Literatura de Verdade

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A literatura brasileira bate em retirada

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Muita retórica

Rodrigo Gurgel reuniu a tropa e deu início à retirada. Começou por José de Alencar, Aluísio Azevedo e Graça Aranha, entre outros, que, sem víveres para se bater com Goethe, Dostoievski e Flaubert, voltam para casa em clima de A retirada da Laguna, a crônica do Visconde de Taunay sobre o fracasso na Guerra do Paraguai. Publicado no segundo semestre de 2012, Muita retórica – pouca literatura (Vide Editorial, 228 páginas) reúne os textos inaugurais do projeto em que o crítico se propõe a passar a limpo o cânone literário brasileiro. O recuo é estratégico e contribui para reforçar as trincheiras literárias nacionais.

Gurgel ficou mais conhecido depois de interpretar o papel de ‘jurado C‘ no último Prêmio Jabuti. Valendo-se do novo sistema de pontuação (até então, as notas eram de 8 a 10), ele pontuou entre zero e 1,5 metade dos dez finalistas, entre eles a presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado. A estratégia definiu o premiado de melhor romance, Nihonjin (Benvirá), de Oscar Nakasato. Barulho no mundo literário, condenações e elogios, e, após muita polêmica, um sentido, tanto nas explicações de Gurgel sobre as notas quanto no livro em questão.

Muita retórica – pouca literatura reúne ensaios publicados no literário Rascunho de 2010 a 2012, em que Gurgel se propõe a julgar sem patriotismos a qualidade literária da prosa nacional. E, como o autor alerta, a tarefa nem sempre é agradável. O que mais me doeu foi a crítica feita a Aluísio Azevedo e seu O Cortiço. Gurgel não suporta o naturalismo reforçado pelo maranhense em todo e qualquer personagem (e até em seres inanimados) – mas eu cairia de novo, numa boa, no molejo da Rita Baiana.

Ao mesmo tempo em que rebaixa medalhões como José de Alencar e Raul Pompéia, apontando uma retórica vazia e enredos inconsistentes ou melosamente rebuscados, Gurgel eleva nomes pouco celebrados, como João Francisco Lisboa e Eduardo Prado. Mas o autor também reforça o prestígio de clássicos, como Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e destaca o “épico às avessas” de Taunay que deu mote a esta resenha.

O mais agradável desse livro, aliás, é perceber, a cada ensaio, como Gurgel se preocupa em elogiar o que considera bom e criticar aquilo de que não gosta, mas sem se furtar a deixar claro o resultado do somatório das virtudes e defeitos do livro em questão. Sua crítica a Machado de Assis e Dom Casmurro é uma prova de que, diante de grandes obras, a honestidade intelectual, ainda que rígida, pode (e vai) soar mais elogiosa que a mera bajulação, principalmente quando acompanhada por alguma categoria.

Gurgel se declara conservador, algo considerado pecado hoje em dia, e que, na ocasião do Jabuti, contribuiu para alimentar críticas a ele. Antes de sair correndo assustado, contudo, considere que, diante de uma intelectualidade historicamente dominada pelo pensamento de esquerda (e responsável por consagrar o cânone), essa posição não apenas é essencial para viabilizar os contrapontos propostos, como inevitavelmente destaca a obra. Entre mortos e feridos, que o resto da tropa passe em revista.

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