Literatura de Verdade

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Haddad, uma tragédia

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“Que espera ainda a cabeça que se crava
Só na matéria estéril, rasa e fria,
Que por tesouros com mão cobiçosa cava
E ao encontrar minhocas se extasia?”
(Fausto, Goethe – tradução Jenny Klabin Segall)

Fausto, Mefistófeles, Lula, Maluf, a turma toda, enfim, no jardim de Margarida

Esta é a história de um ex-ministro que queria virar prefeito de São Paulo e, para tanto, se prestou a fechar um pacto com o deputado Paulo Maluf. A mesma tragédia vem sendo contada há séculos. Na versão de Goethe, Fausto aceita servir ao demônio após a morte em troca dos mesmos serviços enquanto vivo. Na versão de Lula, Fernando Haddad entrega a alma por 1 minuto e meio. A diferença é que Maluf é mais esperto que Mefistófeles.

Enquanto o famigerado Mefisto concede uma vida inteira para Fausto se arrepender, o abominado ex-prefeito de São Paulo cobrou a fatura no ato: tem que tirar foto lá em casa. Erundina não suportou e deu uma de Gretchen (não essa da Fazenda, mas a trágica Margarida desvirtuada por Fausto): “Esse homem que anda ao teu redor, odeio-o na mais funda alma interior; em toda a minha vida, nada no coração já me deu tal pontada, como desse homem a vulgar feição”.

O pior é que Lula está certo. Se impôs o desafio e segue obstinado para alcançá-lo. Ele sabe que há um pessoal a quem a foto ao lado de Maluf não agride e que o que define eleição por aqui é a televisão. Haddad ganhou cinco pontos nas pesquisas depois de frequentar programa de auditório e propaganda eleitoral ao lado do ex-presidente. É pouco? Mais um argumento a favor da estratégia por tempo de TV. Se vai dar certo, é outra história.

O lado bom disso tudo é que o ex-presidente enfim expôs, para quem ainda se negava a enxergar, a quantas anda a política nacional. Se quase ninguém criticou José Serra pelo seu também incoerente acordo com o PR de Alfredo Nascimento (que o PSDB condenava semanas antes), é porque já não se espera muito mais dele. Mas Lula e os seus, que vêm se entendendo com gente do quilate de Maluf pelo menos desde 2002, agora se prestaram a externá-lo sem pudor, e da forma mais explícita possível.

É por essas linhas tortas que nasce o “novo” em São Paulo. Há quem ache que vale a pena, mas fica, para Haddad, a dica de um Valentim ferido de morte a sua irmã Margarida: “Quando, de início, a infâmia nasce, trazem-na ocultamente ao mundo, e põem-lhe o manto mais profundo da noite sobre o ouvido e a face; matar-na-iam, até, com gosto. Mas, quando fica alta e crescida, também de dia anda despida, sem que se lhe embeleze o rosto. E quanto mais cresce em feiúra, a luz do dia mais procura”.

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Written by Rodolfo Borges

Junho 23, 2012 às 4:12 am

2 Respostas

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  1. Deixo como comentário postagem do meu blog Brasil’s news:

    A foto acima, na minha opinião, é destinada àqueles que aderiram a manipulação, intencionalmente ou não, da mídia, assim como fez Erundina, intencionalmente ou não. A grande verdade é que o todos nós, assim como a imprensa, sabem que o governo federal é coligado com o PP de Maluf desde sempre , assim como Lula aceitou o apoio de Sarney, que é outro câncer neste país. Por que só agora a indignação hipócrita se manifesta de maneira tão contundente? Porque há uma eleição em curso. Tudo que é dito sobre Maluf e Sarney é verdade e os dois são, repito, cânceres para o Brasil. Mas se o PT não tivesse aceito o apoio deles, se não tivesse mudado seu discurso purista não teria eleito Lula. E aí não só não seria possível as mudanças sociais que foram feitas como, pior ainda, mergulhado que era no neoliberalismo, o Brasil estaria a disputar o fundo do poço com a Grécia. É isso que a direita e a elite, que se confundem, querem. Não resta a direita senão o discurso moralista. O povo que se ferre! Não me recordo de que o Governo Lula e agora o governo Dilma tenham mudado suas metas de melhoria nas condições de vida do povo porque se aliaram com Sarney e Maluf. Pelo contrário me recordo de Sarney, na condição de Presidente do Senado, encaminhar as votações de interesse do Governo e o partido de Maluf votando a favor. O PT e Governo não mudaram, eles mudaram, vamos deixar claro aqui, não porque ficaram bons de uma ora para a outra, mas porque, como parasitas, se encostam em quem tem poder e ficam sugando. Estamos indignados com isso? Vamos fazer pressão junto ao congresso para que se vote um reforma política decente para acabar com essa dependência dos partidos nanicos para a tal “governabilidade” e exigir outras reformas importantes. Se não mudarmos este quadro a cantilena será sempre essa. Agora, voltando a São Paulo, cadê a indignação com a candidatura de quem sofre as acusações do livro A Pirataria Tucana, José Serra? Em outro país ele não seria sequer candidato! Mas aqui no Brasil lidera as pesquisas. O que é que a direita e a imprensa que o apoiam querem? Que o PT não repita a aliança que tem com o PP em nível federal para alavancar, ou não, a sua candidatura. Por quê? Porque são Paulo é o último grande reduto da direita corrosiva no Brasil e eles morrem de medo de perder São Paulo. Mas vão. Quem quiser se deixar manipular pela foto, que se deixe, eu fico com o meu objetivo maior: mudar as condições de vida do povo pobre de são paulo porque os ricos, esses são amigos de Serra, de Sarney e de Maluf e não estão nem aí para o povão.

    Professor Ramos

    Junho 23, 2012 at 9:39 am

    • Naturalmente que também há o jogo político nisso tudo, professor. E, enquanto cético, realmente não sei como interpretar essa confiança que algumas pessoas insistem em ter em qualquer que seja o político brasileiro que efetivamente participa do jogo do poder, tudo em nome de suas pretensas boas intenções. O discurso do social no governo Lula desempenha papel politico semelhante ao dessa foto e ao de tantos outros elementos utilizados para valorizar ou condenar condutas. Foi durante o governo que “cuidou do social” que os bancos mais lucraram. Foi esse governo também que seguiu a agenda econômica “neoliberal” do governo anterior — e essa continuidade permitiu a estabilidade econômica, um dos pilares da tão celebrada “ascensão da classe C”. No fim das contas, chegamos a um ponto em que cada grupo político-partidário acredita no que quiser, cria seu próprio discurso e passa a valer-se dele como se fosse a verdade, em cima de um bando de números que vão dizer o que eles quiserem. Pessoalmente, não consigo acreditar em nenhum desses discursos. O país avança devagar, mas avança, e eu sei (ou espero) que uma hora essa idade de trevas na política vai passar. Talvez então eu saia por aí defendendo alguém.

      Rodolfo Borges

      Junho 23, 2012 at 2:25 pm


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