Literatura de Verdade

Um blog sobre livros e notícias. E notícias sobre livros.

O mal-estar no mensalão

with 2 comments

Hora da terapia, turma

É enquanto celebra a derrocada definitiva do outrora arqui-rival Democratas nas eleições municipais que o Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores atribui à tal ‘direita conservadora’ a condenação de suas lideranças no julgamento do mensalão. Ora, houve alguém mais conservador no julgamento da Ação Penal 470 que o ministro-revisor Ricardo Lewandowski?

Único a inocentar o ex-presidente do PT José Genoino e, desta vez acompanhado pelo ex-advogado do PT Antonio Dias Toffoli, a absolver o ex-ministro José Dirceu da acusação de corrupção ativa, Lewandowski chegou a defender o que, até antes de chegar ao poder, o PT condenava veementemente: a absolvição dos cabeças por falta de provas irrefutáveis e a condenação dos já consagrados  ‘mequetrefes’. Voto vencido.

Da mesma forma que se beneficiou do amadurecimento econômico do país – o que lhe valeu o invejável capital político que se confirmou mais uma vez nestas eleições –, o PT ironicamente virou vítima do nosso amadurecimento institucional. Ao repetir em escala amplificada práticas consagradas na nossa política, membros do partido acabaram punidos. Celebrar que o eleitor não tem dado tanta atenção à coisa é o detalhe sórdido a que eles se prestam.

É evidente que nossa economia ainda não está lá essas coisas, assim como nossas instituições. Há muito por fazer (Lula, por exemplo, ficou de fora da denúncia), mas quem imaginaria que, no Brasil, os juízes indicados por um presidente condenariam a cúpula de seu partido? Diante da evidência, apenas os condenados e seus seguidores parecem querer negar que algo mudou.

Em seu O mal-estar na civilização, Freud destaca entre nossas estratégias de busca pela felicidade a tentativa de se proteger do sofrimento por meio de uma delirante modificação da realidade. “Naturalmente, quem partilha o delírio jamais o percebe”, escreveu o pai da psicanálise. Hora da terapia, turma.

Anúncios

Written by Rodolfo Borges

Outubro 20, 2012 às 11:45 pm

2 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Concordo com o texto em linhas gerais. Todos, todos sem exceção, que cometeram crimes devem pagar por isso. O que nós, que estamos indignados com esse julgamento, queremos é que os mesmos pesos e as mesmas medidas sejam usados para todos. Por exemplo, desde janeiro que a mídia pressionava para que o mensalão do PT fosse julgado para que os crimes não prescrevessem. Essa mesma mídia não diz uma palavra sobre o mensalão do PSDB que aconteceu vários anos antes e portanto corre mais riscos de prescrever. O STF desmembrou o julgamento do PSDB, como manda a lei aliás, quem não tem foro privilegiado voltou para a primeira instância o do PT não. É isso que tem que ter que ser combatido.

    ramosbill@gmail.com

    Outubro 21, 2012 at 10:49 am

    • ramosbill, entendo o incômodo petista diante da comparação com o mensalão alheio, mas tendo a desconfiar quando se atribui qualquer responsabilidade à ‘mídia’, que, segundo o pessoal do PT, não conseguiu prejudicar o partido nestas eleições (quanta força têm os jornais, afinal?). Outra: os artífices do mensalão não se tornam inocentes apenas porque os tucanos não foram julgados. Outro ponto importante para mim é que, até a eclosão desse esquema, o PT se apresentava e era visto como um partido diferente. Ele não é mais tão diferente assim, e a militância precisa entender isso, para, enfim, aceitar que as coisas mudaram.

      Rodolfo Borges

      Outubro 21, 2012 at 11:44 am


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: