Literatura de Verdade

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O julgamento de Zé Dirceu

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“Julgamento é defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.”

“Ou me matam logo, aqui, ou então eu exijo julgamento correto legal”. É Zé Bebelo, ao ser detido pelo bando de Joca Ramiro, no Grande Sertão: Veredas, mas podia ser o xará Dirceu lhe parafraseando: “toda hora eu estou em julgamento”. O ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza acusou – “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei…”, no estilo Joca Ramiro. E quem cita a resposta de Zé Bebelo sou eu:  “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo…”.

Pois bem, para ficar no Guimarães Rosa, coube ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, o papel do jagunço Hermógenes neste início de julgamento do mensalão: “Acusação, que a gente acha, é que devia de amarrar este cujo, feito porco. O sangrante… Ou então botar atravessado no chão, a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se vida sobrava, para não sobrar!”, guardadas as devidas proporções, naturalmente.

O problema, pondera a defesa, liderada por Marcio Thomaz “Sô Candelário” Bastos, é a falta de provas: “Crime? Crime não vejo. É o que acho, por mim é o que declaro: com a opinião dos outros não me assopro. Que crime? Veio guerrear, como nós também. Perdeu, pronto!… Pois, sendo assim, o que acho é que se deve de tornar a soltar este homem, com o compromisso de ir ajuntar outra vez seu pessoal dele e voltar aqui no Norte, para a guerra poder continuar mais, perfeita, diversificada…”.

Encruzilhada. “É o diabo na rua, no meio do redemoinho”, repete Riobaldo, a quem cabe o papel que se espera do ministro Dias Toffoli, ex-advogado do PT, entre outras coisas, no julgamento de Zé Dirceu. Riobaldo, que lutara no bando de Zé Bebelo, está do outro lado no momento da captura e expõe ao bando a simbologia daquele processo – pegaria mal matar Zé Bebelo (“Um fato assim é honra? Ou é vergonha?”).

Mas, enquanto símbolo, o processo é mais complexo, percebem os jagunços. Deixar o inimigo sair impune também não faria nada bem à imagem do grupo. Daí a opção de Joca Ramiro por uma pena intermediária: banir Zé Bebelo de Minas. Banido, o condenado se compromete a respeitar a pena e se exila. Mas, nesse ponto, pelo menos no Grande Sertão, a história não chegou nem à metade.

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Written by Rodolfo Borges

Agosto 5, 2012 às 12:31 pm

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