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O estranho caso dos médicos cubanos

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Entre um homicídio e outro, Hyde protesta por um melhor sistema de saúde

Entre um homicídio e outro, Mr. Hyde protesta por um melhor sistema de saúde

É como se, após tomar uma poção, os médicos brasileiros tivessem trocado o jaleco de Dr. Jekyll pela capa de Mr. Hyde. Desde que o governo federal anunciou a intenção de trazer doutores cubanos para trabalhar onde os egoístas e mimados profissionais locais não querem, estes passaram a responder por uma parcela das mazelas da saúde brasileira. Faz sentido?

Consideremos a possibilidade de, ao se opor à proposta, os clínicos brasileiros estarem apenas interessados em preservar uma reserva de mercado — algo de que, aliás, eles já vinham sendo acusados, mas por defenderem o Ato Médico — e, ainda assim, a demanda dos doutores será justa. Afinal, por que trazer 6 mil médicos estrangeiros, e logo de Cuba?

Descartemos os argumentos dos governistas, que apoiarão tudo que o governo propuser, e dos anti-governistas, que enxergam até risco comunista nessa história. Para tanto, basta levar em conta o fato de que a ‘exportação’ de médicos é a maior fonte cubana de divisas. Por que os médicos tinham, ao menos na proposta inicial, de ser cubanos, portanto, nós já sabemos.

Como resposta à péssima repercussão da ideia, o governo anunciou que também estava nos planos trazer profissionais europeus. A essência da polêmica, contudo, permanece: para obrigar esse pessoal a trabalhar onde ninguém mais quer, é preciso criar um regime especial, já que, uma vez revalidados seus diplomas, eles podem trabalhar onde bem entenderem. Para evitar essa liberdade, os participante do programa ‘Mais Médicos’ não precisarão comprovar competência e capacitação pelos meios tradicionais.

Diante do quadro, o entusiasta da importação de médicos argumentará, com aparente razão, que é melhor um médico limitado do que nenhum médico a trabalhar nos rincões do país. Infelizmente, não é o que dizem as associações médicas da Venezuela e da Bolívia, que abrigam, desde a década passada, cubanos que alegam ser médicos, mas que protagonizam, entre um curativo e outro, erros grosseiros e fugas para países vizinhos.

A importação de profissionais estrangeiros desqualificados está longe de ser a melhor solução para o problema de distribuição de médicos pelo território nacional — consequência, ao que consta, da falta de condições de trabalho. As melhorias dependem de mais (e melhor) investimento, mas não apenas dele, como o governo parece ter percebido depois de, confrontado, decantar sua proposta.

Só não vale acreditar em elixir governamental que, da noite para o dia, altera o caráter moral de toda uma categoria, transferindo-lhe a responsabilidade por falhas que são da política pública de saúde.

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Written by Rodolfo Borges

Julho 8, 2013 às 1:29 pm

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