Literatura de Verdade

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É-livro

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Diante da iminente chegada da Amazon e de seu Kindle ao Brasil, segue uma defesa, por parte de um leitor, de um mundo onde existem os e-books. Ou: a primeira (e provavelmente única) prestação de contas anual de um leitor eletrônico

Em um ano, entraram 35 livros nele, sem ocupar qualquer espaço (físico)

Ruy Castro não gosta do e-book. O jornalista e renomado biógrafo escreve com alguma frequência sobre o assunto para lembrar que o livro eletrônico é uma ameaça à indústria editorial, entre outras críticas. Pode ser. É um sentimento partilhado por muita gente, que, misturado ao saudosismo e ao fetiche (no bom sentido) da relação física com o papel, lembra aquela impressão que acompanhou o surgimento do cinema, da televisão e da internet, que, imaginava-se, matariam o teatro, o rádio e, no caso da rede mundial de computadores, a televisão, o jornal e qualquer outra plataforma de comunicação. Nenhum desses meios de expressão morreu com o surgimento dos concorrentes, mas todos foram afetados. É inevitável. O que não quer dizer que o livro eletrônico seja malvado. Pelo contrário: tem me tratado muito bem.

Em maio último, completei um ano de utilização do Kindle, o famigerado leitor eletrônico da Amazon. E o bicho se saiu muito melhor do que eu esperava. Esta, portanto, é uma defesa do e-book ou, mais precisamente, de um mundo onde existe o e-book – pelo ponto de vista do leitor, ressalve-se. Desde a compra, por cerca de US$ 200, em passagem pelos Estados Unidos – hoje ele pode ser comprado pela metade do preço – entraram 35 livros no meu e-reader (cabem mais de 3 mil). O último deles é “And the show went on”, que chegou ao Brasil recentemente como “Paris, a festa continuou” e fala sobre a atuação de artistas na França dominada pelos alemães de 1940 a 1944. Ele é a deixa para meu primeiro ponto: preço.

Economia

Por razões óbvias, o livro eletrônico pode ser vendido por um valor menor que o impresso – dispensa impressão, distribuição e estocagem, três dos mais dispendiosos processos para o mercado editorial. Comprei o livro do Alan Riding por US$ 10,95, ou R$ 22. A tradução que chega agora ao Brasil, pela Companhia das Letras, custa perto do triplo: R$ 54. Mesmo levando em conta as despesas com tradução e os direitos que a publicação da obra envolve, a diferença é grande. O tema é controverso e há quem defenda que o livro eletrônico só é viável se dividir os custos com sua versão impressa – o que não me parece lá um problema. Mas, na comparação entre impresso e eletrônico, a economia é incontestável quando se leva em conta que das 35 obras abrigadas pelo meu aparelho só sete foram compradas. E não apenas porque o livro eletrônico ainda não engrenou no Brasil.

Domínio público

Uma das grandes vantagens do e-book é proporcionar a leitura gratuita de obras de domínio público. Antes de comprar um aparelho desses, eu imprimia os livros disponíveis (há anos) na internet, em sites como o Project Gutenberg – não, isso de editar livros na impressora caseira não faz o menor sentido. Foi no Kindle que eu li, por exemplo, “The red badge of courage”, do Stephen Crane, “Heart of darkness”, do Joseph Conrad, e “The man who knew too much”, do G.K.  Chesterton. Pois é, todos em inglês, porque, por mais que já existam milhares de obras em português em domínio público, a maioria delas não está disponível em versão digitalizada, muito menos no arquivo .mobi, lido pelo Kindle (ele também lê PDF, mas com menos desenvoltura – não permite, por exemplo, aumentar ou diminuir a letra).

Não tem mais onde botar livro por aqui, Ruy

Mercado

A exceção em língua portuguesa, no meu caso, foi uma edição de “Obras Poéticas” do Gregório de Matos, mas tive de comprar “O Cortiço”, do Aluisio Azevedo, e uma edição de “O triste fim de Policarpo Quaresma”, do Lima Barreto, ambas por algo em torno de US$ 3, e com qualidade evidentemente inferior às edições em inglês. A falta de desenvolvimento do mercado digital brasileiro (Gato Sabido e Positivo, dona do Alfa, são valentes, mas ainda inexpressivas) é também uma das prováveis razões para eu continuar lendo mais no papel do que no Kindle.

Dos 30 livros lidos desde maio do ano passado – só entram na conta os finalizados –, apenas sete foram eletrônicos. Isso deve mudar com o desenvolvimento do mercado local, algo que só vai acontecer depois que chegar a Amazon (fala-se no segundo semestre deste ano), que conseguiu elaborar um produto de qualidade, capaz de suprir as necessidades do cliente – além de seu e-reader ser fácil de manusear e emular com competência a experiência de leitura no papel (sua tela não irradia), é possível adquirir o livro por meio do próprio aparelho, e em qualquer lugar, já que a companhia arca com a conexão 3G.

O problema é que as últimas notícias sobre as negociações para a entrada da gigante americana no Pais não são muito animadoras. Assim como a Apple e o Google, a grande empresa tem a prerrogativa de impor seus preços e condições, o que dificulta qualquer acordo e pode aleijar o mercado brasileiro (apenas 10 editoras nacionais fecharam com a companhia de Jeff Bezos, que almejava fazer negócio com pelo menos 100). A novidade é que a fabricante do e-reader Kobo, do Canadá, também iniciou as negociações para entrar no Brasil. Além disso, a Microsoft anunciou investimento de US$ 300 milhões no Nook, o livro eletrônico da livraria americana Barnes & Noble, numa indicação de que o mercado mundial deve crescer, promovendo a concorrência e, espera-se, um melhor serviço.

Espaço

Essa é a minha esperança para conseguir guardar mais obras do que um apartamento de um quarto permite. Lá se vai a época em que se podia exibir paredes e paredes preenchidas por livros em casarões magnânimos. As habitações encolheram, com raras exceções, e falta espaço – é bom saber que as 760 páginas da robusta “Autobiografia do Mark Twain” estão humildemente concentradas dentro do meu Kindle. Vai nessa constatação meu último argumento em defesa do livro eletrônico, que nunca terá a beleza de uma encadernação impressa nem poderá competir com a sedução de uma edição comemorativa, mas pode te surpreender quando, em resposta a um desejo impulsivo de leitura, disponibilizar imediatamente uma biografia do William Faulkner que, há bem pouco tempo, levaria dias para chegar à sua mão. O e-book não é inimigo do livro de papel. Eles são irmãos, se complementam, e, enquanto família, terão de aprender a conviver juntos. Aqui em casa, está funcionando.

Esta foi para a Oásis.

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Written by Rodolfo Borges

Junho 8, 2012 às 1:02 pm

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