deixaram de fazer sentido. Sei que você acredita neles, mas o governante que você defende acredita? O jornalista que você defende acredita?

A moda é ser gauche, desde que a direita foi ferida de morte, fulminada pela associação com as mais sangrentas ditaduras da Europa — o curioso é que nem as mais sangrentas ditaduras da Ásia deram conta de exterminar o discurso de esquerda. O direitista vem sendo mantido vivo com o auxílio de aparelhos, contudo. Pelo esquerdista.

A que se resume a direita hoje? A tudo aquilo que destoa da ideologia dominante. Todo o contraditório é empurrado para esse terreno obscuro e mau. O incômodo questionador, seja ele quem for, diga o que disser, é de direita, racista, reacionário ou qualquer outro desabonador. Enquanto isso, o ideário de esquerda sobrevive como atestado de correção, ou pelo menos de boa intenção. Morre o debate, para o deleite de empresários e bicheiros apartidários, que, sem qualquer preconceito, ficam com a grana no fim.

Cortina de fumaça. É o papel a que a ideologia se presta. Veja o caso da Argentina. Baseado em argumentos legítimos — soberania entre eles — o governo argentino ignorou um contrato e tomou uma petroleira de um grupo estrangeiro. Quando vai para o campo ideológico, a discussão deixa de lado as questões principais: afinal, a expropriação era a melhor opção? Fará bem ao país? Do jeito que o assunto vem sendo discutido, a efetividade da medida do governo Kirchner pouco importa, já que ela é, antes de tudo, uma reação ao explorador, e, portanto, correta, seja qual for.

O engraçado é que o mesmo conceito de soberania que embasou a decisão de um governo “de esquerda” pode ser utilizado para criticar a direita. Vamos à França. Para os direitistas, é questão de soberania controlar (e até proibir) a entrada de imigrantes. Para os esquerdistas, o controle tem origem no racismo e na discriminação, ainda que baseado na soberania.

Na tentativa de se reeleger, o presidente Nicolas Sarkozy endireitou seu discurso para se alinhar a uma candidata de extrema-direita derrotada no primeiro turno. Cortina de fumaça. O problema da imigração não será resolvido enquanto debate ideológico, mas enquanto questão de organização social. Quem votou em Marine Le Pen percebeu a pirueta ideológica de Sarkozy e corre dele.

O ponto é: a França dá conta dos imigrantes? De quantos exatamente? De que forma? A maioria dos estrangeiros já vive à margem por lá — para mais, fica a sugestão de O terrorismo intelectual, do Jean Sévillia, que conta a história recente, principalmente da França, de outro ponto de vista. Incomoda e faz pensar.

O bonde vai passando cheio de pernas brancas pretas amarelas e a gente chega ao Brasil, onde as cotas raciais foram enfim consideradas constitucionais pelo Supremo. É, são permitidas pela Constituição, o que não quer dizer que sejam uma boa. O ministro Joaquim Barbosa aproveitou para tirar uma casquinha e desdenhou do “caráter marginal” daqueles que se opõem à política de cotas para negros nas universidades. É muito engraçado esse lance de ideologia.

É obvio que as cotas raciais são um sucesso por aqui. Sua efetividade para combater o racismo no Brasil nunca esteve em questão. Para que elas sejam efetivas, basta acreditar que elas são efetivas. Independente do efeito. É tudo simbologia. Não se pode medir. Pode ser que façam bem, pode ser que façam mal. É torcer pelo melhor.

Bem, fica aqui um texto para você escarrar toda a ideologia engasgada na garganta. Se conseguir purgá-la, pensa um pouco. Quando defender a bandeira política certa se torna mais importante do que tomar a atitude certa, há algo errado. Você quer rima ou solução?

Anúncios

8 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. discordo do texto inteiro, mas enfim, não peca pela falta de clareza. só tem uma passagem que não ficou muito clara: “A que se resume a direita hoje? A tudo aquilo que destoa da ideologia dominante.” Dominante dependendo do ponto de vista não? Certamente que o discurso da direita destoa de boa parte do discurso dos meus amigos universitários das ciências humanas, se tomarmos em consideração que a ideologia dominante é a ideologia dos meus amigos de bar. Mas se dermos uma rápida passada pelas caixas de comentarios dos jornais Folha, O Globo e O estado de São Paulo, certamente a ideologia dominante será outra. Isso pra ficar nos exemplos mais simplórios que eu observo no meu cotidiano (mas tenho a impressão que poderia estender esse exemplo pro congresso). Se você achar que vale desenvolver e tiver um tempinho pra isso, eu ficaria bem agradecida 🙂

    no mais, eu não sei que interlocutores são esses que você citou com respeito a questão da YPF, na passagem “uma reação ao explorador, e, portanto, correta, seja qual for.” mas eu não ouvi isso de ninguém aqui desse lado do rio da prata. e por último, como seria classificado isso de a sarkozy enviar tropas à costa do marfim?seria ideologismo barato achar isso uma aberração (não que isso seja o pior que acontece no mundo, mas só pra ficar no exemplo da frança). cortina de fumaça?
    um abração e bom feriado.

    Luanda

    Abril 27, 2012 at 8:12 pm

    • A cortina de fumaça vale para os dois lados, Luanda. Dei o exemplo do Sarkozy, que não acho abonador. Não entendi exatamente do que você discorda, mas a postura reativa faz todo o sentido.

      O tal pensamento dominante é o que embasa tudo aquilo que hoje consideramos como verdades, sem perceber que foi construído ideologicamente. É o pensamento dos esclarecidos e estudados como você, enquanto aos tais comentaristas de internet, ainda que sejam maioria, cabe o lugar marginal mencionado pelo Joaquim Barbosa. É paradoxal.

      A coisa fica mais clara no tal do Terrorismo Intelectual, que eu indico no texto. Fica a indicação mais uma vez. Abraço!

      Rodolfo Borges

      Abril 27, 2012 at 8:53 pm

      • certo, só não vejo o nosso congresso legislando pautado pelo pensamento dos esclarecidos e estudados como eu. código florestal é só o exemplo mais recente, pra não falar da lambança que foi a campanha presidencial pautada não pela discussão do aborto, bandeira levantada pelos esclarecidos como eu, mas justamente pela necessidade de fechar todos os canais por onde esse diálogo possa circular. e que tal o kit anti-homofobia, carinhosamente apelidado de kit gay? nem preciso me estender…
        quanto à minha postura reativa, vai ver foi porque não consegui ver a tal cortina de fumaça que vale para os dois lados. pra esse texto toma um partido claríssimo. e não estou falando de esquerda ou direita.
        boa noite, bom feriado.

        Luanda

        Abril 28, 2012 at 1:23 am

      • Obviamente que, no texto, mirei no mais forte. Porque praticamente não há a tal direita em que se acertar mais — tudo nesse espectro ideológico passou a ser questionável por definição e você se surpreenderia ao conversar, hoje, com alguém que se considera direitista, tal o grau de marginalização de que ele se sente vítima — afinal, não são todos de esquerda hoje? O partido de direita do Brasil não tem mais coragem de se assumir como tal. Não tem mais clima.

        O kit anti-homofobia foi, antes de tudo, uma iniciativa frustradíssima. Beirou o cômico (se não fosse trágico) e se prestou de arma para religiosos. Fosse bem feito, enquanto o promotor de tolerância a que devia ter se proposto, não haveria argumento contra ele.

        É claro que persistem setores conservadores no mundo, e ele é maioria na sociedade brasileira. A pergunta é: seus argumentos deixaram de ser legítimos? A inteligência nacional considera que sim. Que têm base em preconceitos ancestrais. Mas a liberação do direito ao aborto (inclusive no caso dos anencéfalos) tem implicações gravíssimas, e eu digo isso apesar de advogar a favor desse direito.

        O que eu pretendia manifestar no texto é que esses contrapontos (o de que, por exemplo, o aborto pode ser considerado um homicídio) costumam ser taxados de retrógrados e atrasados (reacionários e tal) pura e simplesmente, e são consequentemente desconsiderados, quando merecem ser levados em conta para que o debate possa ocorrer.

        O problema é que as plataformas de debate, hoje, se resumem a jornais e programas de tevê, que não permitem a profundidade necessária, e envolvem apenas grupos comprometidos com as causas em questão — ou seja, grupos que não estão dispostos a abrir mão de posições pré-determinadas. Não há espaço para construção coletiva. É sempre um grupo tentando se impor ao outro. Inclusive e principalmente dentro da universidade — cansei de ver a galera progressista da UnB calar o debatedor dissonante com vaias. Só fala quem concorda.

        O debate travado em torno do Código Florestal é mais um exemplo da tal cortina de fumaça. Se existe uma bancada de fato no Congresso Nacional, é a dos ruralistas, cuja ideologia é o agronegócio. A reforma do Código é necessária por questões de segurança jurídica e a chiadeira das ongs é legítima, apesar de ter muito de exagero. A questão principal, contudo, é que, seja qual for o Código sancionado por Dilma, o Estado brasileiro não vai cumpri-lo — assim como ocorre com todas as nossas leis, que são ótimas na forma, mas péssimas na aplicação — porque não tem capacidade para tanto. Ou seja, todo esse desgaste terá sido em vão, ou pelo menos terá servido apenas para desfilarmos nossas maravilhosas opiniões sobre o assunto.

        A usina de Belo Monte é outro debate que se trava nesse nível. Discutimos conceitos, o sexo dos anjos, e não saímos do lugar.

        Rodolfo Borges

        Abril 28, 2012 at 2:07 am

    • eu não discordo de que hoje em dia os direitistas tenham vergonha de se assumir como tal. mas diria que talvez isso se refira ao nosso contexto sul-americano. mas não acho que é só a esquerda que mantem a direita viva por meio de aparelhos, pra ter um antagonista identificável. recentemente a época quis provar por A + B que ainda tinha esperança para a direita, que ela estava na USP (pra contrabalancear com os vagabundos maconheiros), que apesar de poucos, não deveríamos perder as esperanças e sim ver onde vai dar a sementinha plantada pelos lindos e loiros e cultos (diferentemente dos vagabundos dorme sujo esquerdistas) direitistas.
      mas o que eu vejo sinceramente é um crescimento do conservadorismo. e talvez crescimento nem seja a palavra mais correta, porque sinceramente não tenho ferramentas para comprar o quão a sociedade era conservadora não sei, 30, 40 anos atrás e hoje. mas o conservadorismo da sociedade brasileira e do nosso congresso me assusta. por isso, infelizmente não penso que se o kit anti-homofobia tivesse sido feito de outra forma, teria passado no congresso. eu não sou tão otimista. quanto a questão do aborto, eu tenho que discordar mais uma vez, com respeito aos argumentos retrógrados e atrasados (não contra eles em si, que obviamente eu discordo, hahaha, mas no que diz respeito ao seu “caráter marginal”), ou ,ao exemplo que você colocou sobre a prática poder ser associada ao homicídio, enfim, na minha leitura, esses argumentos não só não são deslegitimados, como SÓ esses argumentos pautaram (e há quem diga que iria inclusive DEFINIR) a última e lamentável campanha presidencial.

      Luanda

      Abril 28, 2012 at 1:44 pm

  2. ah sim, com enviar tropas, eu quis dizer MANTER tropas

    Luanda

    Abril 27, 2012 at 8:15 pm

  3. Olá, Rodolfo. Tem um ponto no seu texto que eu gostaria de trocar ideias com você (e leitores): a efetividade do sistema de cotas para combater o racismo. Concordo que é algo que deve ser mensurado, assim como qualquer outra política, meta que seja estabelecida para que algum objetivo seja atingido. Com relação ao sistema de cotas, acredito que o objetivo (ainda) não seja mensurável para que sejam propostos indicadores. De qualquer forma, as reflexões que estão sendo geradas em torno deste assunto, auxiliam a chegarmos neste tipo de discussão e reflexão que você tem: a efetividade das políticas. Concordo. O que não concordo é não fazer nada. Às vezes, precisamos de uma medida como essa para sair do comodismo e começar uma mudança de fato. Mas, vamos ao lado prático que é o ponto aqui: como vc acha que podemos medir a efetividade das cotas? Que tipo de indicadores sejam eles quantitativos ou qualitativos?

    Camila

    Abril 27, 2012 at 11:13 pm

    • Opa, Camila, avancemos: para mim, o único mérito desse sistema de cotas raciais em relação a qualquer outra política é o fato de ter sido implantado. Realmente, algo foi feito e deflagrou um debate acerca do assunto. O que lamento é que o debate não tenha avançado para além de impressões pessoais, de ambos os lados.

      Talvez porque seja, de fato, impossível aferir seu efeito. Tem um economista americano chamado Walter Williams que não traça um perfil muito lisonjeiro das cotas. Tem entrevistas dele por aí (http://www.imil.org.br/divulgacao/walter-williams-existe-igualdade-racial-absoluta-nem-ela-desejvel/). Williams avalia que, por causa das cotas, “a competência de muitos negros é vista com desconfiança” nos EUA. Ele pode dizer isso, da mesma forma que se pode dizer que ver um negro em posição privilegiada dará às crianças negras o incentivo necessário para evoluir. São impressões, e ambas podem estar corretas. Não são excludentes.

      Por isso, entre outros motivos, prefiro a cota social (se a maioria dos pobres é negra, serão eles os beneficiados em maior parte, assim como serão os índios, os imigrantes nordestinos, ou qualquer outra categoria desfavorecida), porque iguala desiguais (por um critério mais transparente e, portanto, mais justo), mas sem promover o conceito que a cota racial reforça ao tentar combater, o de que pessoas de cores diferentes devem ser tratadas de forma diferente.

      Rodolfo Borges

      Abril 28, 2012 at 1:10 am


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: